NEGÓCIOS
Nº edição: 661 | Especial | 03.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 13.06 - 16:32
O desembarque das marcas brasileiras
Para aproveitar o embalo da Copa do Mundo, grupos originários do Brasil investem em fábricas e no lançamento de produtos na África do Sul
Por Amauri Segalla
A escolha da África do Sul para sediar a Copa de 2010 não alterou apenas o mapa do futebol. Pouco depois do anúncio de que a maior competição esportiva do planeta seria pela primeira vez no continente africano, muitas empresas brasileiras começaram a se mexer para expandir seus negócios na região.

Os investimentos não ficaram concentrados em alguns poucos setores. Como em muitos aspectos a economia da África do Sul lembra a própria economia brasileira (aumento da renda em todas as faixas sociais, moeda estável, classe média ascendente), não foi difícil para grupos originários no Brasil fazerem sucesso por lá.
“A Copa foi apenas o pretexto que precisávamos para buscar bons negócios naquela parte do mundo”, afirma Paulo Andrade, diretor comercial para o mercado internacional da Marcopolo, uma das maiores fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo.
A gaúcha Marcopolo está presente na África do Sul desde a década de 90, quando começou a exportar ônibus produzidos no Brasil. No ano 2000, em razão do crescimento verificado em muitos países africanos, a empresa achou que era o momento de estabelecer uma base na região.

Aposta: Em 2009, a Vale investiu US$ 81 milhões para se associar à sul-africana African Rainbow Minerals
Foi aí que decidiu abrir uma unidade industrial em Johannesburgo, cidade que concentra os investimentos econômicos feitos no País. “Quando a África do Sul foi anunciada como sede da Copa, ficou evidente que haveria mais oportunidades por lá”, diz Andrade. A estratégia de apostar há bastante tempo na região revelou-se acertada.
Como já estava inserida no mercado local, a empresa brasileira acabou por vencer a cobiçada concorrência para fornecer os ônibus que a Fifa vai usar para transportar delegações e convidados VIPs durante o Mundial. Serão 460 veículos, num negócio avaliado em R$ 70 milhões. O interessante – e o que provavelmente pesou a favor da companhia gaúcha – é que os ônibus são montados na própria Johannesburgo. A Marcopolo também venceu a concorrência para fornecer os 143 ônibus articulados que vão trafegar pelo sistema de corredores de transporte coletivo da cidade, os chamados BRT (Bus Rapid Transit).

Sofisticada: Desfile da Carmen Steffens na África do Sul, marca do interior de São Paulo conquistou classe média local
O campeonato de futebol e a consequente visibilidade que o evento desperta foi o que levaram a grife paulista de sapatos Carmen Steffens a abrir uma franquia também em Johannesburgo. “Inauguramos a loja há exatos oito meses, para aproveitar o boom que a Copa provocaria na África do Sul”, afirma Gabriel Spaniol, diretor de expansão da empresa. Detalhe: Spaniol esperava que a loja fizesse sucesso principalmente junto aos estrangeiros, que aumentaram sua presença no país.
Foi um engano. “As consumidoras africanas de classe média tornaram nossa loja uma das mais rentáveis do mundo”, diz o executivo da marca, que está presente em 13 países. Para abrir uma franquia da grife de sapatos (cujos pares custam em torno de US$ 300), é preciso desembolsar infantil e de analfabetismo não condizem com um país que tem a ambição de se tornar um protagonista mundial. No mundo dos negócios, é como se fosse uma nação aberta a todo o tipo de oportunidades.
“O potencial do mercado africano é enorme”, diz Luiz Alfredo de Oliveira, diretor-regional na África do Sul da BRF Brasil Foods. “O consumo de proteínas naquela região é muito baixo e a renda per capita vem crescendo.” Há muito tempo, a Sadia exporta seus produtos para o país, mas só agora é que a corporação finca o pé de verdade.

Em julho, a empresa, nascida da união entre Sadia e Perdigão, vai abrir em Johannesburgo sua primeira representação. Segundo a Brasil Foods, trata-se do 16º escritório internacional do grupo. A favor da empresa, está o fato de os sul-africanos verem com simpatia os produtos brasileiros. A mesma impressão é confirmada pelo executivo da fabricante de sapatos Carmen Steffens. “Quando uma cliente descobre que aquele produto é originário do Brasil, o seu nível de interesse aumenta incrivelmente”, diz Spaniol, diretor da companhia.
Durante muitos anos, os investimentos do Brasil na região estiveram restritos à área de mineração. Segundo os últimos dados disponíveis, a indústria da mineração responde por um terço do Produto Interno Produto da África do Sul. Não à toa, a Vale possui em Johannesburgo um escritório de pesquisa mineral.
Em 2009, a empresa brasileira se tornou sócia da sul-africana African Rainbow Minerals, num negócio de US$ 81 milhões. O objetivo da parceria é explorar cobre em países vizinhos. No momento, a Vale está em busca de novos parceiros locais para prospectar oportunidades na região. Mesmo se o Brasil não ganhar a Copa, as empresas do País terão marcado muitos gols.
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