NEGÓCIOS

Nº edição: 670 | Negócios | 06.AGO.10 - 21:00 | Atualizado em 22.05 - 11:45

Eles só não inventam lucros

Durante décadas, diversos inventores brasileiros criaram produtos de sucesso mundial, mas não ganharam dinheiro com eles. É uma realidade que perdura até hoje

Por Paulo Brito

Clique e ouça um resumo da reportagem


Quem lê O Mago, biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais, encontra uma informação surpreendente na página 81. Não é sobre a vida de Paulo, um dos escritores mais lidos do planeta, mas sobre um tio. Um engenheiro mecânico chamado José Braz Araripe. 

O ilustre desconhecido é nada menos do que o inventor do câmbio automático. É verdade que foi a GM quem produziu o primeiro carro “hidramático”, em 1938. Mas só conseguiu desenvolver o câmbio por causa do protótipo e do projeto que Araripe e seu parceiro, Fernando Lemos, venderam à empresa, em 1932. 

 
Até onde Paulo Coelho ficou sabendo, cada um deles ganhou o suficiente para passar o resto da vida em razoável conforto: foram US$ 10 mil, o equivalente hoje a meio milhão de dólares. 
 
 
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" Posso fabricar cartões para tudo, menos para telefones"
Nelson Bardini, engenheiro que inventou o cartão telefônico            
    
 
Mas raramente os dois são reconhecidos pelo que criaram, tal como vários outros inventores brasileiros (leia quadro). Do cartão telefônico ao Walkman, da radiofonia ao cinema 3D, do avião ao Bina. Pessoas que, além de não terem sido reconhecidas, pouco ou nada obtiveram com aquilo que inventaram. 
 
Apesar disso, seus inventos transformaram o dia a dia de cidadãos do mundo inteiro e ajudaram a impulsionar grandes empreendimentos. A Sony, por exemplo, não se celebrizou por ter lançado o sistema Betamax, mas, sim, porque se tornou a fabricante do Walkman.
 
A lista de inventores brasileiros cuja autoria deixou de ser reconhecida é grande. Santos Dumont é um desses casos. Para os americanos, por exemplo, quem inventou o avião foram os irmãos Orville e Wilbur Wright, seus compatriotas. 
Dumont nunca chegou a fabricar aeronaves ou peças, não transformou seu invento num produto. Os irmãos Wright, sim. Outro exemplo clássico de inventor desconhecido é Andreas Pavel, um alemão que veio para São Paulo aos seis anos de idade. 
 
Foi ele quem primeiro construiu um aparelho para ouvir fitas cassete onde quisesse, usando fones de ouvido. O equipamento, batizado como “Stereobelt”, foi testado na Suíça pela primeira vez em 1972, enquanto ele caminhava sob uma nevasca com sua namorada. Ele tentou vender a ideia a vários fabricantes, mas não conseguiu. Ainda assim, registrou a patente na Itália. 
 
Só depois de 25 anos conseguiu com a Sony um acordo para receber royalties pela patente. Do mesmo modo, o italiano Guglielmo Marconi inventou o rádio, mas seu aparelho só transmitia os bips do código Morse. 
 
Quem inventou o aparelho que transmite voz, ou seja, a radiofonia, foi o padre gaúcho Roberto Landell de Moura, em 1900. Ele chegou a registrar a patente no Brasil e nos EUA, mas não passou desse ponto. Não houve apoio do  governo brasileiro sequer para uma experiência de transmissão entre dois navios da Marinha. 
 
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Por que isso aconteceu a tantos inventores? A resposta tem vários aspectos, e começa com a falta de conhecimento deles mesmos sobre as diferenças que existem entre uma invenção e um produto destinado ao mercado. 
 
“Todo mundo que inventa alguma coisa acha que vai dar conta da produção e comercialização”, alerta Carlos Mazzei, presidente da Associação Nacional dos Inventores. 
 
Agir sozinho, ele garante, envolve uma possibilidade de fracasso gigantesca. Em 24 anos de contato com essas pes-soas, Mazzei concluiu que 95% delas não têm aptidão para se tornar fabricantes: “Quando tentam fazer isso, os inventores acabam se dando mal.” 
 
Mas existe um caminho seguro, de apenas duas etapas, explica o presidente da associação: “A primeira é registrar o invento no Inpi, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial. A segunda, procurar um bom fabricante”, conclui.
 
Carlos Alberto dos Santos, diretor técnico do Sebrae, acha que essa questão é complexa para quem inventa: “Por um lado, o inventor tem o saber, mas, por outro, não domina o fazer”, explica. Nas empresas grandes, diz Santos, essa diferença é coberta pelos departamentos de pesquisa e desenvolvimento. “O pré-sal é resultado justamente dessa estratégia’’, acrescenta.
 
Nélio Nicolai, técnico em eletrônica que em 1977 inventou o identificador de chamadas Bina, não descobriu um bom caminho para seu equipamento. Pior: concluiu que foi lesado pelas empresas com as quais fez parcerias. “Se eu não tivesse sido roubado, só os royalties do Bina em celulares renderiam R$ 4 bilhões por mês ao Brasil”, garante ele.
 
Seus cálculos se baseiam nos cinco bilhões de aparelhos que usam sua invenção no mundo inteiro. Quando inventou o Bina, Nicolai estava na Telebrasília, mas em 1985 foi demitido.  
 
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A razão? Foi porque incomodava seus superiores com “uma invenção que não tinha mercado”, explica. Embora tenha registrado a patente no Brasil e no Exterior, não conseguiu fazer valer os direitos que supunha ter, e muito menos ganhar o que esperava. 
 
Resultado: segundo ele, o Bina foi copiado em todo o planeta. A reação de Nicolai foi abrir processos contra várias empresas do setor. Mas esses processos continuam rastejando pelas prateleiras do Judiciário brasileiro.
 
Nelson Bardini, engenheiro eletricista que inventou o cartão telefônico, fez justamente o que Mazzei, da Associação dos Inventores, e Santos, do Sebrae, recomendam. 
 
Mas também não teve sucesso. Em 1978, dois anos depois da invenção, foi convidado para trabalhar no Centro de Pesquisas da Telebrás, o CPqD, em Campinas. Então, conta ele, as pressões começaram: “O Ministério das Comunicações pediu que o CPqD desenvolvesse um telefone público que usasse cartão. 
 
Eu sabia como fabricar os cartões, e havia cedido a patente para uma empresa. Pois bem, houve tanta pressão sobre mim e sobre a empresa que cedemos os direitos de fabricação de cartões telefônicos. Posso fabricá-los, mas para outras finalidades ”, diz.
 
Santos, diretor do Sebrae, lembra que, embora ele tivesse a patente, isso é apenas um dos passos para o sucesso de uma inovação desse tamanho. Para inventores e inovadores, o órgão tem hoje programas capazes de abrir caminhos bem mais seguros que os de Nicolai e Bardini: “A estratégia necessária para levar um invento ao mercado raramente está entre as competências dos inventores. Cientistas não são pessoas que tenham grandes habilidades gerenciais”, conclui.
 
Hoje, já existe uma legislação específica para proteger e incentivar os inventores e descobridores, explica o presidente do Inpi, Jorge Ávila. É a chamada “lei da inovação”, publicada em 2004. 
 
Depois dela, aumentou muito o número de recursos e financiamentos para apoiar inventores e pesquisadores. Especialmente os de instituições de ciência e tecnologia, como as universidades e os centros de pesquisa. 
 
A grande novidade da lei é que ela exige a criação de núcleos que administrem a transferência de conhecimento dessas instituições para o mercado. “Muitos desses núcleos já estão criados e operando. Estão na PUC do Rio Grande do Sul, na Unicamp, UFRJ, USP e UFMG, por exemplo”, conta Ávila.
 
Nos últimos anos, ao organizarem as informações sobre patentes, as universidades descobriram que muitas delas, nascidas em seus laboratórios, estavam registradas em nome de professores. “Isso não aconteceu por má-fé”, explica o presidente do Inpi, “mas porque, na época em que elas foram pedidas, não havia estratégias nem estruturas para ajudar esses pesquisadores”, esclarece.
 
A Unicamp, que registra patentes desde 1984, é uma das instituições que mais entram com pedidos no Inpi (leia  quadro). Até a metade de julho deste ano, já havia feito 631 pedidos. A transferência do conhecimento entre os laboratórios e o mercado é feita pelo Inova, departamento dirigido pela engenheira e professora Patrícia Toledo. 
 
Segundo ela, a lei da inovação foi de fato um divisor de águas. “Antes dela, a universidade levou quase 20 anos para pedir o registro de 275 patentes; depois da abertura do Inova, pediu 196 em apenas três anos.”
 
Quando um pesquisador faz uma descoberta que pode se tornar um produto, entra em contato e o departamento começa a tomar providências: “Primeiro, avaliamos se é possível proteger o invento ou descoberta por meio de patente. 
 
Depois, uma equipe avalia o potencial de mercado e vai às empresas que possam ter interesse naquilo.’’ E, quando a descoberta se transforma em produto, todos ganham: “Os royalties são divididos em partes iguais entre a universidade, o departamento responsável pela pesquisa e o próprio pesquisador”, finaliza.
 

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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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  • Bruno tartari

    em 26/04/2012 19:11:21

    Também tem um Dimitri Sensaud de Lavaud que construiu do zero um avião em solo brasileiro. E teoricamente um carro que ele produziu na frança (ele era francês nacionalizado brasileiro) com seu nome (Sensaud de Lavaud) foi o primeiro com câmbio automático.

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    • Vander Urbano

      em 18/03/2012 11:47:51

      Sou contra patentes e adepto à disseminação do conhecimento. Prefiro um modelo onde qualquer um possa fazer seu próprio bem de consumo sem ter que pagar por algum conhecimento envolvido. E isto é coerente pois quem já desenvolveu algo sabe que para muitas coisas, se chega em um mesmo resultado.

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      • christian pinheiro

        em 15/12/2011 18:28:13

        gostaria de deixar meu site para os inventores a Intelecto inventos e tecnologia e uma empresa que investi em inventos para colocar no mercado. investimos em seu invento para ver no mercado. www.intelectoinventos.com.br

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        • Jose C. S. Gomes

          em 09/11/2011 21:44:40

          Telecomunicações possuem dezenas de milhares de patentes. Se fossem cobradas no valor que o nosso professor pardal quer, as telecomunicações nem existiriam. Tudo não passa de um conluio com juízes, advogados e um grande cabedal de sócios ávidos por partilhar bilhões de reais. Uma vergonha.

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          • Paulo

            em 07/10/2011 13:25:32

            Atenção, pois nessas associaçãoes de inventores só tem pilantra.

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            • adriano mafra

              em 22/04/2011 15:13:16

              Fica difícil para alguem inventar alguma coisa aqui no Brasil.Se a pessoa inventa um produto que dá certo,sua idéia é roubada e o inventor fica a ver navios.FAZER O Q? O INPI diz que proteje os inventores,mas,não sei.Veja o caso do bina,seu inventor está lutando para receber o que é seu de DIREITO.

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              • CARLOS MAZZEI

                em 11/08/2010 03:14:53

                AOS INVENTORES QUE LEREM ESTA MATÉRIA E PRECISAM DE AJUDA ,NÃO SÓ NO REGISTRO DE PATENTE COMO TAMBÉM NEGOCIAR SEUS PROJETOS JUNTO AO MEIO EMPRESARIAL , NÃO DEIXE DE VISITAR NOSSO SITE - WWW.INVENTORES.COM.BR

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                • CARLOS MAZZEI

                  em 11/08/2010 03:10:50

                  GOSTARIA DE PARABENIZAR A REVISTA E O JORNALISTA RESPONSÁVEL PELA MATÉRIA , PRINCIPALMENTE PELO FATO DE SER MUITO COMPLETA E INFORMATIVA AO LEITOR . COMO PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS INVENTORES , ACHO MUITO IMPORTANTE DIVULGARMOS A HISTÓRIA DOS NOSSOS INVENTORES BRASILEIROS !

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                  • Francisco Rodrigues Lira

                    em 08/08/2010 21:00:32

                    Como inventor, posso afirmar: Além do descaso do governo com a educação, refletindo em reduzido número de patentes brasileiras. As que existem, na maioria, são dá iniciativa privada; que não conta com apoio público no processo da invenção, muito menos, para fazê-la produzir, dá resultados e lucro.

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                    • César Alexandre do Valle

                      em 08/08/2010 14:20:05

                      Corrigindo o nome do INPI: instituto nacional de propriedade indusatrial. É atravez dele que as empresas roubam as patentes de inventores autonomos. O problema é que inventor é vaidoso e gosta de ser o sabidão, a solução é nunca mais patentear nada.

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                      • Cesar Alexandre do Valle

                        em 08/08/2010 14:13:12

                        Toda a materia acima é um grande engano, em primeiro lugar por que o principal agente de roubo de patente é o INPI, cujo nome ja diz tudo: Instituto Nacional de Proteção INDUSTRIAL e não intelectual como é nos EUA, por exemplo. As industrias mandam no INPI. E sabotam patentes dos inventores.

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