NEGÓCIOS
Nº edição: 620 | 26.AGO.09 - 10:00 | Atualizado em 25.12 - 01:10
A GE vai zerar sua conta de luz
A DINHEIRO viu de perto o projeto da casa autossustentável em energia criado pelo grupo
Por Adriana Mattos, Enviada a Niskayuna (EUA)
No centro de pesquisas da General Electric (GE), cérebro das principais descobertas da quinta empresa mais rica do mundo, localizado em Niskayuna, a três horas da cidade de Nova York, há uma pequena sala, escondida entre dois andares num labirinto de portas só abertas com senhas pessoais. Naquele espaço, há forno de microondas espremido ao lado de geladeiras e medidores de energia presos nas paredes e interligados a telas de computadores que mostram gráficos o tempo todo. Ali está o laboratório de testes do que seria a casa perfeita, num futuro muito próximo, na visão da empresa. Nesse mundo idealizado, as residências seriam capazes de gerar a própria energia a ser consumida. Até 2015, a companhia espera ter desenvolvido todos os sistemas e tecnologias necessárias para isso. É o que a GE chama internamente de projeto "net zero energy home". Para entender melhor o que isso significa, bastar descer alguns lances de escada do escritório em Nova York e entrar na área de acesso a visitantes da empresa. Dá para ver e até brincar um pouco (é impossível não querer mexer em quase tudo) com lavadoras de roupa e fogões inteligentes, que sabem o momento certo de operar em potência mais baixa, sempre entre as 6 e 9 horas da noite, quando a energia é caríssima.
E, se a máquina de lavar realmente funcionar na carga máxima nesse horário, são acionadas bombas de calor residenciais, que aquecem a água com 50% menos quilowatts. Tudo é comandado por um sistema nervoso central -- um aparelho pequeno com um formato de tela de computador que armazena as orientações dadas pelo dono da casa. A GE quer vender tudo que possa tornar uma casa mais econômica. Por isso, começou a investir nessa área quatro anos atrás. Algumas soluções estão no mercado e outras começam a ser vendidas nos EUA neste ano. O que impressiona, além dos produtos, é o empenho do grupo envolvido no projeto.
O comando está nas mãos de Steven Fludder, o homem de confiança do CEO da GE, Jeffrey Immelt, na área de negócios sustentáveis. O executivo respira inovação. Dá detalhes de cada projeto em seu departamento e fala de energia eólica para residências como quem tenta vender um novo fogão GE. Em entrevista à DINHEIRO, Fuddler deixa claro que não se trata apenas de projetos sustentáveis para um mundo melhor - retórica fácil nesse mercado. Trata-se também (e muito) de dinheiro. "Essa é uma estratégia que vai nos permitir criar uma nova realidade para os consumidores, e com um potencial de vendas de bilhões de dólares. É um negócio que simplesmente não existia no mundo até ontem", afirma Fuddler. Enquanto o grupo GE, com seus US$ 181 bihões em vendas anuais, cresceu 6,3% em 2008, a área de Fuddler se expandiu 21%. Responde por 9,4% do faturamento do grupo, um ponto a mais que no ano anterior. Consegue se expandir vendendo hoje algumas linhas de eletrodomésticos, bombas, motores e lâmpadas econômicas que já estão na linha de produção lá fora. Por exemplo, o ar-condicionado da marca Energy Star reduz a temperatura do equipamento durante a madrugada, por isso gasta menos. E custa US$ 890 (US$ 200 a mais do que um aparelho da linha convencional).
A longo prazo, o Brasil pode ser parte responsável pelo crescimento desse negócio no mundo -- batizado pela empresa de "smart grid" (rede inteligente). "Achamos que há uma tremenda oportunidade para implantar tecnologias smart grid no Brasil. A GE está trabalhando com uma série de planos piloto nessa área em muitas regiões, mas ainda não posso dar detalhes a respeito", diz ele. A contribuição poderia ocorrer, por exemplo, por meio da geração de softwares para gerenciar a rede. Ao se olhar de perto tamanho interesse da GE nesse novo negócio, há um toque de ironia inerente à própria operação. É inevitável pensar que a GE, que nasceu produzindo lâmpadas, estaria se esforçando como nunca para reduzir o consumo de eletricidade. Lições de sobrevivência num mercado em evolução.
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