NEGÓCIOS
Nº edição: 662 | Negócios | 11.JUN.10 - 21:00
Um CEO sob fogo cruzado
Com muita diplomacia, o presidente da Vivo, Roberto Lima, enfrenta a disputa entre a Portugal Telecom e a Telefônica pelo controle da empresa. E, ao mesmo tempo, anuncia investimentos bilionários
Por Ralphe Manzoni Jr.
Ouça um resumo da reportagem "Um CEO sob fogo cruzado"
Cena 1. No final da noite da quinta-feira 10, a Portugal Telecom (PT), que briga com a Telefônica pelo controle da operadora celular brasileira Vivo, emitiu um comunicado aos seus acionistas. Nele, recomendava a eles que não aceitassem a nova oferta de 6,5 bilhões de euros na assembleia que acontece no dia 30 de junho.

Roberto Lima, da Vivo: "A vida está normal. Nosso foco tem sido cuidar da atividade operacional"
O documento, no entanto, era uma peça de defesa contra todas as intimidações dos espanhóis ao longo dessa disputa. Com argumentos jurídicos, o texto sustentava que os portugueses não poderiam ser excluídos da Brasicel, a holding que controla a Vivo, e que os espanhóis não têm condições de bloquear os dividendos da empresa de telefonia.
Cena 2. Poucas horas antes, o presidente da Vivo, Roberto Lima, anuncia a ampliação da cobertura de tecnologia 3G para levar banda larga móvel para 2.832 municípios no Brasil até o final de 2011. Isso significa atender 85% da população do País. Hoje, a empresa de telefonia está presente em 600 cidades com a banda larga móvel.
A Claro, principal concorrente, em pouco mais de 400 municípios. A estratégia responde a uma provocação do governo federal, que alega falta de interesse das empresas de telefonia em investir em áreas remotas. No plano da Vivo, Borá (SP), a menor cidade do Brasil com 837 habitantes, Codó (MA) e Bujari (AC) serão cobertas com a tecnologia. “A empresa não irá concentrar os investimentos nas áreas que proporcionam mais rapidamente retorno financeiro. Em outras palavras, a lógica está sendo invertida”, afirmou Lima.
O investimento, que foi aprovado duas semanas antes pelo conselho de administração da Vivo, que conta com representantes da Portugal Telecom e da Telefônica, é um sinal da operadora móvel para o mercado de que não está parada esperando o desfecho da briga dos acionistas. “A vida está normal”, declarou o executivo, na ocasião.

“Nosso envolvimento na disputa não é tão grande. Nosso foco tem sido cuidar da atividade operacional e temos feito o possível para que isso (o conflito societário) não nos disperse.” Essa é a rotina de Lima desde 10 de maio, quando a Telefônica fez a primeira oferta de 5,7 bilhões de euros pelo controle da Vivo e abriu uma disputa – muitas vezes pouco cordial e de ofensas mútuas – com a Portugal Telecom. Ser cuidadoso faz parte da regra. As respostas às perguntas sobre o embate entre os dois acionistas são sempre diplomáticas.
“Os portugueses e os espanhóis são pessoas de uma competência muito grande”, declarou ele à DINHEIRO, após o anúncio dos planos com a tecnologia 3G. “A Portugal Telecom é muito forte na parte de tecnologia e desenvolvimento de produtos”, acrescentou. E logo emendou. “E a Telefônica tem experiência em negociação de novos fornecedores e compra em grande volume. É o melhor dos dois mundos. Vamos ver como isso vai evoluir. Piorar não vai.”
Quando assumiu a Vivo, em junho de 2005, Lima encontrou uma empresa dividida entre espanhóis e portugueses, que lotearam os cargos do alto escalão da companhia. Hoje, a maioria dos dirigentes é de brasileiros. Há atualmente apenas um português e um espanhol em cargos de direção.
O próprio Lima foi o primeiro brasileiro a assumir a operação da companhia, substituindo o português Francisco Padilha. Em 2006, seu primeiro ano completo à frente da Vivo, o lucro líquido foi de R$ 16,3 milhões. No ano passado, atingiu R$ 858 milhões. A receita líquida da Vivo, em 2009, foi maior do que a da Telefônica no Brasil.
A participação de mercado, que caía lentamente mês a mês, estancou. E, por sete meses consecutivos, a Vivo ganhou mais clientes do que perdeu, consolidando-se na liderança do mercado brasileiro de telefonia celular. É por isso que os espanhóis, na nova oferta feita à PT, deixaram claro que não vão alterar a direção da empresa.
Analistas avaliam que, caso ocorra a aquisição, é a Vivo quem vai comandar a nova operação. Mesmo assim, Lima prefere manter a diplomacia. “Não estamos sofrendo nenhum impacto das negociações que se passam entre os acionistas porque a intenção é de comprar e não de vender. Criamos um ativo de muito valor.”
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