NEGÓCIOS

Nº edição: 646 | Negócios | 19.FEV.10 - 10:06 | Atualizado em 05.04 - 11:03

Um homem coerente

Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu, adota em seu dia a dia todos os preceitos de sustentabilidade defendidos pela ONG que comanda

Por Rosenildo Gomes Ferreira

Em sua busca por se transformar em um consumidor 100% sustentável, Hélio Mattar, 61 anos, acumula algumas frustrações. A principal delas é a inexistência no mercado de sapatos fabricados com couro certificado e que possuam um selo socioambiental. Esse é um dos poucos itens de seu vestuário que ele ainda não conseguiu converter para a doutrina da sustentabilidade. Mattar preside o Instituto Akatu, precursor do debate sobre o consumo responsável no Brasil, e seu estilo de vida revela uma notável coerência entre o discurso que prega e as práticas que adota no dia a dia.
 

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1 - Frutas, legumes e flores são adquiridos de agricultores que atuam com produção orgânica, sem adição de agrotóxico.
2 - Roupas somente de fibras naturais. boa parte das peças é comprada em brechós ou feiras de antiguidade.
3 - Compra apenas o necessário para o consumo da família e prefere as empresas
comprometidas com a causa socioambiental.
4 - Carrega sempre uma sacola de pano e, quando vai ao mercado, ele diz um rotundo não às sacolas  de plástico.

 

Sua adesão aos postulados defendidos pelo Akatu é tamanha que ele se tornou mais que um porta-voz dessa causa. Formado em engenharia industrial e com passagem por grandes empresas privadas, Mattar vem transformando completamente sua rotina. Todos os seus atos são pensados pela ótica do consumo sustentável e ele diz que as mudanças mais radicais de hábitos estão longe de representar um fardo. “Ficamos de tal forma escravos do consumo que isso acabou limitando nossa capacidade de escolha individual”, filosofa.

Há dois anos, o presidente do Akatu mudou de endereço para ficar mais perto do trabalho e usar cada vez menos o carro. Nos cerca de 250 metros que separam seu apartamento da sede do Akatu, na avenida Paulista, ele observa nas vitrines das lojas inúmeros itens que não pretende comprar. E não se trata de falta de recursos.

Quando o assunto é roupa, ele dá preferência a brechós ou feiras de antiguidade do circuito alternativo da cidade. “Consigo encontrar gravatas Hermès lindas por R$ 30. Uma pechincha”, gaba-se. Ternos, camisas e calças (todos de algodão ou outra fibra natural, é claro!) só são substituídos depois que, literalmente, acabam. Mesmo assim, o destino não é o lixo.

Se não for possível reforçar a peça, uma tarefa confiada à mulher, Cristina, ela é doada. As compras em supermercado são na medida exata para evitar o risco do desperdício. Em sua lista não entram água mineral, substituída por água de filtro. “Isso ajuda a reduzir a produção de embalagens e a conservar os recursos naturais”, justifica.

“ Não podemos ser escravos do consumo ”  
Hélio Mattar presidente do Instituto Akatu

Já os hortifrútis, todos orgânicos, são entregues em sua porta por um fornecedor de Campinas (SP) que só usa caixas de madeira. Além do consumo propriamente dito, a gestão da casa também atende aos requisitos da sustentabilidade. Durante o banho, parte da água do chuveiro é coletada, e depois usada para dar dar descarga no vaso sanitário. A lavagem de roupas é feita apenas duas vezes por semana e a secadora só entra em operação em casos extremos. O lixo é separado e enviado para reciclagem.

Fundada em 2001, a ONG Akatu está prestes a assumir uma dimensão ainda maior. A partir de 2011, o tema sustentabilidade deverá ser incluído no currículo escolar dos estudantes da quinta a oitava série da rede pública. O projeto piloto coordenado pelo Akatu foi iniciado em 2009 e já envolveu 2,2 mil alunos de cinco Estados.

A partir daí, será criada uma comunidade virtual e uma ferramenta para capacitar os educadores sobre o tema. O trabalho de catequese liderado por Mattar inclui ainda campanhas polêmicas e que mexeram com setores produtivos tradicionais. Foi o caso da guerra declarada às sacolas plásticas, que resultou na proibição ou na adoção de regras restritivas ao uso desse produto em diversas cidades do País.

Em sua vida pessoal, o próximo objetivo de Mattar é comprar um iPod para poder baixar músicas na internet. Com isso, ele elimina a compra de CDs de jazz, hoje garimpados também nas feiras de artesanato pela cidade. Mattar é mesmo um sujeito coerente. Até por isso destaca que ainda não é possível ser  100% sustentável.

 


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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