MERCADO DIGITAL

Nº edição: 459 | 05.JUL.09 - 10:00 | Atualizado em 17.07 - 20:09

A imagem que vem do Oriente

Consórcio japonês ganha a disputa pela adoção do modelo de TV digital, mas as famosas contrapartidas são apenas promessas

Por Por Cristiane Barbieri e Adriana Nicácio

Ministro Costa: defesa e vitória da proposta apoiada pelas emissoras
de tevê

Demorou nove anos, passaram-se dois governos, foi necessária uma longa, difícil e polêmica negociação, mas o Brasil, finalmente, definiu o seu padrão de televisão digital. Será o japonês. Na quinta-feira 29, com a presença do presidente Lula e de dois ministros do Japão, assinou-se o Termo de Implementação do Sistema Brasileiro de TV Digital. Mas, a tinta nem sequer tinha secado e a polêmica recomeçou. Os japoneses levaram, mas a contrapartida para o Brasil ficou envolta em chuviscos e fantasmas. Em troca da escolha do sistema japonês de TV digital, que servirá de base ao sistema brasileiro, o acordo não consagra nenhuma das contrapartidas que haviam sido anunciadas por seus defensores. Falou-se que em troca da escolha seria instalada uma fábrica de semicondutores no Brasil. “O governo do Japão cooperará com o governo do Brasil na elaboração de um plano estratégico para o desenvolvimento da indústria de semicondutores”, evade-se o texto oficial. Falou-se que haveria financiamento à indústria de semicondutores brasileira. “O banco japonês de fomento participará de um grupo de trabalho para discutir o tema de financiamento”, tergiversa o documento. Ou, nas palavras claríssimas de Shigeru Otake, ministro da Economia do Japão: “Financiamento à indústria de semicondutores? Por que deveria haver?” Para o ministro japonês, há um gigantesco trabalho a ser feito, por parte do governo brasileiro, antes que o tema do financiamento à indústria de semicondutores venha à baila. “O Brasil precisa preparar várias coisas”, disse Otake à DINHEIRO. “Cabe ao governo brasileiro investir em infra-estrutura, criar a política industrial, isenções fiscais e preparar material humano.” Ou seja: o problema é nosso, não deles.

 

Ministro Takenaka: “O Japão irá
honrar seus compromissos"

De modo geral, no entanto, a indústria de eletroeletrônicos gostou da decisão. Não por causa do modelo específico (que é considerado equivalente aos demais) ou das contrapartidas ao País (que ainda parecem miragem), mas sim porque, escolhido o sistema, as empresas poderão finalmente começar a se adaptar e a produzir. “Foi importante essa definição para que o País não ficasse ainda mais atrasado”, diz José Roberto Campos, vice-presidente executivo da Samsung. Na Gradiente a reação foi parecida. “O acordo é bom. Gostei da decisão”, afirmou Eugênio Staub, presidente da empresa. Na japonesa Toshiba, evidentemente, a escolha foi comemorada. A empresa é a única, entre as participantes do consórcio japonês, que ainda estuda a viabilidade de se fazer uma fábrica da semicondutores no Brasil. Sony e Panasonic já descartaram a hipótese. O Brasil importa US$ 2,5 bilhões em chips ao ano, equivalente a quase metade dos US$ 5,2 bilhões gastos na compra de equipamentos e componentes eletrônicos digitais. “Infelizmente, pelo investimento requerido, essa é uma decisão muito longa e complexa”, afirma Roberto Barbieri, diretor técnico da Semp Toshiba. O mercado estima que uma fábrica de semicondutores poderá custar entre US$ 600 milhões a US$ 4 bilhões, dependendo de sua complexidade.

 

Em dois anos, quando tiverem início as transmissões digitais, esse mercado deverá movimentar US$ 1 bilhão por ano. Além da indústria eletroeletrônica, os grandes interessados na questão eram as emissoras de televisão e as operadoras de telefonia. As primeiras, lideradas pela Globo, defendiam o padrão japonês e saíram vitoriosas. O governo evitou assim comprar uma briga em ano eleitoral. As operadoras de telefonia perderam. Elas defendiam o padrão europeu, que colocaria a transmissão de sinais de tevê aos celulares sob seu controle. No padrão japonês, as imagens da tevê aberta serão captadas por aparelhos móveis, mas não haverá novos participantes do mercado de televisão. Os europeus, que perderam o embate, dizem que tampouco haverá indústria de semicondutores. Os japoneses rebatem. “O Japão está comprometido e irá honrar com seus compromissos”, afirmou Heizo Takenaka, ministro das Comunicações japonês durante a cerimônia de assinatura do termo. Os compromissos assinados, por vagos, não são difíceis de ser cumpridos. Espera-se que os compromissos morais sejam levados à frente.

  Shigeru Otake, ministro da Economia do Japão: Financiamento japonês à indústria de semicondutores: no Brasil? Por que deveria haver?

O QUE MUDA COM A TV DIGITAL


QUANDO COMEÇA?
Entre um ano e meio e dois anos. As emissoras têm prazo de 18 meses, após a regulamentação do projeto, para começar a transmitir sinais digitais


TENHO DE TROCAR DE APARELHO?
Não. O set top box, uma caixa do tamanho de um DVD, adaptado à tevê normal, transformará imagens analógicas em digitais.


E SE EU NÃO QUISER A TEVÊ DIGITAL?
Durante 10 anos, o sinal digital conviverá com o analógico. Depois disso, só haverá a TV digital e o televisor analógico não funcionará mais. Se houver necessidade, o governo prorrogará o prazo de transição.


A TEVÊ SE TRANSFORMARÁ EM INTERNET?
Num primeiro momento, o televisor terá apenas funções de interatividade, como email e compras online.


VOU RECEBER A A TEVÊ NO CELULAR?
Provavelmente serão programas curtos. Atualmente, nenhum celular tem autonomia de bateria para horas de recepção.

 

 


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