ECONOMIA

Nº edição: 660 | Economia | 28.MAI.10 - 21:00 | Atualizado em 31.05 - 16:37

Homem de aço na indústria

Benjamin Steinbruch, dono da CSN, assume nesta semana o comando da Fiesp com um desafio: ser mais flexível e comprar brigas empresariais sem prejudicar seus próprios negócios

Por Hugo Cilo

Um dos homens mais ricos do Brasil, dono de uma fortuna estimada em quase R$ 4 bilhões, mudará de endereço na próxima terça-feira  1º. Benjamin Steinbruch, aos 56 anos, conciliará a administração da Companhia Siderúrgica Nacional, uma gigante com R$ 8,1 bilhões em caixa, com a presidência da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), uma entidade com orçamento anual de R$ 1,5 bilhão e que simboliza o poder industrial brasileiro. Ele se sentará na cadeira de Paulo Skaf, que deixa a pirâmide da avenida Paulista, em São Paulo, para concorrer ao governo do Estado.
 

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Steinbruch, sinônimo de aço no País, terá um duplo desafio à frente da Fiesp. Primeiro, o de compatibilizar sua agenda de empresário com a de representante de um setor que responde por 40% da produção nacional. Segundo, o de aprender a domar seus próprios impulsos de gestor inflexível, agressivo e pouco aberto ao diálogo, num ano marcado por eleições e pressões trabalhistas por redução da jornada. 

Ao que tudo indica, não será uma tarefa simples para Steinbruch. Nos últimos anos, ele comprou brigas memoráveis no tatame empresarial. Durante quase uma década, duelou com Roger Agnelli, presidente da Vale, em disputas por ativos importantes, como a mina Casa de Pedra, uma das mais valiosas do mundo.

Desafeto também de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical, Steinbruch há tempos tira o sono de líderes sindicais. “Todo empresário é complicado, mas o Benjamin é muito mais. Nesse momento de negociações, estamos preocupados com sua postura à frente da Fiesp. Espero que seja provisório”, disse Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT).
 

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Aprendizado político:Benjamin Steinbruch, que sucede Paulo Skaf, terá de
defender causas de interesse geral, sem criar atritos com o presidente Lula

 

Um ponto positivo para a Fiesp é o fato de, pela primeira vez em muitos anos, a entidade voltar a ser comandada por um capitão de indústria. Um homem à frente de uma grande empresa, reconhecida por todos. Seus antecessores, Paulo Skaf, Horácio Lafer Piva e Carlos Eduardo Moreira Ferreira, não tinham exatamente esse perfil. Eram ou executivos ou herdeiros.

Mas a posição mais forte de Steinbruch também cria eventuais conflitos de interesse. Skaf, que não representava uma grande companhia, mas falava por todos, podia defender bandeiras de interesse geral, como a extinção da CPMF, sem medo de se indispor com o Palácio do Planalto. Steinbruch, por sua vez, terá certa dificuldade em comprar brigas com o governo federal.

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Um dos seus principais projetos, a Ferrovia Transnordestina, terá cerca de R$ 6 bilhões do PAC. “Certamente, será um obstáculo ao presidente da CSN, no caso de um eventual confronto com o governo”, afirmou o consultor Tércio Álvares, especialista em siderurgia e mineração.

Steinbruch também terá de aprender a ser mais político. Embora ocupasse o cargo de vice-presidente da entidade, suas aparições nas reuniões eram raras. “Ele é muito reservado. Mesmo como vice da Fiesp, nunca o via na Fiesp”, comenta o vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos, José Velloso.

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Steinbruch, de fato, é discreto e raramente é visto em encontros sociais. “É um empresário ágil, frio e de poucas palavras”, diz o economista Ricardo Torres, professor da Brazilian Bussines School, que já participou de reuniões decisivas com Steinbruch, como diretor de um grande banco, na época em que ele arrematou a CSN no processo de privatização. “Seu sucesso empresarial vem exatamente da rigidez nos diálogos. Isso pode causar atritos na Fiesp. Afinal, o presidente de uma empresa precisa ser diferente do presidente de uma associação, que exige mais jogo de cintura.”

De todo modo, o estilo deu certo na CSN, que se tornou a maior siderúrgica das Américas em valor de mercado, segundo a consultoria Economática, ao atingir R$ 37,9 bilhões. O valor é superior aos R$ 30,1 bilhões da Usiminas e aos R$ 21,2 bilhões da Gerdau. A CSN fechou 2009 com caixa de US$ 8,1 bilhões.

No primeiro trimestre deste ano, a empresa aumentou o lucro em 31%, que atingiu R$ 482 milhões. O faturamento de R$ 1,3 bilhão entre janeiro e março foi 91% superior aos R$ 683 milhões no mesmo período de 2009. Na CSN, Steinbruch mantém 26,5 mil funcionários diretos, dez mil a mais do que terá na Fiesp.

E a estreia do empresário na presidência da federação pode indicar seus novos passos profissionais. Ao mesmo tempo que migra da CSN para a principal entidade industrial do País, ele prepara sua filha Victoria, de apenas 18 anos, para tomar o volante da CSN no futuro.

Para Paulo Skaf, todos os receios em torno de Steinbruch não têm se sustentam. “Ele é um leal companheiro com o qual tenho, há 35 anos, uma sólida amizade, um feliz convívio. Fico muito tranquilo ao deixar a Fiesp em suas mãos”, disse Skaf à DINHEIRO. E Steinbruch, em retribuição, acredita que vai surpreender muita gente ao chegar ao cargo máximo da Fiesp. Procurado pela reportagem, não quis falar. Segundo ele, o silêncio tem uma única razão: a de que muitos heróis morreram na véspera.
 


O que o PIB espera deles?

O setor industrial tem quatro mil projetos parados no Congresso – e a maioria pede redução de impostos e desoneração dos investimentos

Guilherme Queiroz

Pouca coisa mudou, nos últimos oito anos, no receituário oferecido pela indústria para consolidar de vez o crescimento. Medidas como redução de impostos, correção dos gargalos da infraestrutura e simplificação das leis trabalhistas compõem a fórmula para superar os velhos obstáculos. Mas algo de novo aguardava os três pré-candidatos à Presidência que tomavam seus lugares no palco da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), na terça-feira 25.

Diante de um auditório lotado por um naco importante do PIB brasileiro, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva ouviram, juntos, prognósticos e cobranças variados. “O Brasil pode e deve crescer mais. Nos últimos 30 anos, o ritmo de crescimento tem se mostrado abaixo das nossas necessidades e o Brasil tem uma chance de interromper seu ciclo de altos e baixos”, enfatizou Armando Monteiro Neto, presidente da CNI. Pelos discursos que se seguiram, os presidenciáveis entenderam o recado.
 

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Debate na CNI: os três candidatos foram ouvidos por grandes empresários na terça 25
 

As reivindicações do setor, reunidas no documento A indústria e o Brasil, foram enviadas aos presidenciáveis uma semana antes do evento. Sem o apoio do Executivo, avaliam os industriais, não há como avançar numa agenda que inclui quatro mil propostas em tramitação no Congresso, das quais 20 formam a pauta mínima do setor, mas que nada andou nos últimos anos. 

“Precisamos do apoio do Executivo. A vontade política do presidente da República é fundamental, especialmente de um presidente recém-eleito com alto capital político”, pondera Robson Andrade, presidente eleito da CNI.

Algumas soluções listadas na agenda industrial são de pronta execução. Dependem de um simples ato do Executivo, como a redução de alíquotas de impostos e desoneração de contribuições sobre investimentos. “Qualquer investimento no Brasil custa 25% a mais do que em outros países”, observou André Gerdau Johannpeter, diretor-presidente do comitê executivo do Grupo Gerdau.

Medidas pontuais como essas têm subido na lista de prioridades da indústria pela “fácil” execução, uma vez que tem sido infrutífero esperar a aprovação de reformas amplas no Congresso Nacional – como a tributária e a política, que se arrastam há anos. Nessa linha, José Serra propôs o fim da incidência de PIS/Cofins sobre investimentos em saneamento básico. “São mais de R$ 2 bilhões que ficariam livres para serem investidos”, disse.

Dilma ousou ao prometer tirar a reforma tributária do papel em 100 dias e taxou o sistema brasileiro de caótico. “O ato de arrecadar fica caríssimo”, avaliou. Para Marina, as dificuldades para aprovação das reformas seriam vencidas com a convocação de uma Constituinte exclusiva. “É a melhor maneira de eliminar todos os gargalos ao desenvolvimento”, disse ela.

 

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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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