ECONOMIA
Nº edição: 663 | Economia | 18.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 13.06 - 12:34
O preço de uma aliança
Depois das convenções partidárias, o governo abre o cofre em favor de sua candidata - e quem mais ganha é o PMDB
Por Guilherme Queiroz
Reza a cartilha da política brasileira que, num ano de eleição como 2010, reserva-se uma safra de agrados destinada a seduzir o eleitor e aglutinar o apoio de partidos. Para essa última categoria, as últimas semanas foram de bonança. Empenhado em alavancar a aliança pró-Dilma Rousseff, o governo abriu a arca de bondades visando fortalecer os palanques da petista nos Estados e aglutinar partidos com tempo de tevê para somar à propaganda política da candidatura governista.

Aperto de mão: na convenção da semana passada, Dilma sacramentou aliança
com Michel Temer. O PMDB foi quem mais lucrou com a união
Para isso, liberou o pagamento de emendas e aceitou a nomeação de apadrinhados para afastar da órbita do ex-governador José Serra partidos que resistiam em aderir à petista. A fatura é alta: chega a R$ 109 milhões em emendas empenhadas – com o compromisso de pagamento – para a base aliada.
A torneira, aberta em conta-gotas desde abril, passou a jorrar recursos na última quinzena de maio, quando R$ 79 milhões foram liberados. Justamente às vésperas das convenções partidárias que decidiram ou ainda podem optar pelo apoio à Dilma, destravaram as negociações do PT com potenciais aliados. O PMDB, que ganhou a vice-presidência, com Michel Temer, recebeu R$ 50 milhões, quase metade do total liberado até a primeira semana de junho.

Parlamentares atribuem uma importância redobrada às emendas individuais em ano de eleição. Primeiro, por causa do prazo exíguo para conseguirem os recursos. A legislação eleitoral proíbe o governo de assumir novas despesas a menos de três meses do primeiro turno, ou seja, depois de 3 de julho. Segundo, porque com as emendas, deputados e senadores “carimbam” obras tocadas em seus redutos eleitorais, uma forma de mostrar ao eleitor que têm prestígio no governo.
Ainda indefinido quanto a quem apoiar em outubro, o PP é caso emblemático da corte do governo via emendas. Com afinidades com o PSDB, o partido chegou a flertar com a candidatura de José Serra, que chegou a ofereceu ao senador Francisco Dornelles (PP-RJ) a vaga de vice.
Até 26 de maio, os progressistas haviam recebido apenas R$ 1 milhão dos R$ 93 milhões em emendas propostas. Em 4 de junho, esse valor havia subido para R$ 7,5 milhões, dos quais pelo menos R$ 4,5 milhões liberados pelo Ministério das Cidades, pasta controlada pelo PP. O ministério afirma que “vem seguindo o ritmo e o volume de propostas que chegam”.
Os partidos menores que ensaiavam uma aproximação com a candidatura tucana também foram beneficiados com emendas e até com um cargo de segundo escalão. O PSC, que definiu apoio a Serra em 5 de maio, recebeu uma injeção de R$ 2,3 milhões de recursos no fim de abril. Partido aliado mais infiel no Congresso, o PTB tinha a presidência da Casa da Moeda como única indicação a um posto importante.
Para atrair os petebistas, o partido ganhou a presidência da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), antes na cota do PMDB. O órgão foi entregue ao paraibano Alexandre Magno de Aguiar, que passou a gerir um orçamento de R$ 2,8 bilhões este ano para administrar os estoques reguladores da produção agrícola em unidades espalhadas por todo o País. O critério político prevaleceu também na liberação de R$ 6,6 milhões de uma emenda do deputado Ciro Gomes (PSB-CE).
Apesar das emendas, a formação das alianças regionais enfrenta outros problemas. Um deles é a greve de fome dos petistas Manoel da Conceição, 75 anos, fundador do partido, e do deputado Domingos Dutra (PT-MA), que protestam contra a decisão do diretório nacional do PT de apoiar a reeleição da governadora Roseana Sarney (PMDB), em detrimento do deputado federal Flávio Dino (PC do B).
Com a saúde abalada, Conceição chegou a suspender a greve de fome depois de ser internado na enfermaria da Câmara, na quarta-feira 16. Mas voltou ao protesto quando achou que as negociações com o presidente do PT, José Eduardo Dutra, não estavam avançando. E no dia seguinte os dois retomaram o protesto no plenário. Abrir o cofre ajuda a montar alianças, mas nem sempre é o suficiente.
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