INVESTIDORES

Nº edição: 594 | 25.FEV.09 - 10:00 | Atualizado em 06.02 - 02:29

O jeito eficiente de fazer o bem

Gestão empresarial, busca de resultados, inovação e parcerias com grupos privados. Com essa receita, um grupo de executivos está mudando a cara da filantropia

Por Por Amauri Segalla e Claudio Gatti (fotos)

Graacc
Receitas:
R$ 13 milhões Parcerias: McDonald's, Bradesco, Suzano, Biolab Pessoas atendidas por ano: 15.500

EM 1978, O MÉDICO SÉRGIO PETRILLI postou-se diante da mulher e disse que iria para os Estados Unidos. Nos quatro anos anteriores, ele trabalhara na área de oncologia de hospitais públicos de São Paulo. Havia sido uma experiência difícil. Naquela época, a chance de sobrevivência de crianças com câncer não passava de 20%. Eram tantas que muitas ficavam nas enfermarias, atendidas por profissionais que às vezes não sabiam o que fazer. E o que é pior: sozinhas. Os pais, impedidos de acompanhar os entes queridos, acomodavam-se em precárias pensões da vizinhança. O médico perdeu muitos pacientes, mas vê-los morrer a sós no canto de uma enfermaria era ainda mais doloroso. Por isso decidiu ir para o Exterior. "Eu queria desesperadamente descobrir como os americanos tratavam seus pacientes com câncer e trazer esse conhecimento para o Brasil." Convocou a mulher e os dois filhos pequenos, vendeu um automóvel Maverick e uma Brasília, que era tudo o que tinha, e partiu. Nos Estados Unidos, empregou- se no Centro Memorial de Câncer Sloan- Ketting, em Nova York, referência mundial na área. Ficou lá por três anos antes de voltar ao Brasil e provocar uma revolução.

Petrilli é hoje o superintendente do Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc), o maior e mais respeitado instituto para o tratamento de câncer do Brasil. Ele criou o Graacc. Fez mais do que isso. Em vez de adotar o modelo assistencialista tradicional, trouxe para o País conceitos que até então só eram adotados em nações desenvolvidas. O Graacc é uma empresa. Ele gera recursos próprios, tem gestão profissional e está preocupado em crescer e abrir novas frentes de trabalho. Seus funcionários são cobrados por resultados, o que numa instituição como o Graacc significa aumentar o índice de cura dos pacientes e a melhoria de sua qualidade de vida. Como numa corporação de ponta, a busca pela inovação é obsessiva. O Graacc lidera no Brasil um grupo que pesquisa o uso de células-tronco para o tratamento de alguns tipos de câncer, um dos grandes desafios da ciência moderna. No mundo corporativo, o sucesso é traduzido em lucros. No Graacc, em vidas. Graças à evolução dos tratamentos, que Petrilli ajudou a solidificar, quase 70% das crianças e dos adolescentes que passam pela instituição saem de lá curados. É o mesmo índice observado nos países desenvolvidos. Petrilli faz parte de uma geração de empreendedores que direcionaram seus esforços para praticar o bem. Para essa turma, o dinheiro, o sucesso profissional, a vaidade por um trabalho benfeito não fazem sentido se não tiverem como fim o auxílio ao próximo.

Liga Solidária
Receitas:
R$ 30 milhões Parcerias: Banco Pátria, Microsoft e Kimberly Pessoas atendidas por ano: 3.200

A trajetória bem-sucedida do Graacc é resultado da intensa colaboração de grandes empresas. Sem elas, o dinheiro de doações voluntárias e dos programas governamentais não seria suficiente. Dos custos totais de R$ 25 milhões do Graacc em 2008, metade veio do mundo corporativo. Empresas como McDonald's, Suzano, Bradesco, Ericsson e Philips, para citar só algumas, tiveram e têm um papel fundamental no crescimento da instituição. Petrilli foi um dos idealizadores de um dos programas sociais mais conhecidos do Brasil. Em 1992, diretores do Graacc e executivos do McDonald's decidiram criar o "McDia Feliz", que destina o dinheiro arrecadado com a venda de sanduíches durante um dia inteiro para instituições filantrópicas. Desde 1992, o "McDia Feliz" gerou R$ 21 milhões para o Graacc.

O McDonald's também ajuda a manter um local chamado Casa de Apoio, espécie de condomínio fechado com 30 casas que abrigam os familiares de crianças que são pacientes do Graacc. "Os tratamentos são longos, às vezes duram anos", diz Petrilli. Como muita gente vem de outras cidades do Brasil e não tem dinheiro para pagar um hotel, ele decidiu criar um espaço em que pais pudessem morar com os filhos. Petrilli pensou nisso quando, no final dos anos 70, ouviu de um pai que tinha um filho internado com câncer no Hospital do Servidor, em São Paulo, que iria interromper o tratamento da criança porque bandidos moravam na pensão onde ele estava e, sem dinheiro, não era possível conseguir nada melhor. "Custeamos 50% das casas de apoio do Graacc", diz Francisco Neves, superintendente do Instituto Ronald Mcdonald, que cuida das ações sociais da rede.

Mais Diferenças
Receitas:
R$ 2 milhões Parcerias: Claro e BM&FBovespa Pessoas atendidas por ano: 3.000

A gestão profissional aumentou a fonte de receitas e aprimorou o atendimento às 626 mil pessoas assistidas anualmente pela Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), uma das instituições filantrópicas mais tradicionais do Brasil. Alçado à presidência da AACD há três anos, o empresário Eduardo de Almeida Carneiro encontrou resistência dentro da própria associação e chegou a ser criticado por diretores subordinados. A razão: "Diziam que eu era obcecado por números e que esse não era o espírito da AACD", diz Carneiro. "O que as pessoas não entendem é que só a sustentabilidade financeira permitirá à AACD ampliar o total de atendimentos". Carneiro, como um bom administrador, usa indicadores para sustentar sua teoria. A AACD tem 32 mil pessoas na fila, todas elas com algum tipo de deficiência física. São principalmente vítimas da violência urbana (acidentes de carro, baleados), crianças nascidas com paralisia cerebral, portadores de lesões motoras provocadas por doenças. Para ampliar o rol de atendidos, ele precisa de recursos. Para trazer recursos, ele dever ser, acima de tudo, um profissional.

Dono de uma incorporadora de imóveis, o presidente da AACD é um empresário bem-sucedido. Ele entrou na instituição após um grande trauma. Em 1998, foi sequestrado. Após três dias de cativeiro, conseguiu fugir. Nesse período, foi agredido a socos e pontapés pelos criminosos. A violência fez com que se mudasse para Miami, nos Estados Unidos. Mas sua cabeça estava no Brasil. "O episódio me ensinou que a vida é uma travessia perigosa", diz o empresário. "É como se fosse um rio cheio de predadores. Alguns conseguem atravessá-lo, mas muita gente fica no meio do caminho. Aprendi que quem atravessa não pode dar as costas para os outros que estão no meio do rio. É preciso ajudá-los a sair dali."

Carneiro voltou ao Brasil para dar a sua contribuição. Procurou a AACD, disposto a "lavar o chão, servir comida, atender o telefone". Mas sua experiência profissional fez com que rapidamente se destacasse. Passou pelo setor administrativo, foi tesoureiro, diretor e vice-presidente até ser convidado a ocupar o posto mais alto da instituição. Inquieto, provocou mudanças. Uma delas foi a contratação dos serviços do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG). Dirigido por Vicente Falconi, o INDG ajudou Aécio Neves a fazer uma varredura na estrutura administrativa do governo mineiro. No momento, o instituto está desenvolvendo ferramentas de gestão específicas para a AACD. Outra iniciativa foi a contratação de uma empresa para a digitalização de todos os arquivos e prontuários da entidade. Quando o trabalho ficar pronto, vai ser possível cruzar dados e fazer o mapeamento completo de todos os pacientes atendidos na história da AACD. O projeto vai exigir um investimento de R$ 6 milhões nos próximos três anos, que será feito com recursos próprios.

Parcerias com empresas têm sido fundamentais para a saúde financeira da AACD. No ano passado, um acordo com o Unibanco permitiu que os clientes do cartão de crédito Hipercard contribuíssem mensalmente, na própria fatura, com valores que variam de R$ 3 a R$ 5. Ao lado de um título de capitalização do próprio Unibanco que destina parte dos recursos para a AACD, a parceria rendeu à instituição filantrópica R$ 4,3 milhões em 2008. Ações de marketing também passaram a ser valorizadas na nova gestão. Na semana passada, o time do Corinthians exibiu em sua camisa o logo da AACD. Tudo de graça. "Em termos de imagem, tivemos um retorno espetacular", diz o executivo. Agora ele está de olho na torcida do Corinthians. Quer realizar novas ações destinadas aos 20 milhões de fãs do clube. A primeira delas é convencer o craque Ronaldo Fenômeno a visitar a sede da AACD, em São Paulo. Ronaldo, com sua enorme credibilidade, pediria contribuições financeiras à nação corintiana. A gestão profissional tem dado resultado. Em 2008, a AACD atingiu receitas recorde de R$ 136 milhões, um crescimento de 12% ante 2007. A performance financeira foi exemplar, com superávit em torno de R$ 10 milhões. "Com esse dinheiro, posso programar novos investimentos que beneficiam o público atendido", diz Carneiro. "Vale lembrar, eu presto contas de tudo o que é feito." O conselho da AACD é presidido por Horácio Lafer Piva, ex-presidente da Fiesp. O Graacc também é observado de perto por um conselho composto de empresários experientes. No seu caso, o presidente é Sérgio Amoroso, dono do Grupo Orsa.

A modernização chegou às principais instituições filantrópicas do Brasil. A Liga Solidária, fundada há 85 anos, passou recentemente a ser comandada por um executivo contratado no mercado. Ao contrário da AACD, cujo presidente realiza um trabalho voluntário, na Liga o profissional recebe salário para se dedicar integralmente ao projeto. É o caso de Alvino de Souza e Silva, superintendente da instituição. Ele trabalhou em empresas como Sharp e SAP antes de receber o convite para transformar a Liga numa organização essencialmente profissional. Alvino trouxe uma novidade para a instituição que atende anualmente 3.200 crianças e adolescentes, muitos deles vítimas de violência doméstica. Com a venda de um terreno no ano passado, por R$ 21 milhões, Alvino procurou o Banco Pátria para criar um fundo dedicado à administração desse dinheiro. "O fundo tem normas rígidas de gestão e segurança e foi desenvolvido especialmente para nós", diz. "É um tipo de aplicação ainda pouco utilizado por entidades filantrópicas." Alvino dispõe de uma diretoria que tem por obrigação prospectar negócios com empresas. Algo parecido está sendo criado pela ONG Mais Diferenças. No ano passado, a instituição criada pelos irmãos Carla e Luís Henrique Mauch procurou a Claro para vender uma ideia. "Queríamos criar um concurso de curtas com a temática da diversidade e inclusão social", diz Carla. Mais de 1.500 filmes foram inscritos e o vencedor, uma pessoa com deficiência, levou R$ 50 mil de prêmio. A Mais Diferenças, que em 2008 teve receitas da ordem de R$ 2 milhões, é essencialmente uma ONG que forma educadores para empresas. São pessoas que ajudam as companhias a contratar e lidar com pessoas com deficiência.

Embora a profissionalização seja fundamental para que as instituições desse tipo sejam viáveis, o que ainda move as pessoas envolvidas em atividades filantrópicas é acima de tudo o desejo de fazer o bem. É comovente o carinho sincero que Sérgio Petrilli, do Graacc, tem pelas crianças que atende. Para a fotografia de capa desta reportagem, ele pegou no colo a menina Sophia de França Paul dos Santos, de um ano e dois meses. Sophia está fazendo uma série de exames para detectar a gravidade de sua doença, ainda indefinida. Petrilli abraçou e beijou o bebê, num gesto absolutamente natural. Depois disse que se sentia como o avô de Sophia dela. Afinal, o que o tem motivado esses anos todos? "Eu podia estar ganhando muito dinheiro num consultório, mas são essas crianças que me fazem feliz."


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