DINHEIRO EM NÚMEROS
Nº edição: 510 | Personagem | 04.JUL.07 - 10:00 | Atualizado em 07.02 - 16:40
O salto de Doda
Os obstáculos que o medalhista olímpico enfrenta para trazer ao Brasil o mais importante torneio de equitação já promovido no País
Por Por Joaquim Castanheira

Medalha de bronze na Olímpiada de Atlanta em 1996 em saltos por equipe. Outro bronze na Olimpíada de Sydney em 2000 na mesma modalidade. Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda, já escreveu seu nome como um dos mais importantes cavaleiros do hipismo brasileiro. No início de agosto próximo, no entanto, Doda dará um dos mais importantes saltos de sua carreira – da carreira empresarial, esclareça-se. Entre os dias 1 e 5 daquele mês, ele colocará o Brasil numa posição jamais ocupada pelo País no circuito internacional de equitação. Pela primeira vez, o País sediará um torneio de hipismo 5 estrelas, o grau máximo de importância na classificação da Federação Internacional de Equitação. Batizado de Athina Onassis International Horse Show, o concurso será uma das oito etapas do recém-criado Global Champions Tour, uma espécie de Fórmula 1 do hipismo mundial. Idealizado pelo holandês Jan Tops, um dos maiores criadores de cavalos de raça do mundo, o circuito contará com a participação dos 30 primeiros colocados no ranking global e distribuirá algo em torno de sete milhões de euros em prêmios. Na fase brasileira, a premiação somará US$ 1 milhão.
A escolha do nome do torneio é óbvia: Athina, neta do lendário armador grego Aristóteles Onassis, um dos homens mais ricos de todos os tempos, é a mulher de Doda.
Torneio de DODA é Fórmula 1 do hipismo

Além da homenagem carinhosa, há um motivo mais pragmático. O nome de Athina abre as portas para o marketing que sustenta eventos desse tipo. O orçamento do capítulo brasileiro somará R$ 11 milhões, cerca de US$ 5,5 milhões, um montante bem superior aos US$ 2 milhões a US$ 3 milhões desembolsados em outros países. A diferença entre os valores revela o tamanho dos obstáculos que Doda enfrentará nessa empreitada. “Na Alemanha e na Grécia, por exemplo, a infra-estrutura está pronta”, diz Doda. “Aqui tivemos de montar, pois não tínhamos as instalações adequadas para a sofisticação e complexidade.” Da saída dos animais de seus países de origem à premiação, cada etapa foi cuidadosamente desenhada. Quatro vôos da VarigLog foram arrendados para transportar os 60 animais a partir de Maastricht, na Holanda. Baias individuais específicas para esse fim foram montadas no interior da aeronave. Uma empresa européia especializada nesse tipo de trabalho acompanhará todo o trajeto, do embarque à aterrissagem em Viracopos, em Campinas (SP). No aeroporto, cocheiras esterilizadas foram construídas para hospedar os animais logo após a chegada. A partir desse momento, equipes de veterinários estarão ao lado dos animais 24 horas por dia. “O deslocamento é a parte mais arriscada para os cavalos”, afirma André Beck, da Sportcom, empresa responsável pela organização do evento. “Eles estão fora de seu habitat e, portanto, mais expostos ao estresse e a ferimentos.”
R$ 11 Milhões é o orçamento do Athina Onassis International Horse Show

É fácil compreender a preocupação de Beck. Cada animal desses vale, no mínimo, US$ 1 milhão. “Ou seja, em poucos dias, US$ 60 milhões estarão no ar, sob sua responsabilidade”, diz ele. Por conta disso, o local do evento, a Hípica Paulista, o mais tradicional clube de equitação do País, está passando por um pente-fino. Os cuidados do gramado, palco das exibições, foram entregues a uma empresa francesa, a World Sports, responsável pela manutenção dos campos de alguns dos maiores estádios do mundo. Na semana passada, Doda e Beck caminhavam pela praça de competição para “sentir o gramado”. “Ainda está um pouco ‘duro’, é preciso mais maciez”, queixou-se o medalhista olímpico. Nem mesmo os obstáculos terão o “made in Brazil” estampado. Eles foram construídos especialmente para o torneio pela alemã Caro, considerada a melhor fornecedora desse tipo de equipamento no mundo. “O peso e a qualidade dos obstáculos podem determinar o resultado de uma prova”, afirma Beck. “Por isso, precisamos do que houver de melhor nesse campo.” O mesmo motivo incentivou Doda e Beck a “importarem” os serviços da Sports Computing Grafics, cuja vocação (acredite) é gerir a cronometragem, a ordem de entrada dos competidores e a premiação.
Nem mesmo as cocheiras da Hípica Paulista ficaram de pé ante a fúria de organização de Doda e sua equipe. As baias feitas de plástico rígido e estrutura de metal (muitas delas enferrujadas) cederão lugar a divisórias de lona – a mesma utilizada pela Petrobras para conter o vazamento de óleo no mar. Ultraresistentes, elas suportam coices dos cavalos sem se romper, evitando contusões nos animais. A serragem, 100% esterilizada, que cobrirá os estábulos chegará em pacotes (e não a granel), o que elimina a possibilidade de pregos e lascas de madeira. Esse arsenal de cuidados tem como objetivo atender aos requisitos da FEI. “Qualquer deslize pode tirar o Brasil das próximas edições do Global Champions Tour”, afirma Doda. O contrato firmado com o holandês Tops garante a realização do torneio em 2008 e 2009.

A organização esmerada também tornou-se um chamariz para as empresas interessadas em marcar presença no evento. “É um público de alto poder aquisitivo que circula em torno do hipismo. As companhias podem fazer disso uma plataforma de relacionamento”, afirma Daniela Zurita, responsável pelo marketing do evento. Mais de 15 marcas de primeira linha, entre elas Santander, Gerdau, Suvinil, Blue Tree, Mitsubishi e Embraer, estarão presentes nos cinco dias de torneio. A Embraer colocará um Phenom 300 em exposição. A Daslu desenvolveu uma coleção exclusiva para o Athina Onassis International Horse Show, cujas peças serão vendidas somente na Hípica durante a realização do concurso. Amir Slama, da Rosa Chá, promete uma surpresa para a ocasião. “Mais de 3,5 mil pessoas circularão por dia na Hípica”, afirma Daniela. “É uma oportunidade para as empresas falarem diretamente com um público seleto.” Segundo ela, o hipismo está vinculado a nomes de prestígio tanto na esfera esportiva como na corporativa. João Roberto Marinho é um praticante do esporte. Jorge Gerdau Johanpeter, também. Rodrigo Pessoa, medalha de ouro em Atenas, fará uma apresentação no primeiro dia explicando as regras do esporte, desconhecidas para a maioria dos brasileiros. “O Brasil mostrará sua capacidade de organizar eventos desse porte”, diz ela.




















