NEGÓCIOS

Nº edição: 565 | 30.JUL.08 - 10:00 | Atualizado em 23.05 - 07:11

Lições da educação

O modelo de gestão de um setor que fatura muito, lucra bastante e tem ações na bolsa, mas não gosta de ser chamado de negócio

Por RICARDO OSMAN

VOCÊ ESTÁ ACOSTUMADO A VER O NOME de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto da Veiga Sicupira associado a grandes negócios do País e do mundo. Recentemente, eles comandaram a compra da cervejaria americana Anheuser Busch, dona da marca Budweiser, e fizeram da InBev, da qual são sócios, a maior cervejaria do planeta. Pois agora o trio está apostando alto em outro ramo no Brasil, o de educação. Sim, eles estão levando suas teorias de Orçamento Base Zero, meritocracia e governança corporativa para o grupo Veris Educacional, detentor da marca Ibmec no Rio de Janeiro, Brasília e Minas Gerais, que tem mais de 60 cursos de nível superior e receita de R$ 150 milhões por ano. E eles não estão sozinhos. O Banco Pátria, de investimento, entrou também no ramo de educação ao se as sociar com o grupo Anhangüera Educacional, que tem hoje 145 mil alunos e 47 universidades e faculdades espalhadas pelo País. Por que empresários como eles, habituados a negócios arrojados e inovadores, resolveram jogar suas fichas na educação? Porque estão de olho em um mercado promissor que movimenta R$ 116 bilhões por ano, o equivalente a 7% do PIB do País, e recebe investimentos de R$ 35,5 bilhões neste ano, segundo a Hoper Educacional, instituição que presta consultoria na área. Trata-se de um ramo em que não faltam consumidores. Ao contrário. Com o aquecimento da economia brasileira e o aumento de renda nas classes C e D, mais alunos se dirigem para as salas de aula em busca de qualificação em um mercado de trabalho em expansão. De acordo com dados do Ministério da Educação e Cultura (MEC), cerca de um terço da população brasileira é composta por jovens estudantes matriculados no Ensino Básico. Este contingente é de 60 milhões de alunos. Mas apenas 4,7 milhões ascendem ao ensino superior (1,2 milhão estuda em instituições públicas e 3,5 milhões em faculdades privadas). Com certeza, os empresários perceberam oportunidades imensas neste afunilamento que leva ao ensino superior. Tanto é que, da virada do século para cá, graças também à mudança da legislação (que permitiu o surgimento de faculdades com fins lucrativos no País) as principais empresas se profissionalizaram e até recorreram à Bolsa de Valores para se capitalizar. No ano passado, por exemplo, o grupo Kroton Educacional, de Belo Horizonte, dono da marca Pitágoras, e a própria Anhangüera abriram seu capital. A Kroton arrecadou R$ 373 milhões e a Anhangüera recebeu aporte de R$ 860 milhões.

O grupo Veris Educacional também vai partir para o IPO. Por isso, desde já diretores e gerentes do grupo têm como opção de bonificação o recebimento de stock options da empresa. Mesmo sendo uma sociedade anônima de capital fechado, a distribuição de papéis está sendo feita de olho no longo prazo. "A abertura de capital pode ser uma forma de obter recursos para expansão futura", explica Americo Martinello, diretor de operações da Veris. A importação dos métodos de trabalho de empresas privadas para dentro de um grupo educacional exigiu uma boa dose de bom senso do comando. Não dava para, simplesmente, tratratar o ensino como produto, diz a direção. Os acionistas nunca discordaram disso. "Fizemos tudo com muita cautela, sem mexer na qualidade. Sempre que alguém vinha pensando em cortar além da conta, eu dizia: 'Epa!'", conta Martinello. "Nossa estratégia foi inverter o modelo: ao invés de olhar a receita e tentar adequar nossas necessidades a ela, decidimos avaliar as necessidades e criar receita em cima disso." De certa forma, funcionou. A receita dobrou no último ano e a inadimplência caiu de 23% para 15%.

O grupo Anhangüera Educacional também está dobrando o seu faturamento. Em 2007, a Anhangüera obteve receitas de R$ 347 milhões, segundo seu fundador, o professor de matemática Antonio Carbonari Netto. Mas a expectativa é de fechar 2008 com R$ 600 milhões. "Sempre soube que havia espaço para um projeto educacional que conjugasse qualidade com baixo custo e tivesse como foco os jovens das classes C e D", diz Netto. Há 14 anos, a Anhangüera Educacional era apenas uma faculdade situada em Leme (SP), mas hoje é uma potência do setor de educação privada, com 145 mil alunos. Netto atribui o sucesso ao modelo de negócio inovador. Sua fórmula mistura gestão racional de recursos e remuneração baseada na eficiência e na meritocracia. Algo para o qual as faculdades tocadas por fundações sem fins lucrativos sempre torceram o nariz. Exemplo: os diretores e coordenadores aprendem a fixar metas de desempenho e a calcular a margem de rentabilidade de cada curso. Por isso, a empresa chamou a atenção do Banco Pádistria, que ingressou no negócio em 2003. Desde lá, o banco, por meio de um fundo de private equity, despejou R$ 120 milhões no grupo. "Trata-se de um dos maiores sucessos de nossa carteira de investimentos", avalia Ricardo Scavazza, sócio do Banco Pátria.

Como diversos outros negócios, a escala é uma palavra de ordem no setor da educação. E o caminho mais curto para atingi-la é a aquisição de unidades de ensino menores. O grupo Kroton Educacional buscou também ganhar musculatura para enfrentar um mercado que tem, cada vez mais, a presença de gigantes. Com os recursos do IPO, o Kroton adquiriu cinco grupos regionais. "As aquisições e os investimentos nos campus que já tínhamos resultaram em um salto de crescimento", diz o CEO da Kroton, Walter Luiz Diniz Braga.

"Estamos colhendo resultados nas áreas financeira e acadêmica, que é também importante porque na área de Educação não basta dar lucro." A receita líquida da empresa dobrou de 2007 para 2008 - passou de R$ 149 milhões para R$ 300 milhões. O grupo encerrou o primeiro trimestre de 2008 com aumento de 60% na receita bruta, de R$ 47 milhões para R$ 76 milhões. O número de alunos matriculados na área universitária deu um salto: a comparação do primeiro trimestre de 2008 com o de 2007 mostra aumento de 172%, para 23.600. Além disso, a primeira turma de Direito, formada em 2007, teve 62% de aprovação no exame da OAB. Com as compras, o grupo contabiliza 25 faculdades próprias e 600 escolas filiadas à rede Pitágoras em todo o País. A modernização da empresa afastou do dia-a-dia do negócio os sócios fundadores, como Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro do Turismo do governo Lula.

A avalanche de investimentos nesse setor cobra seu preço. Os investidores passam a olhar o mercado com cuidado redobrado, pois temem uma superoferta do produto desse setor - no caso, vagas escolares. E isso afeta o preço das ações. O maior grupo do setor, a carioca Estácio de Sá, tem sido bem avaliada pelo mercado. Com uma série de aquisições, atingiu a marca de 190 mil alunos e valor de mercado de R$ 1,85 bilhão, com alta de 56% de suas ações em 2008. Já o Curso Oswaldo Cruz, ou COC, fundado na década de 60 como cursinho pré-vestibular, decidiu lançar em 2005 suas faculdades e em 2007 abriu capital na Bolsa. Mas as ações do grupo, rebatizado como Sistema Educacional Brasileiro (SEB), caíram 32% desde o IPO. "O importante são os investimentos que a empresa está fazendo e não quanto as ações caíram", diz Marco Rossi, diretor financeiro do SEB, que aposta também em cursos de ensino a disttância. Hoje, o grupo tem 20 mil alunos no ensino superior e pretende dobrar o faturamento de R$ 142 milhões. Mesmo instituições como a UniverCidade, do empresário Ronald Levinsohn, com atuação independente e concentrada no Rio de Janeiro, estão revendo a estratégia adotada até agora. Levinsohn considera a possibilidade de fusões. "Podemos nos unir a outros grupos ou abrir capital. É o que vamos acabar fazendo em breve", diz ele. "É o único jeito de enfrentar a concorrência que está melhor equipada", admite. Atualmente, a Univer- Cidade tem 17 unidades no Rio de Janeiro e 28 mil alunos. Para garantir salas cheias, o empresário diz adotar a tática de Robin Hood: cobra de quem pode pagar e dá bolsas de estudos aos mais carentes. Somente em 2007, a UniverCidade destinou cerca de R$ 78,2 milhões às bolsas, segundo o empresário. "Os alunos com poder aquisitivo financiam os estudos dos que não têm condições de pagar", afirma ele. É também uma forma de não perder alunos para a concorrência. O surgimento da universidade se deu em uma época conturbada na vida de Levinsohn. Há mais de 30 anos, o empresário abriu a empresa de poupança Delfin Capitalização.

Em paralelo, Levinsohn comprou o Colégio Brasileiro de Almeida e uma faculdade com cursos de Jornalismo e Turismo. Nascia ali a UniverCidade. Dos dois projetos só restou a instituição. A Delfin faliu.

A onda de profissionalização não mudou o modo de Edevaldo Alves da Silva, fundador e presidente das instituições FMU, Fiam, Faam e Fisp, olhar para o setor educacional. "Por que alterar algo que está dando certo? A presença da minha família consegue agregar profissionais atualizados com o que acontece no mercado para dar suporte à gestão", diz Silva. Sob sua tutela, um corpo administrativo e outro acadêmico cuidam das questões do dia-a-dia, que passam pelo crivo de um conselho consultivo. A faculdade cobra mensalidades médias de R$ 770 (o que garante faturamento de R$ 186 milhões), mas Silva afirma que suas faculdades não têm fins lucrativos e que os ganhos são reinvestidos no negócio. "O objetivo é manter a qualidade que conquistamos ao longo do tempo", afirma.

Para o diretor da Fundação Instituto de Administração (FIA), Celso Grisis, a iniciativa privada vem cumprindo bem o seu papel no ramo de educação. Mas novos desafios se apresentam. "Num primeiro momento, a demanda reprimida do mercado foi atendida pelas empresas com um trabalho focado na escala e nos preços baixos", diz ele. "Mas agora vai haver uma depuração do mercado. Somente quem tem ensino de qualidade irá sobreviver nesta nova fase." Segundo sua avaliação, os consumidores estão mais exigentes e bem informados. Neste sentido, a abertura de capital favorece os principais grupos de ensino. "A Bolsa de Valores cobra resultados. Por isso, o momento é de contratação de professores, revisão de material didático e curricular", diz Grisis. Ele afirma que a nova fase vai coibir "as fábricas de diplomas". "Haverá espaço somente para quem quer trabalhar com seriedade, mesmo com preços baixos." A favor de todos está o gargalo de Recursos Humanos do País. Um cenário que João Carlos Di Gênio, dono do grupo paulista Unip-Objetivo, percebeu décadas atrás, quando transformou um curso pré-vestibular em uma das maiores universidades do País. O pioneirismo deu retorno. Recentemente ele recusou uma proposta de R$ 2,5 bilhões para vender o negócio para o grupo americano Apollo. Achou pouco.


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  • em 07/02/2012 16:22:52

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    • em 07/02/2012 12:15:25

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      • em 07/02/2012 08:15:43

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        • em 07/02/2012 04:19:08

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          • em 07/02/2012 00:22:59

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