ECONOMIA
Nº edição: 661 | Economia | 03.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 22.05 - 17:22
O preço da insensatez
O ataque de Israel a uma embarcação humanitária causou muito mais do que um vexame diplomático. Além de comprometer sua imagem internacional, o país atirou contra sua própria economia
Por Hugo Cilo
Em termos estritamente militares, um incidente que causa nove mortes é considerado menor. Mas o dano causado pela desastrada ação da Marinha israelense, que, na segunda-feira 31, atacou uma embarcação humanitária que levava mantimentos à população da Faixa de Gaza é incalculável – talvez o maior sofrido por Israel nas últimas décadas. Cerca de US$ 20 bilhões em projetos de energia, agricultura e saneamento, que seriam feitos em parceria com a Turquia, país de origem da maioria das vítimas, foram suspensos.

Segunda-feira 31: um navio da Marinha israelense ataca barco turco com ajuda humanitária a Gaza e mata nove pessoas
Em poucas horas, 50 mil turistas de Israel cancelaram viagens com receio da hostilidade internacional. Israel e Turquia, que mantêm desde o ano 2000 um tratado de livre comércio e que movimentaram US$ 2,5 bilhões no ano passado, romperam a cooperação militar e quebraram acordos de troca comercial.
Na Europa, coalhada de protestos em defesa da causa Palestina, movimentos sociais estimulavam o boicote a mercadorias produzidas em Israel, ao mesmo tempo que a maioria das nações anunciava repúdio à ofensiva que destruiu um navio carregado com dez toneladas de alimentos, brinquedos e materiais de construção – exatamente para reparar cerca de 50 mil casas destruídas pelas forças de Israel há dois anos, numa ação que matou mais de mil pessoas.

Manifestações contra Israel foram realizadas em todo o mundo.
“Os prejuízos diplomáticos são tão grandes quanto as perdas comerciais”, diz Fernando Campos de Mello, especialista em relações internacionais da Fundação de Sociologia e Política de São Paulo. Se isso não bastasse, Israel também saiu derrotado em sua causa. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu que o bloqueio imposto ao 1,5 milhão de palestinos que vivem na Faixa de Gaza seja suspenso imediatamente.
Em todo o mundo ocorreram manifestações contra Israel. No centro de Nova York, na tarde da terça-feira 1º, até mesmo 300 judeus americanos erguiam faixas e condenavam as ações do Exército israelense. A Turquia, que hoje é o principal parceiro de Israel na região, convocou seu embaixador e ameaçou expulsar diplomatas israelenses do país – o primeiro-ministro Recip Erdogan classificou a ação como “terrorismo de Estado”. No Egito, o único acesso por terra a Gaza, fechado desde 2007, foi reaberto em provocação ao comando sionista.

Nos EUA, judeus fizeram passeata pró-Palestina e a ONU pediu o fim do bloqueio a Gaza
O resultado da desastrada ação militar, considerada por muitos um massacre, isolou ainda mais a única democracia do Oriente Médio e arranhou a reputação do Exército israelense, conhecidamente um dos melhores e mais preparados do mundo. No ano passado, as Forças Armadas tiveram orçamento de US$ 14,7 bilhões, 7,3% do PIB do país – percentualmente o sexto maior do mundo.
Mais do que um problema diplomático ou um abalo econômico, a demora em reconhecer o erro pode gerar um dano irreparável à imagem de Israel, inclusive dividindo a comunidade judaica em todo o mundo. “Os movimentos sociais de boicote a mercadorias made in Israel já começaram. Em algumas partes, os judeus estão com medo. O país está mais isolado, principalmente pelos governos europeus”, garante Gunther Rudzit, coordenador de relações internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).
No caso do Brasil, o intercâmbio comercial com os israelenses ainda é modesto, embora desde o ano passado esteja aprovado um acordo de livre comércio entre o Mercosul e Israel. A troca entre os dois países saltou de US$ 440 milhões, em 2002, para US$ 1,6 bilhão, no ano passado. E seja pela questão comercial, seja pela diplomática, ter a opinião pública internacional contrária a Israel não é um bom negócio para eles. Dias antes do ataque ao navio turco, o mundo discutia as questões de enriquecimento de urânio envolvendo o Irã. Desde a ofensiva, poucos se lembram da novela nuclear de Teerã.
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Ricardo
em 04/06/2010 18:59:53
A situação dos Palestinos vivendo confinados em gaza, pelo cerco do exército israelense, me faz lembrar os guetos criados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, para confinar justamente os judeus. É preciso que essa vergonha cesse. Mas não devemos esquecer do Irã e de seu programa nuclear
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