ECONOMIA
Nº edição: 660 | Economia | 28.MAI.10 - 21:00
Bem-me-quer, malmequer
Dominique Strauss-Khan, diretor do FMI, visita o País e constata realidades opostas: o Brasil muito bem e a Europa diante do abismo
Por Hugo Cilo
A rotina se repetiu durante décadas. Todas as vezes que missões do Fundo Monetário Internacional vinham ao Brasil, traziam no bolso do paletó uma extensa lista de mandamentos ao governo brasileiro. Isso pode, aquilo não pode. A receita parecia estar sempre pronta. E o governo, à espera de empréstimos, imediatamente obedecia. Mas essa litúrgica rotina foi rompida na semana passada, e os papéis até se inverteram.
O diretor-geral da instituição, o francês Dominique Strauss-Khan, desembarcou em São Paulo de bolso vazio. Estava mais disposto a aprender do que a ensinar. Ouviu sugestões do ministro Guido Mantega – que propôs a criação de um PAC europeu e cobrou maior participação dos emergentes no Fundo –, fez elogios ao País, projetou crescimento de 7% para o PIB neste ano e disse que os fundamentos da economia deveriam servir de inspiração para a recuperação dos países europeus.

Bombeiro do FMI: Strauss-Khan visitou o País na semana passada mais para aprender
do que para ensinar, ao contrário das missões anteriores do Fundo Monetário Internacional
“Problemas? Hoje, o Brasil não tem problemas”, afirmou, sorrindo, Strauss-Khan, que acabara de voltar da Europa, o epicentro da atual crise mundial. Antes de deixar o País, ele assinou um acordo para a criação um centro conjunto de treinamento de funcionários dos governos da América Latina.
Strauss-Khan, um crítico histórico das políticas fiscais dos emergentes, não mudou de opinião por acaso. O total da dívida pública brasileira está em R$ 1,37 trilhão, o que representa 42,2% do PIB. O valor está muito distante dos rombos da Grécia, Espanha ou Portugal. Nos três países, ela supera 100% do PIB. “A dívida pública no Brasil precisa ser controlada, sim, mas não deve ser considerada a maior inimiga da economia”, justificou Strauss-Khan. “A capacidade do Brasil em equilibrar suas contas é maior do que a de vários países da Europa.”
A diferença entre o que ocorre na Europa e o que acontece no País também está na origem do aumento do déficit. Nas economias europeias, o estrago nas finanças públicas emerge do desequilíbrio entre a arrecadação em queda e o gasto com o custeio em alta da máquina estatal e assistência social. No caso brasileiro, parte do déficit neste ano se explica pelas operações chamadas de “empréstimos” do Tesouro ao BNDES, por meio da emissão de títulos públicos.
“Os emergentes Brasil, Rússia, Índia e China, os Bric, têm mostrado boa capacidade de administrar suas dívidas. São bons exemplos”, destacou Strauss-Khan. O esforço do Banco Central no controle da inflação é outro indicador que reforça as boas perspectivas para o Brasil, segundo o presidente do FMI. “Mesmo que exista um descontrole temporário, há mecanismos para evitar uma disparada dos preços.”
Para Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, as declarações de Strauss-Khan fazem todo o sentido, mas as boas perspectivas para a economia brasileira dependerão dos desdobramentos da crise europeia. “Não existe prosperidade perene. O que mais me preocupa é que, desta vez, a crise está no centro, não mais na periferia”, disse Fraga. De todo o modo, o Brasil, que ele aponta como um país periférico, até agora escapou ileso.
Mesmo que a boa fase dos emergentes não signifique uma solução para a nova ordem da economia mundial, a admiração de Strauss-Khan pela performance econômica brasileira pode render no futuro o fortalecimento das relações do País com a União Europeia. Nos bastidores da política francesa, seu nome é cotado para suceder Nicolas Sarkozy. E Strauss-Khan, conhecido como o bombeiro do FMI por apagar incêndios na economia global, desta vez levará do Brasil algo além de más notícias.
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