MERCADO DIGITAL
Nº edição: 660 | Capa | 28.MAI.10 - 21:00 | Atualizado em 17.06 - 13:50
Como a Telefônica vai desfazer esse nó
A empresa espanhola precisa desesperadamente de uma operação na telefonia móvel e se dispõe a pagar um caminhão de dinheiro pela Vivo - se não conseguir, ficará para trás no mercado brasileiro
Por Leonardo Attuch e Ralphe Manzoni Jr.
No dia 7 de junho de 1494, os reinos de Portugal e Espanha assinaram, no pequeno povoado de Tordesilhas, um acordo para dividir as terras “descobertas e por descobrir” de ambas as coroas. Depois disso, os monarcas das potências ibéricas se estranharam em diversas oportunidades, tendo quase sempre como pano de fundo a questão das fronteiras.

No mundo empresarial, um outro tratado de Tordesilhas foi assinado em 2001, quando a espanhola Telefônica e a Portugal Telecom (PT) constituíram, na Holanda, a empresa Brasilcel. Cada uma aportou 50% do capital e, pouco tempo depois, esta companhia uniu 20 operações móveis no Brasil para criar a Vivo, hoje a maior operadora de telefonia celular do País.
Na semana passada, porém, a guerra entre as duas coroas estava declarada, como se a cavalaria espanhola, liderada pelo general Cesar Alierta, CEO da Telefônica, tivesse invadido o reino de Portugal e Algarve. Alierta fez uma oferta de € 5,7 bilhões pela Vivo. Dias depois, o mercado já especulava que o valor seria ampliado para € 8 bilhões, pegando os portugueses de surpresa.
Os espanhóis ofereceram um prêmio tão alto que levou as ações da Vivo a uma alta superior a 110% em poucos dias. E enviaram tropas para Nova York para tentar convencer grandes acionistas da Portugal Telecom a aceitá-la – na quarta-feira 26, Santiago Valbuena, diretor financeiro da Telefônica, apresentou a proposta de aquisição a executivos da BlackRock, um dos maiores sócios da PT. Valbuena também afirmou que a Vivo poderá cortar sua política de dividendos, caso os portugueses rejeitem a venda. Fez mais: ameaçou lançar uma oferta hostil para adquirir a própria Portugal Telecom.

A oferta feita por Cesar Alierta, CEO da Telefônica, paga um prêmio de 140% sobre as ações da Vivo.
O presidente no Brasil, Antônio Carlos Valente, calcula ganho de E 2,8 bilhões com as sinergias
“É uma chantagem”, esbravejou Zeinal Bava, presidente executivo da PT à DINHEIRO, de Nova York, enquanto embarcava para Londres, também numa peregrinação para convencer os acionistas de que a proposta dos espanhóis subestima o valor da operadora brasileira. “Vários bancos de investimento têm considerado que a oferta da Telefônica é oportunista e que serve apenas aos interesses deles e não aos dos acionistas da PT”, disse Bava.
O caso Vivo, na verdade, expõe muito mais do que uma guerra entre dois reinados. É, antes de tudo, um retrato da grande transformação em curso no setor de telecomunicações, na qual, curiosamente, a empresa que tem mais dinheiro, a Telefônica, é também a mais vulnerável. A companhia está amarrada à telefonia fixa, apesar de ter ações, mas não o controle, de duas operadoras móveis no País – além da Vivo, os espanhóis possuem uma participação indireta na TIM, por meio da Telecom Italia.
“Haverá, no Brasil, uma rápida migração das receitas da telefonia fixa para a telefonia móvel”, prevê Robin Bienenstock, analista da empresa Bernstein Research, sediada em Londres. E ele aponta a Telefônica como a empresa que deverá perder mais territórios nessa guerra.

Hoje, a operadora espanhola, que tem a concessão da telefonia fixa no Estado de São Paulo, se encontra numa encruzilhada. Além de uma grave recessão na Espanha, ela enfrenta no Brasil a competição crescente das empresas de celular e o avanço de companhias como a Embratel e a GVT, recentemente adquirida pelo grupo francês Vivendi. Todos os movimentos que fez para barrar a ofensiva dos concorrentes ou adquirir uma companhia de telefonia móvel foram frustrados.
Seus rivais, ao contrário, estão sendo mais ágeis. Na semana passada, especulou-se que o bilionário mexicano Carlos Slim, dono da América Móvil, poderia unir as operações da Embratel, forte em telefonia fixa e ligações de longa distância, com a Claro, segunda colocada em celulares. A supertele nacional, fruto da fusão entre Oi e Brasil Telecom, já nasceu sob esse modelo. “A Telefônica precisa resolver com urgência esse problema de não ter uma operação fixa e móvel integrada no Brasil”, avalia o consultor Eduardo Tude, especializado no mercado de telecomunicações.


O fato é que os espanhóis hoje pilotam uma nau bem menos veloz do que a dos concorrentes. De 2001 a 2009, o número de assinantes de aparelhos móveis cresceu incríveis 506% no Brasil. No mesmo período, a telefonia fixa ficou praticamente estagnada, com expansão de apenas 9,6%. Mesmo em países emergentes, como China e Índia, a população está trocando os telefones fixos por celulares. É uma lenta e irreversível agonia.
A única forma de desatar esse nó é seguir uma tendência mundial: as operações bem-sucedidas de telecomunicações serão aquelas que unirem a telefonia fixa, celular, banda larga e tevê por assinatura debaixo do mesmo grupo. Assim, as empresas podem oferecer pacotes completos aos clientes – os chamados combinados. A Telefônica possui três desses braços: a fixa, a banda larga (com o Speedy) e a tevê por assinatura (leia-se TVA).
Falta justamente a operação de telefonia móvel. Por isso mesmo, a Telefônica anunciou que teria ganhos econômicos de 2,8 bilhões, se conseguisse integrar sua operação com a da Vivo. De acordo com Antônio Carlos Valente, presidente da Telefônica, a proposta dos espanhóis é a que mais cria valor para a Vivo.

"Portugal tem interesse estratégico em ter operação relevante no Brasil"
José Sócrates: premiê português, que busca o apoio de Lula
Mas outro entrave para as pretensões da Telefônica é a própria posição da Portugal Telecom. Para a operadora portuguesa, manter a Vivo é uma questão de sobrevivência. Sem uma participação forte no Brasil, ela amputaria suas possibilidades de crescimento – o que é verdade, pois a Vivo já vale mais do que a própria Portugal Telecom. “A presença na Vivo é fundamental em longo prazo para a Portugal Telecom”, confirma Bava.
A dificuldade adicional dos espanhóis deve-se ao fato de que, no mercado de telecomunicações, nem sempre o dinheiro fala mais alto. É um setor amplamente sensível às questões políticas e às pressões nacionalistas. No ano passado, a Telefônica negociou a aquisição da Telecom Italia, mas enfrentou a resistência do governo de Silvio Berlusconi, que não via com bons olhos a presença dos espanhóis no controle da tele.

"Vários bancos têm considerado a oferta da Telefônica oportunista e que não serve aos interesses dos acionistas da PT"
Zeinal Bava, presidente executivo da PT
Agora, é a vez de os políticos portugueses se oporem à venda. “Portugal tem um interesse estratégico em ter um grupo de telecomunicações grande, não só em Portugal, mas também em outros países”, disse o primeiro-ministro socialista, José Sócrates. Ele também ameaçou usar as ações do governo português na companhia, que lhe dão direito a veto, como forma de evitar uma oferta hostil da Telefônica.
“Golden shares existem para serem utilizadas”, afirmou, na semana passada, em São Paulo. Até o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, com quem Sócrates se encontrou, se pronunciou a favor da PT e disse que a Vivo fará uma grande rede de banda larga móvel para que a “internet não seja privilégio só de ricos.”
Isso não significa, no entanto, que o jogo já esteja decidido. Mais da metade dos acionistas da Portugal Telecom são estrangeiros – e não dão a mínima importância para os supostos interesses estratégicos lusitanos. Num momento de volatilidade nos mercados acionários, seria mais do que tentador vender um ativo com ágio de 140% sobre o valor atual em bolsa. E a tendência é que esses sócios pressionem a direção da PT a, pelo menos, analisar a proposta.

Entretanto, os grupos que fazem parte do bloco de controle, como Banco Espírito Santo, Caixa Geral de Depósitos e Ongoing, devem fechar com a posição do governo português de jamais vender a operação brasileira. De acordo com o analista Luigi Minerva, do banco HSBC, a Vivo talvez seja um ativo inegociável, para o qual não existe um preço, muito embora a operação faça sentido do ponto de vista financeiro. “Os acionistas da PT dificilmente poderiam extrair mais valor da operação em si da Vivo”, disse ele, num relatório distribuído ao mercado.
Há, no entanto, uma alternativa para a Portugal Telecom. Seria vender a Vivo e continuar apostando no Brasil, mas em outra empresa. Neste caso, a opção seria a Oi. “Faria todo o sentido”, disse à DINHEIRO o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa, que deixou o governo para se candidatar ao governo de Minas Gerais.
Ele lembra que, dois anos atrás, quando houve a fusão entre Oi e Brasil Telecom, a Portugal Telecom demonstrou grande interesse em participar do negócio. “Seria bom até para a internacionalização da Oi”, completou Costa, que sempre defendeu a criação de uma plataforma “luso-brasileira” de telecomunicações. A dificuldade seria encontrar um arranjo societário acomodando os interesses dos diversos sócios, como os fundos de pensão, o BNDES e os acionistas privados, como a Andrade Gutierrez e o grupo La Fonte.
Seja qual for o desfecho, a briga entre espanhóis e portugueses pelo controle da Vivo revela o peso estratégico do Brasil no mundo de hoje. Em 2006, o empresário Belmiro Azevedo, dono do grupo Sonae e um dos homens mais ricos da Europa, havia feito uma oferta hostil pela PT. Azevedo dizia que a companhia era mal administrada.
Antes mesmo de comprá-la, o que ele não conseguiu sacramentar, Azevedo prometia vender a Vivo, argumentando que o Brasil seria a principal fonte de problemas da operadora. Até mesmo o valor, de E 1,5 bilhão, quase 80% abaixo do atual, foi fixado. À época, desconfiava-se de que, por trás de Azevedo, estava a própria Telefônica.
Zeinal Bava tomou um avião para a Cidade do México e teve um encontro reservado com o bilionário mexicano Carlos Slim. “Eu preciso que você me ajude a te ajudar”, disse ele a Slim. Poucos dias depois, a Telmex adquiriu 5% das ações de controle e votou contra a oferta feita pelo grupo Sonae. Quatro anos depois, é possível que os portugueses voltem a bater à porta de Slim para barrar o avanço da armada espanhola.
Enquanto isso, no México...
A integração entre operações fixas e móveis também ocorre em outros países. Recentemente, no México, a América Móvil, maior empresa de telefonia móvel, passou a controlar a Telmex, que opera em telefonia fixa e de longa distância. Ambas as companhias são controladas pelo empresário Carlos Slim.

Carlos Slim: o bilionário negou mudanças na gestão da Claro e da Embratel
Isso gerou rumores, no Brasil, de que as operações da Embratel e da Claro, também controladas pelo bilionário mexicano, estariam seguindo caminho semelhante. Um comunicado da América Móvil negou a informação e garantiu que as operações continuam independentes. Segundo a nota, João Cox fica no comando da Claro e José Formoso, no da Embratel. O movimento verificado no México não deve ocorrer no Brasil – ao menos no curto prazo.
Slim também possui participação na operadora de tevê a cabo NET, que recentemente ultrapassou a Telefônica em acessos de banda larga. O mexicano não esconde o interesse em adquirir o controle da NET, mas, para isso, depende da aprovação de um projeto em tramitação na Câmara dos Deputados, o PL 29, que permitiria a presença de estrangeiros no bloco de controle de empresas de tevê a cabo. Com a aprovação dessa nova legislação, a Telefônica também poderia assumir de vez o controle da TVA, da qual é sócia.
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santo
em 30/05/2010 10:26:11
sou ex assinate da telefonica.depois de analisar a oferta do concorrente tomei a decisao estou satisfeito com a prestaçao de serviço quando solicitado alem de finaceiramente ter sido vantajoso.
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Marco Antonio
em 29/05/2010 21:02:50
Não tem jeito mesmo: somos e pelo andar seremos os mesmos gerados de enormes lucros para as multinacionais, as mesmas empresas que prestam um serviço porco e cobram o olho da cara. Como aceitar a Telefónica com R$2 Bi de lucro? Somos simples geradores de bem-estar do 1o. Mundo. Ponto!
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Carlos Mundim
em 29/05/2010 20:47:57
Em pleno século 21 nós brasileiros ainda somos uma colonia dos ibéricos e do mexicano. Por alguns centavos passaram o controle de um dos pontos mais vitais para o desenvolvimento do nosso país para as mãos de estrangeiros incompetentes e que nos cobram as mais altas tarifas do mundo.
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Carlos Mundim
em 29/05/2010 20:20:37
A única forma de recuperarmos o controle desta soberania perdida na área de telecomunicações será fortalecendo a Oi e revivendo a Telebrás em um novo modelo de atuação de mercado. Uma empresa sendo gerida como são atualmente a Petrobrás e Vale, competência antes de apadrinhamento.
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Carlos Mundim
em 29/05/2010 20:19:28
O avanço nas telecomunicações favorece uma nova Telebrás. E para quem reclama dos serviços que eram prestados antes das privatizações, vale a pena lembrar que na era digital não tem como ser mais incompetente do que a VIVO, Telefônica, TIM, Oi, Claro e Embratel. Pagamos muito por muito pouco.
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