ECONOMIA
Nº edição: 577 | 22.OUT.08 - 10:00 | Atualizado em 14.12 - 21:36
A conquista brasileira
160 empresários nativos vão a Lisboa participar do Meeting e descobrem que o Brasil está mais em alta do que nunca no cenário mundial, com força para realizar a travessia da crise como protagonista
Por Carlos José Marques
PARA OS INVESTIDORES ERA FÁCIL! DURANTE anos eles se deleitaram com o crescimento em muitos dígitos dos lucros nas bolsas e o meteórico aumento dos preços das ações. Quem iria exigir dados comprovadamente consistentes de um broker, do analista-chefe ou da turma da corretagem que cumpria seu papel, trimestre após trimestre, ano após ano? Mas isso foi antes do estrondo. O problema da implosão dos pregões de repente deixou a patota de financistas e mesmo empresários da dita economia real cheios de perguntas. O que é essa onda? Como ela afeta os negócios? Nos dias subseqüentes ao cataclismo das ações, que contaminou da Europa à Ásia, e mesmo aos emergentes, depois de fritar os EUA, um grupo de 160 CEOs, ministros, senadores e deputados brasileiros estava em Lisboa na convenção internacional do Lide, o 13o Meeting, em busca de respostas. Era quase uma "caravana do redescobrimento", dado o seu caráter de homenagem aos 200 anos de desembarque da família real portuguesa na então colônia Brasil. A nau tinha rumo e emblema. Queria tratar de energia e telecomunicações. Mas o tema central do encontro passou de raspão. A insensatez dos pregões galvanizava o interesse geral, as rodinhas de conversa, a mesa de debatedores do seminário.
O primeiro-ministro português, José Sócrates, entrou apressado na Sala Belém, onde corriam os trabalhos naquela manhã quente da sexta-feira 10. Quase ao mesmo tempo as bolsas sofriam outro baque demolidor, a Europa espantava- se frente a um pregão que abria com queda midiática de 10% nas ações, meia dúzia de bancos do Velho Continente havia torrado quase 37 bilhões de libras esterlinas e seus papéis podres valiam meros US$ 23 por lote de mil naquele momento. Sócrates pegou o microfone para falar o inesperado: a solução era o Brasil. aquelas quase duas centenas de executivos de ponta, muitos com ações nas bolsas - temerosos, incrédulos e mais pobres do que há uma semana -, esperavam ânimo e ele veio. "O Brasil é hoje um dos atores políticos mundiais e está a assumir um papel importante", concedeu Sócrates.
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O GRUPO FOI DISCUTIR ENERGIA E TELEFONIA, MAS A
CRISE TOMOU CONTA DOS DEBATES |
Na noite do sábado, nos elegantes salões do Palácio Real de Queluz, entre arandelas chanfradas de prata, paredes com detalhes banhados a ouro, lustres de cristais, soberbos em sua iluminação, e diante de uma platéia em black-tie, Henrique Granadeiro, presidente do conselho da Portugal Telecom, um dos colossos empresariais do país e que detém mais de US$ 7 bilhões investidos no Brasil, repetiu o primeiro-ministro, para ânimo geral: "Estamos diante de uma nova era e nessa nova era é o Brasil que estará entre os líderes, como uma potência. Não é mais promessa, é realidade". O jornal Financial Times, dias antes, em outras palavras, seguia o mesmo mantra, definindo que se existe algum lugar bom para investir em meio a essa crise é no emergente Brasil. Tome-se a manchete de sites do mercado como Portfolio e Seeking Alpha: "o Brasil é o melhor Bric", disse um. "A sensação é que o Brasil se mantenha como grande investimento", assinalou o outro. No FT: "O Brasil vai emergir da crise relativamente ileso". A expectativa toda convergia para o exemplo brasileiro. Em Queluz, os empresários estavam radiantes. Ganharam uma carga extra de injeção de confiança e conforto capaz de atenuar qualquer temor. Naquela noite, a atmosfera do lugar, as boas avaliações - que descolavam de qualquer impressão passada por aqui - e o tratamento diferenciado contribuíam certamente para reforçar as convicções dos convivas. O Palácio de Queluz só abre para jantares a chefes de Estado e estava ali, pela primeira vez, recepcionando uma delegação de empresários. Era a mais clara tradução de prestígio. Nos seus salões, o retrato de uma era de esplendor e fausto europeu que ficou para trás. Ambientes forrados de tapeçarias francesas, os balaústres das sacadas, os reposteiros da mais pura seda, toda aquela grandeza do palácio tornava os rostos dos convidados da noite de gala ainda mais reluzentes e potencializava o ruído de vozes excitadas. Queluz continuava a vislumbrar os fascinantes minuetos do poder.
A coisa toda fora cuidadosamente planejada pelo Lide para deixar a todos boquiabertos. Os jardins que abrigaram o coquetel eram uma cópia miniatura de Versailles. A loucura de João Doria! Ele tinha que encantar os titãs da produção com eventos impecáveis. Senão, não seria João Doria. Ao levar três príncipes da casa de Orleans e Bragança para a noite de Queluz, Doria estava decidido a acrescentar um pouco mais de grandiosidade e lembrança histórica à convenção do Lide. Nem precisava. À Queluz você podia levar qualquer pessoa - mesmo príncipe ou presidente, como ele fez em outras ocasiões -, e já no saguão de entrada deixá-la impressionada. Na estréia européia do seu Meeting, Doria anfitrião estava a rigor - no traje e na precisão dos informes sobre o que acontecia fora dos muros do encontro. Com a gravata borboleta apertando gentilmente o pescoço e os sapatos brilhantes cobrindo-lhe os artelhos, sorriso caprichado e certamente mais realismo do que poderia se supor para a ocasião, Doria tratava de injetar entusiasmo. É especialista na arte da motivação e os eventos por trás dessa fama ganham musculatura dia a dia. Na verdade, quem achava que o sucesso dele é produto apenas de um carrinho de boas idéias e um caminhão de marketing deveria ter testemunhado a forma calorosa com que o presidente Cavaco Silva o recebeu e à sua caravana de sete senadores, 13 deputados e dois ministros de Estado brasileiros na sexta anterior, após o seminário matinal. Aos interlocutores, Cavaco Silva transmitia serenidade. Ele e o primeiro-ministro Sócrates tinham como objetivo inegável conquistar os CEOs brasileiros que juraram lutar contra a crise.
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AS BOLSAS DERRETIAM, MAS A IMPRESSÃO GERAL É QUE O
PAÍS, NO FINAL, SAIRÁ GANHANDO |
A promessa empresarial foi assinalada até na hora do intervalo do seminário da sexta, nos jardins do Palácio Valle Flor, ocupado hoje pelo Hotel Pestana, que abrigou a numerosa delegação. Em coquetel regado a vinho rosé, branco e tinto das prateleiras do enólogo Ciro Lilla, um publicitário, em providencial gesto para levantar o moral da tropa, sugeriu o desafio da retomada: "Todos deveriam responder em alto e bom som que vão reagir à crise". Proposta aceita por quem o ouvia e logo depois assimilada por mais adeptos, num movimento coeso. O que também agita esse time de empreendedores é a irritação por terem ficado reféns dos garotos da banca. A crítica a eles era geral. Afinal, os rebentos do mercado livre, verdadeiros legatários de George Soros, Mark Mobius e Warren Buffett, encantaram-se com a febre dos private equities, hedge funds e IPOs e estavam fazendo fortunas nos mercados descontrolados, enquanto comprometiam receitas de caixa dos negócios tipo pé no chão.
É bem verdade que parcela da culpa tem que ser espetada nas costas dos ditos homens da produção. Nos últimos tempos, todo mundo quis bancar o mecenas das boas novas do pregão, financiando ou comprando por preços indecentes papéis promissores. Hoje, Wall Street, Bovespa & cia. estão castigando as empresas que esvaziaram seus cofres depois de terem incentivado os CFOs a torrarem o dinheiro arrecadado na economia real. O ex-ministro Luiz Fernando Furlan, que pela primeira vez faltava a um encontro do Meeting, foi lembrado como um daqueles ases do empreendedorismo que agiram como bombeiro para apagar o incêndio. Poucos dias antes de Lisboa, Furlan foi convocado a reassumir a Sadia, corporação da família que havia sofrido uma exposição de caixa em derivativos cambiais de quase R$ 760 milhões. "Você vai ter que voltar", disseram-lhe os conselheiros da empresa.
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EMPRESÁRIOS NÃO QUEREM VIRAR REFÉNS DOS GAROTOS
DA BANCA, ONDE PERDERAM DINHEIRO |
Quando os prodigiosos tubarões da bolsa, ex-alunos das MIT e Harvard da vida, tornam-se um risco à saúde produtiva, a alternativa é buscar apoio e conselho nos self-made men. Na prática, é a reversão da onda. As carpideiras do capital de risco, que seguiram por longa temporada decidindo o que fazer com o dinheiro, têm razão de aparecer em cena neste momento para chorar as perdas, recolher as sobras e sair de campo. Agora que o investidor agiu como um apostador dopado, perdeu e o circo está armado outros entram na arena reconstruindo patrimônio e fazendo lucro. Chamam a isso de capitalismo.
É claro que os financistas não são realmente controladores das companhias S/A que naufragaram e é claro também que em dada situação eles compraram bilhetes premiados - ações que subiram - e foram aos píncaros dos dividendos. Mas a corrente da felicidade rompeu. Nos sistemas de castas financeiras, mérito pode justificar dinheiro em qualquer quantidade. Mas não indefinidamente. Os ricos do pregão sem mérito estão atordoados. Ainda guiam suas BMWs para chegar até os seus veleiros em suas casas de praia só porque adquiriram papéis na baixa e alavancaram sem lastro. Mas a conta está zerada. Ou negativa. Já há alguns meses - para lá de ano - as demandas, especialmente de Wall Street, estavam por colidir com os sonhos dinásticos dos players. A raiz do problema, que remonta ao início da era Bush, foi a migração filantrópica de recursos para o boom imobiliário dos EUA, erigindo os alicerces de barro do "way of life" americano, que vendia o plano da casa própria a todo e qualquer interessado, mesmo àquele sem um dólar furado. Foi a peste dos subprimes que fez ruir o castelo. E Bush teve de inaugurar a fase do liberalismo econômico intervencionista, um bicho-de-sete-cabeças.
Do lado de cá do capital produtivo, a Portugal Telecom, que virou case de exposição no seminário do Meeting, está, segundo a maioria dos critérios em voga, indo às mil maravilhas. Ampliou mercado, contratou mais funcionários, encontrou mais clientes. Vem vendendo mais, lucrando mais, crescendo mais. Então por que diabos seus executivos ficaram, como os demais, preocupados da noite para o dia? Coisas da globalização e da complexa teia de mercados integrados. Na cúpula de Lisboa muitos empresários na verdade estão longe de encarar o problema como algo diretamente ligado aos seus negócios. Em boa parte, na medida da responsabilidade, estavam mais surpresos com a hecatombe das bolsas do que propriamente em pânico. Viviam a chamada "crise de expectativas". O perigo dessa onda, que eles querem evitar a todo custo, é a idéia da profecia auto-realizável por inércia, comprometendo projetos e avanços. Um deles, em conversa com a reportagem da DINHEIRO, foi direto: "Não acho que o Brasil fez algo para merecer isso e, francamente, nem creio que vá acontecer o pior." Ninguém, dentro ou fora do epicentro de Wall Street, poderia antecipar o que veio depois, mas a sensação predominante entre os CEOs que mexem todos os dias com dados concretos de oferta e demanda, resultados e metas, é que o País sentirá uma estiagem de crédito e apertos do consumo, mas sem comprometer o crescimento sustentável. "Ninguém percebe o Brasil parando totalmente", avaliou outro interlocutor.
Os palestrantes do debate fizeram coro. O deputado Aloizio Mercadante, por exemplo: "A crise tem papel saneador na economia porque pune os imprudentes, elimina os mais fracos, fortalece os instrumentos de controle e premia os precavidos", disse. E completou: "O Brasil tem várias razões para se sair bem - um colchão de liquidez de mais de US$ 200 bilhões, endividamento público sem comprometimento cambial, taxa de inflação dentro da meta e diversificação das exportações." De Edison Lobão, ministro das Minas e Energia, também presente ao encontro: "Não podemos internalizar o pânico. Temos ocupação da indústria acima de 80% e vamos manter por longo período a auto-suficiência energética para o País crescer ainda mais." A boa provocação veio do ministro das Comunicações, Hélio Costa: "Estamos tão bem que empresas nacionais vêm comprando ícones do capitalismo, como a Budweiser. Já dá para discutir a crise tomando uma Bud brasileira." O presidente do Congresso, Garibaldi Alves, fez o alerta preventivo: "O Brasil não será uma ilha nesta história toda." Certamente não. Mas como ensinam as melhores cartilhas do empreendedorismo, crise não é risco, é oportunidade. E os brasileiros, como os 160 empresários que foram conquistar Portugal, estão com boa vantagem para aproveitá-la.
Multimídia
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