FINANÇAS

Nº edição: 664 | Finanças | 25.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 24.02 - 06:09

Eu ganho, eles levam

Fundo de investimentos que divide as receitas com ONGs mostra o novo perfil da responsabilidade social

Por Cláudio Gradilone

Sóstenes Brasileiro tem um problema. O diretor-geral da Fundação Gol de Letra, uma organização não governamental (ONG) que auxilia na educação de crianças e adolescentes carentes, precisa encontrar doadores de recursos que financiem suas atividades. É relativamente fácil captar dinheiro quando o argumento é formar educadores.
 

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Garantia: a preocupação de Dossa, do Société Générale, é assegurar um fluxo
de caixa previsível para as crianças da Fundação Gol de Letra

Já a necessidade de contratar contadores ou técnicos em informática é menos convincente na hora de conversar com um patrocinador em potencial. “Isso torna mais difícil manter e ampliar as atividades da fundação”, diz. Sua agruras são compartilhadas pela ONG Casa do Zezinho, que cuida de mais de 500 crianças na zona sul da cidade de São Paulo . “Custear as despesas operacionais é um problema”, diz Gwenaelle Maitre, coordenadora financeira da Casa.

Uma parte da solução pode vir de dois bancos franceses, o Société Générale e o Crédit Agricole. Ambos lançaram em conjunto um fundo de investimentos chamado Responsabilidade Social Multimercado, que aplica seu patrimônio tanto em ações quanto em títulos de renda fixa. Há duas diferenças em relação às centenas de fundos desse tipo à disposição do investidor. A primeira é que o fundo escolhe apenas títulos de empresas comprometidas com a responsabilidade social.

A segunda é que ele destina 80% da taxa de administração e 66% da taxa de performance para a Gol de Letra e para a Casa do Zezinho. “O fluxo de recursos será constante e previsível”, diz Fábio Aguiar Faria, diretor da empresa de administração de recursos do Crédit Agricole no Brasil. “Haverá menos risco de o trabalho dessas ONGs ser comprometido por falta de caixa.”

Essa preocupação é cada vez mais presente na agenda de quem resolve financiar a responsabilidade social. Ajudar o próximo? Sim, claro, mas sem abrir mão da eficiência na alocação de recursos que todo empresário exige, o que inclui reduzir os riscos de que as atividades sejam interrompidas. “O trabalho das ONGs também precisa ser sustentável”, diz François Dossa, principal executivo do grupo Société Générale no Brasil.

Lançado no início de maio, o Responsabilidade Social tem apenas R$ 4 milhões investidos por enquanto. A meta dos dois bancos é chegar a R$ 100 milhões em patrimônio, o que deverá render R$ 2 milhões por ano às duas ONGs. “A ideia é que esse dinheiro consiga pagar as despesas operacionais”, diz Dossa. Ou seja, permitindo que as boas intenções dos fundadores e o esforço dos voluntários não se dissipem pela ausência de um contador ou um profissional de informática.

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As deficiências na gestão reduziram a disposição do mercado financeiro de unir investimentos e responsabilidade social nos últimos tempos. A maioria dos grandes bancos oferece produtos voltados ao investidor que quer ganhar dinheiro e também faturar créditos no céu (leia no quadro acima), mas os lançamentos são poucos e alguns produtos conhecidos estão sendo, discretamente, retirados de circulação.

A Caixa Econômica Federal é um bom exemplo. Em 2003, o banco lançou o Caixa Fome Zero, que destina 50% da taxa de administração aos programas de combate à fome. Hoje ele está fechado para captações e, segundo a assessoria de imprensa do banco, pode ter suas atividades interrompidas.

Esse desânimo ocorre principalmente porque, apesar de todo o discurso, a responsabilidade social e a sustentabilidade ainda não são argumentos fortes no momento de fazer o investidor se decidir por uma aplicação financeira.

“Na hora de escolher onde aplicar, o investidor é racional”, diz William Eid Júnior, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas especializado em fundos de investimento. “Há várias comprovações empíricas de que os fundos que incluem responsabilidade social e sustentabilidade em suas estratégias de gestão não têm um desempenho melhor do que os fundos convencionais.” Há até algumas desvantagens, como taxas de administração maiores, o que amplia a dificuldade de atrair dinheiro. Afinal, o investidor tem coração, mas pensa com o bolso.

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