NEGÓCIOS

Nº edição: 662 | Especial | 11.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 11.05 - 04:46

Jogo empatado

A África do Sul esperava faturar alto com a Copa, mas o impacto econômico será muito menor do que o projetado

Por Yan Boechat, enviado especial à África do Sul

Até pouco tempo atrás, Thandi Shabalala estava certa de que 2010 seria o ano de ouro para a Associação Nacional de Artesãos da África do Sul, uma cooperativa que ela comanda. A principal loja da NCS, na sigla em inglês, fica exatamente em uma das principais áreas turísticas de Johannesburgo, o complexo cultural do Market Theatre, no centro da cidade, que, além do teatro, reúne também um dos principais museus etnográficos do país. Certa de que a Copa do Mundo traria centenas de milhares de turistas, Shabalala não teve dúvida: reuniu todas as economias da cooperativa de artesãos e investiu 500 mil rands, algo próximo a R$ 100 mil, em produtos.
 

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Em busca do gol: garotos jogam futebol na periferia de Johannesburgo.
O Mundial vai acrescentar 0,5% ao PIB do País

 

O estoque é suficiente, em tempos normais, para dois anos de vendas. Na segunda-feira 7, a apenas quatro dias do início da Copa do Mundo, Shabalala não tirou os olhos das ruas vazias que dão acesso ao complexo cultural. Naquela manhã de sol forte, como quase todas no frio e seco inverno de Johannesburgo, nenhum turista havia entrado na pequena loja, estrategicamente situada ao lado do Centro de Informações Turísticas da maior cidade africana. “Todos os dias estamos rezando para que os turistas venham, e nós acreditamos que eles vão vir”, diz a sul-africana, com um misto de esperança e desapontamento. “Sem dúvida, estamos decepcionados, achávamos que o país seria invadido por turistas.”

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Os temores e as esperanças de Shabalala são quase uma unanimidade entre os sul-africanos. Os turistas, de fato, ainda são poucos. Os hotéis estão longe da lotação máxima esperada, e apenas em alguns pontos específicos da cidade é possível ver as cenas tradicionais de grupos de torcedores fantasiados, como nos mundiais passados.

A expectativa inicial era de que mais de meio milhão de visitantes desembarcassem na África do Sul para assistir às 64 partidas da Copa 2010. Já no final do ano passado, as previsões caíram para algo próximo a 400 mil turistas. Em abril, as estimativas foram revistas mais uma vez, para 350 mil visitantes. Agora, com a Copa já em andamento, o governo fala em menos de 300 mil turistas.
 

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Oportunidade: o camaronês Bidias Henry foi para a África do Sul em busca de emprego,
mas acabou montando uma barraca para vender produtos da Copa

Os números explicam por que os sul-africanos estão desapontados. O país esperava ganhos estratosféricos com a Copa do Mundo e, a cada dia, percebe que a economia do País sofrerá um impacto menor do que se projetava. De acordo com a consultoria Grant Thorton, os turistas deixarão US$ 1 bilhão no país durante a competição.

Outro estudo, da europeia Danske Markets, afirma que, no curto prazo, a Copa do Mundo terá um impacto pequeno na economia sul-africana. Com o contínuo aumento das críticas a respeito dos ganhos financeiros, a Fifa decidiu se pronunciar. Delia Fischer, porta-voz da entidade, reconheceu que o número inicialmente previsto não ocorrerá, mas manteve o tom otimista.
 

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Decepção: poucos turistas em shopping de Johannesburgo.
O país deve receber menos de 300 mil visitantes durante a Copa

 

“Acreditamos que até 400 mil turistas podem vir para a Copa”, diz Fischer. O governo da África do Sul prefere outra abordagem para rebater as acusações de que gastou demais sem pensar no retorno. “Os ganhos de um evento como esse não podem ser calculados em um ano, mas no longo prazo”, disse em nota oficial o Tesouro sul-africano.

O governo da África do Sul estourou todas as previsões de orçamento para a Copa. Apenas na construção ou reforma dos dez estádios que abrigarão os jogos do Mundial, os gastos somaram US$ 2,1 bilhões. Em 2006, quando as obras começaram, o orçamento inicial mal passava de US$ 1 bilhão.
 

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Aposta: Thandi Shabalala investiu R$ 100 mil na abertura de uma loja para vender artigos típicos da África
 

A estimativa do banco suíço UBS é de que o tesouro da África do Sul tenha feito investimentos diretos da ordem de mais de US$ 5 bilhões. Se forem considerados os gastos com infraestrutura, como a construção e ampliação de aeroportos, estradas e melhorias nas telecomunicações, os aportes do governo sul-africano chegam a quase US$ 15 bilhões.

Outro estudo, da Grant Thorton, estima que os impactos diretos do evento na economia sul-africana serão de US$ 11 bilhões, o que representaria um acréscimo de 0,5 ponto percentual no PIB do país em 2010. No entanto, 71% desses valores vieram do caixa do governo.

A economia sul-africana vem de um ano difícil. Em 2009, o PIB do país encolheu 1,8%. Ainda assim, a África do Sul é a maior potência econômica da região. Responde por cerca de 39% do PIB de todos os países da chamada África sub-saariana. No entanto, enfrenta sérios problemas econômicos e sociais, muitos deles herança do regime de segregação racial.

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Entre 1994, quando Nelson Mandela foi eleito o primeiro presidente negro da história do país, e 2009, mais de um milhão de casas foram construídas e instalados sistemas de fornecimento de água encanada para mais de sete milhões de famílias. Apesar de consideráveis melhorias sociais e de infraestrutura, que vêm atraindo crescente investimento estrangeiro, o país ainda sofre com uma taxa de desemprego alarmante.

Hoje, um em cada quatro moradores da África do Sul está desempregado. Bidias Henry, um camaronês que como tantos outros veio para Johannesburgo tentar uma vida melhor, é um deles. Ele chegou ao país para ser jogador de futebol. Veio a convite de uma equipe sul-africana, mas seu futebol parece não ter convencido os técnicos da África do Sul. “Ficaram com ciúmes”, diz ele.  

Henry está há um ano sem emprego. Ele já desistiu do futebol e, diz, gostaria de trabalhar em uma fábrica. “Mas não há nada.” Para sobreviver, montou uma banca de produtos ligados à Copa do Mundo em uma das principais ruas do centro de Johannesburgo. “Eu e meu irmão juntamos o que tínhamos e fizemos um estoque, mas até agora não conseguimos vender muita coisa”, conta ele. “Os turistas simplesmente não vêm aqui, acho que têm medo.”

O centro econômico e financeiro de Johannesburgo é um dos maiores exemplos de como a África do Sul ainda está muito distante de se tornar a nação multirracial tão apregoada após o fim do apartheid. É simplesmente impossível encontrar uma única pessoa branca andando nas ruas. Elas estão apenas dentro de carros fechados ou nas garagens dos edifícios onde trabalham. O centro da maior e mais importante cidade da África do Sul é puramente negro.

Situação oposta vive o requintado bairro de Sandton, onde a maior parte dos poucos turistas que já desembarcam no país se reúne. Ali, a maioria das pessoas nas ruas é branca. Não há mulatos ou mestiços. Negros de classe média, que hoje somam algo em torno de 15% da população de quase 50 milhões de habitantes, também frequentam a região.

O ponto central de Sandton é a praça Nelson Mandela, uma área aberta dentro de um grande shopping center que mantém uma estranha estátua do líder sul-africano. No local, a Copa do Mundo já começou para os comerciantes. Patience Mpofu, gerente de um dos muitos restaurantes que circundam a praça, é só alegria nesses dias.

“Estamos atendendo como nunca, nosso faturamento deve duplicar em junho”, diz ela, que já contratou dez funcionários e está à procura de outros tantos para iniciar o trabalho nos próximos dias. Seus principais clientes são representantes da Fifa, torcedores e integrantes da classe média sul-africana que vão até Sandton ver o burburinho do Mundial. “Esse será um momento especial para nós, ganharemos muito dinheiro”, diz ela. Exatos 20 anos após o fim do apartheid, as benesses na África do Sul ainda são para poucos.

 

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