ECONOMIA

Nº edição: 646 | Economia | 19.FEV.10 - 18:27 | Atualizado em 13.06 - 16:04

Um governo ausente e caro demais

Mergulhado na lama, o Distrito Federal, que custa ao País R$ 22,5 bilhões ao ano, já não tem mais comando. E muitos defendem até o fim de sua autonomia administrativa

Por Guilherme Queiroz

Na quinta-feira 18, Brasília inteira esperava ouvir do governador interino do Distrito Federal, o empresário Paulo Octávio, homem mais rico da cidade, o comunicado de sua renúncia ao cargo. Mas o que se viu do púlpito, no salão principal do Palácio Buriti, foi um envergonhado anúncio de que ele continuará – embora não se saiba por quanto tempo.

“Não posso renunciar da obrigação de servir a Brasília e a seu povo”, disse Paulo Octávio. Ao mesmo tempo, ele afirmou que tem uma carta de renúncia já escrita. Foi um movimento inédito na história política brasileira – na prática, Paulo Octávio renunciou à própria renúncia. Mas o que ficou evidente é que Brasília não tem mais comando.

A capital federal convive hoje com um governo não apenas fraco e ausente, mas também caro demais. O GDF custa R$ 22,5 bilhões ao ano. Medido em termos per capita, o orçamento do Distrito Federal, de R$ 8,6 mil por habitante, é, disparado, o maior do País e quase três vezes superior ao de Estados como São Paulo e Minas Gerais.
 
Tanto dinheiro e tanta corrupção serviram para reacender um debate antigo e polêmico: Brasília deve manter o direito de se autogovernar, independente administrativa e financeiramente da União – apesar de receber dela um terço do seu orçamento? Ou seria melhor dar autonomia às cidades-satélites para que elas elegessem seus prefeitos?

Para o arquiteto Carlos Magalhães, que está na cidade desde a construção da nova capital e ocupou cargos importantes em várias administrações, a melhor solução seria a gestão federal do Plano Piloto, onde estão os ministérios e prédios públicos, e a autonomia das cidades-satélites, com prefeitos eleitos pela população. Ele defende a tese desde o início da década de 1990, quando já percebia sinais das distorções que permanecem até hoje. 
 

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“Brasília é grande demais para ser sustentada por outros Estados e pequena demais para se sustentar”, argumenta.

Apesar da maior renda per capita do País e de um orçamento por habitante quase três vezes superior ao de São Paulo, a população da capital não recebe os benefícios equivalentes ao polpudo volume de recursos administrado pelos governantes. O índice de desenvolvimento humano é elevado no Plano Piloto – 0,94, o equivalente ao do Reino Unido –, mas em algumas cidades-satélites, como Ceilândia, com meio milhão de habitantes, é de 0,78, semelhante ao do Paraguai.

As desigualdades são facilitadas pelo atual modelo político, que prevê a eleição de um governador pelos 2,6 milhões de habitantes do Distrito Federal. Que por sua vez tem autonomia para nomear os administradores das 23 cidades-satélites, algumas delas com população maior do que a do Plano Piloto. Taguatinga, Samambaia e Ceilândia têm, juntas, quase metade da população do Distrito Federal.
 

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Além da centralização da administração, Brasília também se beneficia do Fundo Constitucional, uma conta financiada pelo contribuinte que remunera Brasília pelo ônus de sediar a capital federal e as representações diplomáticas. Para este ano, estão previstos R$ 7,6 bilhões em repasses do fundo para custear a saúde, a educação e a segurança pública locais, o equivalente à metade do orçamento próprio.

Livre de arcar com os segmentos mais onerosos da administração pública, o governo local tem folga extra para destinar partes de seu orçamento às obras de grande vulto típicas das últimas gestões – muitas delas com suspeita de irregularidades. A lei atribui também à União a responsabilidade de arcar com a Justiça do Distrito Federal e com o Ministério Público, despesas que os demais Estados têm de bancar com recursos próprios. Em 2010, os órgãos custarão R$ 1,9 bilhão.
 
Há mais de duas décadas, a discussão sobre a autonomia do Distrito Federal divide opiniões e motiva soluções voluntariosas. A mais conhecida delas, de 2002, surgiu num projeto apresentado ao Senado, que prevê a criação do Estado do Planalto Central, composto pelas cidades-satélites. O Plano Piloto, por sua vez, ficaria sob gestão do governo federal, mas a proposta nunca avançou na Casa.

Surpreendentemente, também teve pouco apoio popular uma proposta do deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) para que todas as cidades-satélites elegessem seus prefeitos. “Há opiniões para todos os gostos. Mas haverá muita resistência das classes políticas locais contra qualquer mudança”, analisa o cientista político Leonardo Barreto. Defensor do modelo atual, ele considera que uma perda da autonomia alijaria os brasilienses de suas instituições democráticas. Mas lá o fato é que elas não têm funcionado.

 


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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