FINANÇAS

Nº edição: 646 | Finanças | 18.FEV.10 - 16:09 | Atualizado em 18.02 - 16:26

A filosofia oportunista de Wall Street

Para aderir ao euro, a Grécia tinha de apresentar ao mundo a verdade sobre suas contas públicas. Mas o banco Goldman Sachs ensinou a Atenas a arte de escamoteá-la

Por Márcio Kroehn

Quando os gregos inventaram a filosofia, o que eles buscavam, por meio da argumentação, era a verdade. Absoluta, precisa, matemática e quase contábil. Algo que não pudesse ser questionado com artifícios retóricos. Era essa a escola de nomes como Platão e Aristóteles. Mas os gregos também inventaram a arte de sofismar – e, desde então, tudo passou a ser relativizado.

Na semana passada, quando se abriu mais um capítulo da crise grega, descobriu-se que o governo de Atenas hoje está mais próximo dos sofistas do que dos socráticos e aristotélicos. E seus mestres foram banqueiros de Wall Street – mais precisamente do Goldman Sachs. A revelação bombástica foi a de que o Goldman, que tinha um contrato para gerir a dívida soberana da Grécia, ocultou do passivo uma quantia bilionária. O segredo foi não incluir no endividamento total o valor referente à seguridade social.

O responsável pela façanha foi o banqueiro Gary Cohn, presidente do Goldman. Ele utilizou instrumentos sofisticados, conhecidos como derivativos e muito parecidos com aqueles que foram usados na crise do subprime norte-americano, para empurrar a dívida grega para um futuro distante.

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Gary Cohn, presidente:
Goldman Sachs ocultou prejuízos bilionários
 

Assim, foi possível ludibriar os auditores de Bruxelas, sede do Parlamento europeu, que aprovaram a entrada da Grécia no bloco do euro, em 2001. Nas últimas semanas, descobriu-se que o país tem uma dívida interna de US$ 300 bilhões e um déficit fiscal de 12,7% do PIB – muito acima do teto permitido pelo bloco europeu, que é de apenas 3% do PIB.

A Grécia tem dívida de US$ 300 bilhões e precisará abrir o nome dos seus credores para o bloco do euro

Efetivamente, o que se fez foi uma gigantesca fraude contábil, que acirrou os ânimos em Atenas. Na terça-feira 16, uma bomba de fabricação caseira explodiu em frente à sede da subsidiária de outro banco americano, o JP Morgan, sem deixar feridos. Sobre a fraude, ninguém do Goldman Sachs prestou esclarecimentos – e o governo também adotou a tática do silêncio, o que pode adiar a chegada do pacote de socorro.

Para simular que suas contas estavam em dia, os gregos recebiam um crédito do Goldman Sachs e cediam ao banco, como garantia de pagamento, uma parte de suas receitas futuras, com os direitos aeroportuários ou os ganhos com as loterias. As operações foram tão bem elaboradas que fugiam dos olhos do escritório de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), responsável por acompanhar as economias da zona do euro.
 

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A explosão de uma bomba em frente à subsidiária do banco JP Morgan,
em Atenas, expõe o nível de tensão vivido pelos países europeus

 

É neste ponto que fica a pergunta: qual é o limite de atuação de uma instituição financeira como gestor das contas de um governo? “É óbvio que há conflito de interesses quando um banco faz a gestão dos ativos do Estado”, diz Alexandre Póvoa, diretor do Modal Asset Management. “Ainda mais com os derivativos, que permitem deixar de fora dos balanços operações importantes”, completa ele.

A construção de verdades relativas pelos bancos americanos não é novidade recente para países ou empresas estrangeiras. A enrascada mais famosa é a participação do Bank of America na derrocada da italiana Parmalat, que teve início há 11 anos. Com operações de derivativos que – não por acaso – estavam fora da contabilidade da companhia, a Parmalat foi considerada insolvente depois que foi descoberto um buraco de 4 bilhões em seu balanço.

Inconformada com a bancarrota, a companhia italiana abriu uma série de processos para ser ressarcida dos prejuízos. Para encerrar a contenda judicial, o Bank of America concordou em pagar US$ 98,5 milhões em julho do ano passado. Será que os europeus farão o mesmo com o Goldman Sachs?

 


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