NEGÓCIOS

Nº edição: 660 | Negócios | 28.MAI.10 - 21:00

O espólio do Milênio

O sueco Stieg Larsson morreu antes de ver a trilogia Millennium se tornar um sucesso no mundo todo. Agora, sua família briga pela herança - até parece romance policial

Por Amauri Segalla

O sueco Stieg Larsson teve uma vida modesta. Jornalista, fundou a revista Expo, que tinha como mote editorial o combate a todos os tipos de intolerância. Apesar de desfrutar de certo prestígio no meio acadêmico, a publicação tinha poucos leitores e o dinheiro que Larsson ganhava mal dava para bancar o aluguel.

Por isso, boa parte das despesas da casa eram custeadas por sua mulher, a arquiteta Eva Gabrielsson. Depois do expediente, Larsson passava horas à frente do computador escrevendo um romance policial. No dia 9 de novembro de 2004, poucas semanas antes de o primeiro volume da trilogia Millennium chegar às livrarias, Larsson foi cedo para o trabalho.
 

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Disputa: como não tinha bens, Larsson não fez testamento, o que provocou toda a confusão

Ao entrar no prédio onde ficava a Expo, viu que o elevador estava quebrado. Ele pegou as escadas e, na subida, teve um enfarte fulminante. Larsson não teve tempo para saborear o sucesso. Menos de um ano após a sua morte, ele já era o escritor mais lido na Europa e, nos outros continentes, rivalizava com J.

K. Rowling, a autora de Harry Potter. Na semana passada, estreou no Brasil o filme Os homens que não amavam as mulheres, trama policial baseada no primeiro volume da trilogia. Os 28 milhões de exemplares que vendeu até agora (300 mil deles no Brasil) e a cessão dos direitos da série para o cinema renderam estimados US$ 100 milhões.

Agora, é essa fortuna que ameaça transformar a morte de Larsson numa saga parecida com a que foi descrita por ele em seus livros, cuja narrativa gira em torno da investigação do sumiço de uma herdeira. Detalhe: o herói da história é um jornalista que trabalha numa pequena revista.

Larsson viveu com Eva Gabrielsson durante 32 anos, mas a união jamais foi oficializada. Como ele era desprovido de bens, não se preocupou em fazer testamento (certamente, nem de longe imaginou que poderia ganhar rios de dinheiro com seus romances). O problema é que a lei sueca não reconhece uniões informais e Eva acabou negligenciada no processo que definiu o destino do espólio do escritor.

Os milhões obtidos com a venda de seus livros estão sendo repassados para o pai e para o irmão de Larsson, que se recusam a depositar um mísero centavo para Eva. Segundo amigos do escritor, que não teve filhos, ele era distante do pai e mantinha contatos ainda menos frequentes com o irmão.
 

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Global: cena do filme Os homens que não amavam as mulheres, baseado no primeiro livro da série e em cartaz em 40 países
 

Eva entrou na Justiça e o processo vem sendo debatido com paixão na Suécia. Nos blogs de fãs de Larsson, a torcida é pela mulher. Nos últimos dias, os advogados dos dois lados bateram boca nos jornais. “A lei está do nosso lado e não há nada que vá mudar isso”, diz o advogado dos herdeiros. “Eva não foi apenas uma companheira de três décadas, ela ajudou Larsson a escrever os livros”, rebate o defensor dela.

A história está muito longe de acabar. Eva pode não ter ficado com os milhões, mas ela possui algo que, na avaliação dos admiradores de Larsson, é ainda mais valioso: o laptop onde ele escrevia suas histórias e que contém uma suposta continuação de 200 páginas da série. No início do ano, o pai de Larsson ofereceu um apartamento pelo texto, prontamente recusado. Nos últimos dias, anunciou que pagaria US$ 2,5 milhões pelo computador e tudo o que está dentro dele. Eva não quis. Parece até um livro policial. E dos bons.


Eles também não fizeram sucesso em vida

O mundo das artes está repleto de personagens que só se tornaram célebres depois de mortos

Van Gogh

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Vincent van Gogh jamais soube o que é o sucesso.  Arruinado financeiramente e nem sequer reconhecido como artista, se matou aos 37 anos. Onze anos após sua morte, foi enfim identificado como gênio

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Rimbaud

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O poeta francês Arthur Rimbaud escreveu toda a sua obra dos 15 aos 19 anos. Depois, foi negociar especiarias na África. Morreu de um carcinoma aos 37 anos, pobre e solitário.
 


Kafka

 

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A maior parte dos livros do tcheco Franz Kafka foi publicada postumamente. Entre eles O Processo. Morreu aos 40 anos, de tuberculose, esquecido pelos críticos e pelo público.

 

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