FINANÇAS
Nº edição: 661 | Finanças | 03.JUN.10 - 21:00 | Atualizado em 02.04 - 15:33
Gigante adormecido?
Depois de perder 30% do mercado de resseguros com o fim do monopólio, o IRB reage para continuar na liderança
Por Márcio Kroehn
Ouça um resumo da reportagem sobre resseguros
Quem vê a Petrobras de hoje não diz que a empresa perdeu, há 13 anos, o monopólio na exploração do petróleo no Brasil. Seu domínio do mercado simplesmente não foi abalado. O mesmo não se pode dizer do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB-Brasil Re). Em 2008, depois de 70 anos de exclusividade no repasse dos grandes riscos das seguradoras locais, o IRB perdeu esse privilégio e a concorrência deitou e rolou em seu território.
Bastou abrir o mercado para que 70 resseguradoras se instalassem no País. Apenas cinco delas – Ace, J.Malucelli, Mapfre, Munich e XL – abocanharam mais de 30% do resseguro nacional. Isso significa uma montanha de R$ 1,3 bilhão em prêmios, cifra equivalente a 40% das receitas do IRB em 2008. O gigante adormeceu.

"O IRB não se preparou completamente para a abertura do mercado"
Leonardo Paixão, presidente do IRB
Acordá-lo antes que seja tarde demais é a missão do novo presidente do IRB, Leonardo Paixão. Servidor público de carreira, Paixão presidia o conselho de administração do IRB e, no início de maio, assumiu a direção executiva em substituição ao economista Eduardo Nakao. A ordem é dar mais agilidade e competitividade à resseguradora. “O IRB não se preparou completamente para a abertura do mercado de resseguro”, afirma Paixão.
Os números não mentem. Em março, de um total de R$ 4,3 bilhões em prêmios, o IRB ficou com 68,3%. Desde o final do ano passado, a perda de participação é de dez pontos percentuais (gráfico ao lado). Enquanto o mercado como um todo cresceu mais de 15% em 2009, as receitas do IRB caíram 9%, para R$ 2,09 bilhões.
O novo presidente relativiza a situação e diz que a operação está mais conservadora. “Não perdemos mercado. No tempo do monopólio, aceitávamos até o que não era interessante. Agora, estamos mais seletivos com o risco que aceitamos”, afirma o executivo. Pode ser. Mas isso não significa falta de apetite. “O lugar que nos cabe é ser o primeiro do País. E estarmos entre os dez maiores do mundo”, enfatiza Paixão. E como garantir isso?

No mercado interno, o IRB prepara-se para receber uma pitada de agressividade por parte de um sócio de peso: o Banco do Brasil. O maior banco do País está reestruturando sua área de seguros, em parceria com instituições privadas, e irá aumentar sua presença no IRB de 1% para 25% a 30% do capital. Seus dois maiores concorrentes privados têm cerca de 20% do IRB cada um. “Faz todo o sentido para o BB juntar forças com grandes bancos como o Bradesco e o Itaú Unibanco”, diz Paixão.
“O BB vai comprar uma parte do IRB e acelerar os negócios de resseguros”, aposta Luiz Roberto Castiglione, presidente da Pottencial Seguradora. Nesse processo de reestruturação societária, o governo vai reduzir sua participação de 50% para 49% e os sócios privados terão, pela primeira vez, 51% do capital, o que deve tirar do cenário as habituais amarras do setor público e dar mais competitividade à empresa na disputa com as multinacionais.
Negócios não faltam. As grandes obras de infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 passam, obrigatoriamente, pelo resseguro. Atualmente, o mercado de seguros é concentrado em apólices de pequeno valor, como automóvel e vida, e as seguradoras repassam apenas 5% dos riscos para as resseguradoras.
O IRB também deve buscar mercado no Exterior. América Latina e África serão as duas primeiras rotas que a equipe de Paixão atacará a partir de 2011. É um caminho que a concorrência também está de olho. “O Brasil está criando sua própria indústria de resseguros e vai assumir, em breve, um lugar de destaque no cenário mundial”, diz Alexandre Malucelli, da J.Malucelli Re. Alguém duvida?
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