ECONOMIA

Nº edição: 468 | 06.SET.06 - 10:00 | Atualizado em 19.02 - 09:23

As lições das tragédias

Apostava-se que o mundo não seria o mesmo depois do 11 de setembro de 2001 e da devastação provocada pelo furacão Katrina, no ano passado. Na ponta do lápis, a economia mundial seguiu seu rumo, com crescimento previsto para 2006 de 4,3%, derrubando mitos

Por Por fábio altman

Na segunda-feira 11 de setembro, o mundo recordará comovido dos atentados às Torres Gêmeas do World Trade Center e ao Pentágono, no quinto aniversário do covarde ataque terrorista dos discípulos de Bin Laden. Na semana passada, Nova Orleans lembrou o drama do Katrina, o devastador furacão que quase tirou do mapa a região de Nova Orleans, nos Estados Unidos. Os dois eventos são tragédias de dimensões estúpidas, carregadas de criminosa barbárie, no caso da ação terrorista, e de descaso, na inundação de Louisiana. Se for possível abstrair a comoção de vidas que se perderam, milhares delas, pode-se extrair alguns ensinamentos econômicos das duas efemérides. Em um momento e outro, especialistas foram assertivos: a economia levaria muito tempo para se recuperar. Descobre-se, hoje, que essa idéia, amplamente divulgada, está no campo das suposições. Nas páginas a seguir, DINHEIRO lista os principais mitos que cercam os dois mais dramáticos eventos do século XXI. Não se trata, repita-se, de apagar a memória das pessoas assassinadas em Nova York, com a queda dos prédios, e tampouco das vítimas do Katrina e da inépcia de Bush, quase todas negras e pobres. É um olhar que ajuda a entender o funcionamento das finanças e o movimento de capitais em nosso tempo.

11 DE SETEMBRO
Foram necessários apenas 40 dias para que as ações de Wall Street voltassem ao patamar da véspera dos ataques às Torres Gêmeas. Das 18.944 pessoas mortas pelo terrorismo desde 2001, apenas oito perderam a vida em território americano. É o resultado dos mais de US$ 440 bilhões gastos na luta contra o inimigo muçulmano.

OS ATENTADOS FREARAM A ECONOMIA GLOBAL?

É o mais insistente mito colado ao 11 de setembro de 2001. O mundo hoje é muito parecido com aquele de 10 de setembro de 2001. Naquele dia, véspera dos ataques da Al Qaeda, o índice Dow Jones fechou em 9.605,51 pontos. Tão logo o mercado abriu, em 17 de setembro, foram necessários apenas 40 dias para atingir novamente esse patamar. O volume de exportações mensais dos Estados Unidos era de US$ 60 bilhões em 2001 – atualmente está na casa dos US$ 75 bilhões. Logo depois da queda das torres, o bolo de comércio internacional caiu de US$ 8 trilhões para US$ 7,8 trilhões. Com a retomada do funcionamento de Wall Street, o ritmo de crescimento voltou ao normal, e hoje circulam US$ 12 trilhões pelo planeta. Muito se apostou também, por meio de rigorosos estudos de reputadas empresas de consultoria, que o turismo despencaria. Não despencou. Em 2001, 688 milhões de pessoas deixaram os Estados Unidos rumo ao exterior. No ano passado, foram 808 milhões – um aumento de 18% em quatro anos, muito semelhante à expansão mundial, Brasil incluído. A confiança econômica foi retomada tão rapidamente que até mesmo a indústria de construção civil destinada a erguer arranha-céus mostrou-se robusta: desde o 11 de setembro, 14 novos projetos maiores que o World Trade Center já deixaram a prancheta eletrônica de arquitetos e engenheiros. Brian Wesbury, analista da Comissão Econômica do Congresso Americano, resumiu a rápida recuperação com uma frase: “O capitalismo é mais que edifícios e aviões.”

A GUERRA CONTRA O
TERROR NÃO TEM FIM?

É o plano de George W. Bush. Gasta-se muito mais com segurança e com o Exército, hoje, nos Estados Unidos, que antes do 11 de setembro. O orçamento militar americano cresceu 30 vezes entre 2001 e 2006. Em 2001, os US$ 325 bilhões gastos com defesa eram equivalentes ao gasto bélico somado dos 14 primeiros países no ranking da corrida armamentista. Hoje, o desembolso do Pentágono é US$ 116 bilhões superior a esse time dos 14. “É investimento vão, por não aumentar a produtividade, e portanto em nada ajuda no crescimento do PIB”, diz Carlos Eduardo Soares Gonçalves, professor de macroeconomia da Faculdade de Engenharia, Administração e Contabilidade da USP. “Nós, economistas, chamamos esse tipo de movimento de perda líquida.” Em outras palavras: o incremento da verba militar nada significa para o crescimento econômico do planeta, estimado pelo FMI em 4,3%, e tampouco dos Estados Unidos, de 3,5%. O mundo cresce, apesar do terrorismo e da insana luta contra o inimigo muçulmano.

OS GASTOS MILITARES FIZERAM
O MUNDO UM LUGAR MAIS SEGURO?

Não, à exceção dos Estados Unidos. A guerra contra o terror no Afeganistão e no Iraque pode ser contada em lápides: de 12 de setembro de 2001 a 31 de dezembro de 2005, 18.944 pessoas morreram ao redor do planeta em atos de terrorismo – apenas oito dessas mortes ocorreram em solo americano.

OS CUSTOS DOS
SEGUROS DISPARARAM?


Sem dúvida. As apólices explodiram, com alguns prêmios custando até 300% a mais em relação aos níveis anteriores a 2001. Foi criado um tipo de seguro que aumenta o custo de fazer negócios quanto mais próximos estiverem as companhias dos centros de poder político e financeiro. Ele perdura até hoje. Os ataques de 11 de setembro mudaram a relação entre risco e recompensa na economia mundial. O problema: apesar dos riscos mais altos, inclusive de suspensão de contratos e prejuízos, as recompensas têm sido mais baixas devido à elevação dos custos de segurança. Essa talvez seja a mais visível herança daquela terça-feira histórica.

A INDÚSTRIA CULTURAL REAGIU COM RAPIDEZ
AOS ATAQUES AO WORLD TRADE CENTER?

Definitivamente, não. Apenas no ano passado, quatro anos depois, surgiram nos EUA produções de cinema, TV e teatro inspiradas no 11 de setembro. O primeiro grande filme de Hollywood dedicado à tragédia, “As Torres Gêmeas”, dirigido por Oliver Stone, foi lançado somente em agosto deste ano – cinco anos depois do evento. Arrecadou US$ 26 milhões nos primeiros cinco dias de exibição, cifra pequena para os padrões atuais do mercado. O longa de Stone rompe um tabu, pelo qual o universo artístico se recusava a tocar no assunto, com raras exceções, como uma coletânea de canções compostas pelo roqueiro Bruce Springsteen, o documentário histriônico de Michael Moore, “Fahrenheit 11 de setembro”, panfleto a tratar Bush como pascácio, e o drama “Vôo 93”, de Paul Greengrass, a respeito da aeronave que supostamente seguiria para a Casa Branca no dia dos atentados.

 

FURACÃO KATRINA
A lenta reação das autoridades do governo Bush diante das enchentes deflagrou um imenso fracasso em gestão de estados de emergência – se fosse o executivo de uma grande empresa, o presidente americano teria problemas com os acionistas.

OS ESTRAGOS DO KATRINA FORAM MENORES QUE OS DO 11 DE SETEMBRO?

Em termos. A conta do furacão somada à inépcia do governo de Bush é de US$ 100 bilhões. O custo direto dos estragos do 11 de setembro para Nova York foi de US$ 16,9 bilhões, chegando a US$ 120 bilhões quando se leva em conta toda a cadeia produtiva interrompida com a queda das torres. Há quem acredite, porém, que o Katrina resultará pior que o 11 de setembro, se pensarmos apenas em economia (no plano político, daquilo que se convencionou alcunhar de “choque de civilizações”, poucos eventos foram tão decisivos como os atentados de 2001). Os ataques terroristas atingiram o coração da chamada “nova economia”, ancorada no capital volátil de Wall Street – com a reabertura das bolsas, tudo se reorganizou. Não havia estoques a perder, como ocorreu em Nova Orleans. “O Katrina atingiu uma região dos EUA a meio caminho da velha economia para a nova economia”, diz o analista americano Daniel Gross. “Sua riqueza, embora administrada pelo universo dos computadores, é feita de estoques, de agricultura, de óleo debaixo da terra, de recursos naturais, com perdas que até hoje não foram recuperadas.” É o que se via nas ruas de Nova Orleans na semana passada e em um documentário dirigido pelo cineasta Spike Lee.

OS ARTISTAS E TODA A CADEIA CULTURAL
FORAM MAIS RÁPIDOS COM O KATRINA?

Sim. Cabe lembrar que, no caso da chaga de Nova Orleans, a resposta cultural foi quase imediata e certamente mais incisiva que diante do 11 de setembro. Na terça-feira da semana passada, exato um ano depois do 29 de agosto do dilúvio, da triste jornada em que o vendaval varreu a Louisiana, o cineasta Spike Lee, nova-iorquino da gema, pôs no ar as quatro horas do documentário “Quando as barragens se romperam – Um Réquiem em Quatro Atos”, exibido na íntegra pela emissora a cabo HBO (ainda sem data confirmada de lançamento no Brasil).
Lee fez nove viagens a Nova Orleans. Entrevistou mais de 100 pessoas. O resultado é forte e triste como um blues típico daquela região. O descaso do governo Bush é demolido em depoimentos contundentes – denunciam a lentidão diante do caos, o avesso da velocidade com que mísseis caíram em Cabul na madrugada de 12 de setembro de 2001. "Eu não esperava encontrar o que vi quando cheguei a Nova Orleans; parecia com o que, suponho, fosse Hiroshima depois da Segunda Guerra”, disse o cineasta. No bloco mais polêmico, ele se concentra nas suspeitas, que ganharam popularidade em Nova Orleans, de que o sistema de barragens foi deliberadamente dinamitado com a intenção de preservar os bairros ricos da cidade, desviando a inundação para as áreas mais miseráveis, naquilo que o próprio Lee definiu como “racismo econômico”. Nesse ponto, o 11 de setembro e o Katrina andam de mãos dadas, na incapacidade de os Estados Unidos reagirem de modo sensato às duas maiores tragédias deste início de século. A operação de resgate ao redor de Nova Orleans, ainda que tardia, foi a maior da história. Destinava-se a salvar a vida de mais de 450.000 pessoas e tirar das ruas cerca de 250 mil automóveis, muitos submersos – como gestão administrativa fracassou, sem comando, a mercê da lassidão dos políticos e da apatia cívica.

 

 


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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