FINANÇAS
Nº edição: 659 | Entrevista | 21.MAI.10 - 21:00 | Atualizado em 17.06 - 11:25
10 perguntas para Charles King
A crise tornou os conselhos de administração mais criteriosos, diz o americano Charles King, consultor de governança corporativa para clientes da Korn/Ferry International, empresa de recrutamento de executivos.
Por Juliana Schincariol
A grande exposição das companhias na crise global de 2008 e 2009 aumentou a procura por especialistas em risco, diz ele. “As pessoas ainda estão preocupadas e nervosas”, afirma. As empresas começam também a recrutar executivos experientes em políticas de remuneração. Não é à toa: nos Estados Unidos e na Europa, são muitas as críticas aos altos bônus pagos aos executivos, especialmente nas empresas socorridas pelos governos. Em passagem pelo Brasil na semana passada, o especialista conversou com a DINHEIRO.

DINHEIRO – A crise mudou a forma como as empresas lidavam com a governança?
CHARLES KING – Em parte, sim. Deixou-as ainda mais atentas. Os conselhos ficaram mais ligados à ideia de risco. A crise foi um alerta e as pessoas ainda estão muito preocupadas e nervosas.
DINHEIRO – Os problemas com derivativos em empresas do Brasil mostraram que os conselhos estavam despreparados?
KING – Os derivativos são tão complicados que muitos conselheiros provavelmente não os entendiam o suficiente para desafiar e dizer que estavam errados. Agora, estão mais espertos e mais conscientes.
DINHEIRO – Qual é o futuro da governança?
KING – Cada vez mais as pessoas vão se dar conta de que a governança significa bom desempenho. Antes de 2002, os conselhos europeus e americanos não possuíam membros especializados em finanças. Depois da crise de 2008, os conselhos estão olhando para gente experiente em políticas de remuneração.
"O conselheiro profissional não agrega valor às companhias"
DINHEIRO – Qual é a influência dos conselhos sobre as políticas de bônus?
KING – Além de aprová-los, a área de política de remuneração tem a oportunidade de revisar a informação. O trabalho é garantir que os bônus sejam razoáveis e suficientes para reter talentos, mas que não sejam abusivos e garantam que o dinheiro dos acionistas não seja desperdiçado.
DINHEIRO – O que acha de diretores que atuam em vários conselhos?
KING – O conselheiro profissional tende a ser generalista e não agrega valor às companhias. Não é fácil para qualquer um que tenha uma cadeira em mais de quatro conselhos.
DINHEIRO – Os investidores estão dispostos a pagar mais por empresas com boa governança?
KING – Sim. Boa governança significa boa direção, mais dinheiro para o acionista. É isso o que ele procura: o melhor retorno. E o risco é menor.
DINHEIRO – Como os investidores podem estimular a governança corporativa?
KING – Alguns investidores são mais poderosos. Os pequenos não causam impacto. Os fundos de pensão e investidores institucionais, que possuem 3% ou 4% da companhia, podem ser ouvidos. Há 15 anos, os conselhos não se importavam. E hoje levam a sério.
DINHEIRO – Como é formado o conselho perfeito?
KING – Os diretores devem ter diferentes competências. E compromisso, interesse e curiosidade no negócio. Não pode ter interesse apenas no salário. E tem a química. Se não se encaixar no grupo, não dará certo.
DINHEIRO – Como escolher as pessoas corretas?
KING – A ideia é escolher gente da área financeira, industrial, global. Queremos ter diversidade. Inclusive de gênero ou etnia.
DINHEIRO – Como deve evoluir a governança corporativa no Brasil?
KING – Bons conselhos avaliam o desempenho da direção – em particular o presidente – e do próprio conselho. As companhias americanas têm muito que fazer nessa área e o Brasil também.
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