MERCADO DIGITAL
Nº edição: 447 | 12.ABR - 10:00 | Atualizado em 13.08 - 22:37
O novo salto do dragão
Conhecidas pela produção em larga escala, empresas chinesas investem pesado no fortalecimento de suas marcas
Por cristiane barbieri
Quem foi aos principais eventos culturais e esportivos desse início de ano percebeu: os chineses estão por toda parte. Show do U2? Patrocinado pelo fabricante de eletrônicos BenQ. A exposição recordista de público Dinos na Oca? Quem bancou foi a marca de monitores AOC. Olimpíadas de Turim? O logotipo dos computadores Lenovo estava por todos os lugares. É esse o ponto. Depois de se tornar a fábrica do mundo, a China quer ter empresas com marcas globais. E está pagando qualquer preço – afinal de contas, os chineses têm caixa de sobra – para cortar caminho e alcançar seu objetivo mais rápido. Parte do grupo TPV, que teve receita de US$ 6 bilhões no ano passado, a AOC fabrica nada menos do que 28% de todos os monitores de computador vendidos no mundo. A empresa resolveu, no entanto, que era hora de ganhar mais dinheiro, aumentando a rentabilidade de seus produtos. Comprou a parte da Philips em dezembro de 2004, por US$ 358 milhões, e agora investe para globalizar o seu logo. “Nossa primeira iniciativa no Brasil foi patrocinar a Dinos na Oca, mas teremos um plano de mídia mais agressivo no segundo semestre”, afirma Alec Chan, presidente da AOC nas Américas e diretor-geral da AOC Brasil.
A Lenovo está na mesma trilha, de forma diferente. Em dezembro de 2004, a empresa adquiriu a unidade de computadores pessoais da IBM, por US$ 1,2 bilhão, além de assumir US$ 500 milhões em dívidas. Como resultado, conseguiu faturamento anual de US$ 12 bilhões, presença em 160 países e a possibilidade de usar a marca IBM por cinco anos. E tem explorado esse fator à exaustão. “Os chineses tiveram a humildade de reconhecer que não têm competência para desenvolver marcas fora da China”, afirma Flavio Haddad, presidente da Lenovo Brasil. “Passaram então a adquirir empresas para aumentar seu potencial de sucesso global”. Depois de patrocinar as Olimpíadas de Inverno em Turim, a Lenovo colocou sua marca em anúncios de revistas e na TV, ao lado do logotipo da IBM. A intenção é fazer com que a admiração por uma marca seja transferida para a outra. Bem como mostrar que, mesmo com a troca de mãos, no fundo, nada mudou. “Nossa base de vendas foi mantida e chegou até mesmo a crescer um pouco”, diz Haddad. Mais recentemente, em junho, foi a vez da fabricante de eletrônicos taiwanesa BenQ comprar a unidade de celulares da Siemens. Com receita de US$ 13 bilhões em 2005, a BenQ também irá explorar a marca pelos próximos cinco anos. Deu início ao acordo com uma forte campanha de marketing mundial e colocou sua marca no peito de celebridades brasileiras ao se tornar um dos patrocinadores do show do U2, em fevereiro. “Vincular a marca ao show do U2 tinha tudo a ver com nossa comunicação”, diz Denise Santos, diretora-geral da empresa. Ela explica que BenQ significa Bring Enjoyment and Quality to Life (algo como Trazendo qualidade e prazer à vida). “Um evento como esse tem tudo a ver com a proposta da marca”.
Enquanto aprendem a disputar o mercado de marcas, os chineses seguem firmes na produção de equipamentos anônimos que levam a etiqueta de seus clientes. “A capacidade de nossa fábrica está sendo utilizada em 90%”, diz Chan, da AOC. No ano passado, a empresa teve crescimento de 40% em receita no Brasil, onde faturou US$ 120 milhões. Sua preocupação, além da marca, é com a estrutura de vendas. “Depois de consolidar suas marcas, os grandes grupos chineses avançarão na distribuição e comprarão redes de varejo”, prevê Marcos Gouvêa de Souza, especialista em varejo e sócio da consultoria GSMD. “Eles aprendem rápido, têm pressa e querem fechar o ciclo produto-marca-distribuição”. Nesse ritmo, o mundo será deles. E muito em breve.
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