NEGÓCIOS

Nº edição: 663 | Negócios | 18.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 22.05 - 17:21

A força do Greenpeace

Antes vista como xiita e causadora de problemas, a entidade passou a ajudar empresas a se tornar sustentáveis. A Nike é a nova companhia a entrar na lista

Por Crislaine Coscarelli

Quando a americana Nike decidiu tornar os seus produtos mais, digamos, “sustentáveis” a empresa envolveu quase todos os seus departamentos para pensar em estratégias eficientes. A companhia, que, na década de 90, se viu em meio a um escândalo pelo fato de os seus fornecedores usarem trabalho infantil, não podia errar.

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Sérgio Leitão, do Greenpeace: "Percebemos que podíamos investigar fornecedores"

Por isso, para ter certeza de que o couro que usa na confecção de seus produtos não é procedente de áreas de desmatamento da Amazônia, não consultou apenas seu mais alto escalão: a Nike buscou a ajuda do Greenpeace. Por décadas, essa ONG foi vista como uma entidade que fazia muito barulho com pouca eficiência, se limitando a manifestações de rua e protestos em portas de fábricas.

Essa situação mudou no momento em que a sustentabilidade passou a ser decisiva para as empresas. Eles ainda fazem protestos, é verdade, mas, hoje, são escutados. “Percebemos que tínhamos condições de investigar fornecedores. Esse monitoramento tem criado uma alavanca de mudança de comportamento”, diz  Sérgio Leitão, responsável pelo Greenpeace no Brasil.

O resultado da consulta feita pela Nike está se refletindo em uma parceria ampla, que envolve também outras organizações e empresas, unidas para criar um sistema inédito no mundo que  garantirá a origem do couro utilizado nos calçados. “Nosso compromisso será ainda maior que apenas garantir a sustentabilidade dos produtos Nike. Faremos um esforço para que ninguém mais compre couro de áreas de desmatamento”, diz Mário Andrada, diretor da Nike para a América Latina.

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Couro "limpo": a Nike deu um ultimato a seus fornecedores.
Até o dia 1º de julho a origem da matéria-prima tem de ser totalmente comprovada
 

O sistema ainda está sendo desenvolvido, mas, enquanto não fica pronto, a fabricante trabalha em um ultimato a seus fornecedores diretos: todos têm até o dia 1º de julho para dar garantias da procedência do couro. Com a mesma preocupação, a rede de restaurantes McDonald’s e a varejista Walmart procuraram o Greenpeace, em 2007, em momentos diferentes, para que pudessem detectar os produtores que são capazes de provar, sem sombra de dúvida, a origem de sua soja e carnes.

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“Eles têm muitas informações. Formamos uma relação de confiança”, diz Yuri Feres, diretor de sustentabilidade do Walmart. “Com essa atitude, companhias gigantes ditam padrões no mercado”, diz Leitão, do Greenpeace. A entidade, que no mundo conta com três milhões de colaboradores, 48 mil deles no Brasil, utiliza também rankings como artifício para exigir mais transparência das empresas. Um exemplo é o Guia de Eletrônicos Verdes, publicado desde 2006.

O guia lista empresas de computadores, celulares, tevês e consoles, de acordo com suas políticas de materiais tóxicos, reciclagem e mudança climática. A Dell aparece em uma das piores colocações. A cobrança do Greenpeace é para que a empresa diminua o uso de PVC e outros compostos considerados tóxicos em seus produtos.

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No alvo dos protestos: a Dell trabalha para atender às reivindicações do Greenpeace e subir no ranking da entidade
 

Ciente, a Dell afirma que trabalha em conjunto com seus fornecedores para mudar isso até o fim de 2011. Na outra ponta da lista está a Nokia, que, pelo segundo ano consecutivo, manteve a liderança, mas observa o ranking com cuidado, consciente de que uma futura queda na colocação pode ser negativa.

Mas há áreas em que o Greenpeace ainda não possui tanta influência. Os protestos da entidade contra um novo tipo de arroz transgênico que a Bayer pretende lançar no Brasil não têm mudado a atitude da empresa. “Recebemos o manifesto eletrônico do Greenpeace há um ano, mas seguimos os protocolos brasileiros e internacionais e vamos manter a pesquisa dessa nova semente por aqui”, diz André Abreu, diretor de tecnologia da Bayer CropScience. Nesse caso, o Greenpeace voltará a fazer o que sabe como poucos: chiar.

 

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