NEGÓCIOS

Nº edição: 659 | Negócios | 21.MAI.10 - 21:00 | Atualizado em 22.05 - 17:49

Seu próximo carro será chinês?

A China é o maior mercado automobilístico do mundo. Agora, os fabricantes do país miram a expansão internacional. Será que repetirão o caminho de japoneses e coreanos?

Por Ralphe Manzoni Jr., de Pequim

Há um bordão, repetido por executivos da indústria automobilística da China, que soa quase como um mantra budista. Se os japoneses demoraram 30 anos para conquistar a confiança do consumidor mundial e os coreanos, 15, os chineses vão conseguir tal feito em apenas cinco anos. A previsão é baseada em uma premissa simples.
 

71.jpg
Mosaico com logotipos de carros chineses. Com mercado fragmentado, há 118 empresas que fabricam veículos na China
 

A China se transformou na grande fábrica do planeta. Quase tudo que é produzido no mundo sai de uma planta industrial do país. Os chineses conquistaram a liderança mundial no setor automobilístico em 2009, quando venderam 13,6 milhões de veículos, ultrapassando os EUA. Logo, é uma questão de tempo para que seus veículos comecem a invadir o mercado global. Como todo sofisma, este parece lógico e verdadeiro. Mas há sérias dúvidas se o país asiático repetirá o caminho trilhado pelos japoneses e coreanos em tão curto espaço do tempo.

As muralhas a serem ultrapassadas, neste caso, ainda são muitas. A começar pelo design. O carro mais vendido da China é o F3, da BYD (Build Your Dreams), empresa que tem o norte-americano Warren Buffett como investidor. Ele é inspirado no Toyota Corolla. E este não é um exemplo isolado.

No Salão do Automóvel de Pequim, que é considerado um dos mais importantes do mundo, é fácil encontrar carros copiados de marcas mais famosas. O Tiggo, da Chery, que já é vendido no Brasil, mescla a carroceria do Honda CR-V com detalhes de Toyota RAV4.  A JAC, que começará a comercializar seus veículos no mercado brasileiro em 2011, conta com modelos que lembram carros da Mercedes-Benz e da Toyota.
 

72.jpg
O fim das pedaladas: em Pequim, as tradicionais bicicletas perdem espaço para os carros.
Avenidas estão sempre congestionadas

 

A Geely, que comprou a Volvo por US$ 1,8 bilhão em março, tem um modelo igual ao Rolls-Royce. Até mesmo os logotipos das fabricantes chinesas guardam uma impressionante semelhança com as logomarcas de seus concorrentes ocidentais (confira o mosaico na abertura dessa reportagem).

O próprio consumidor chinês parece preferir os carros de montadoras internacionais. Apenas duas entre as dez empresas que mais venderam no primeiro trimestre de 2010 são do país. E a história mostra que os fabricantes que foram bem-sucedidos na exportação de carros só conseguiram tal feito após conquistar uma posição forte em seu mercado local.

Quando a Toyota superou a GM e se tornou a maior empresa do setor automobilístico, suas vendas representavam quase 50% do mercado japonês. A China tem ainda uma indústria fragmentada, com 118 fabricantes domésticos, um cenário que lembra o mercado americano no início do século 20.  A consolidação, acreditam os especialistas, começa nos próximos anos.

69.jpg
Não é mera coincidência: O F3, da BYD (à dir.), é o carro mais vendido da China. Seu design é inspirado
no Toyota Corolla. A prática ainda é bastante comum entre os fabricantes do país

Os mais fortes candidatos a liderar o processo de consolidação no mercado chinês têm planos de expansão internacional ambiciosos. A Chery, principal montadora independente do país, contratou o argentino Lionel Messi, eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa no ano passado e astro do time espanhol Barcelona, para ser seu garoto-propaganda pelo mundo.

A meta é exportar 100 mil carros para 70 países, incluindo o Brasil, em 2010, disse à DINHEIRO Zhou Biren, vice-presidente da empresa.  A Geely divulgou planos de produzir dois milhões de carros até 2015. Metade deles deve ser vendida fora da China, informou Victor Yang, diretor da companhia, à DINHEIRO. A BYD vai começar a exportar seu carro elétrico para os EUA até o final de 2010. O chairman da fabricante, Wang Chuanfu, que já foi o homem mais rico da China, afirmou que quer transformar a BYD na maior fabricante mundial de carros até 2025.
 

70.jpg
O astro do Barcelona Lionel Messi é o novo garoto-propaganda da chinesa Chery
 

Essa ambição global esbarra também na dificuldade em falar inglês. No Salão do Automóvel, a maioria dos materiais entregues aos jornalistas era em mandarim. “Sorry, sorry, no english”, com sotaque carregado, era o som em inglês mais ouvido nos corredores. Outra muralha é a qualidade. Há a percepção de que o produto da China é ruim. É claro que isso não pode ser considerado verdade em todos os casos. Mas os fabricantes de veículos locais são adeptos da política de custo baixo.
 

73.jpg
 

 

Embora suas fábricas estejam entre as mais modernas do mundo, os materiais utilizados para a produção dos carros são de qualidade inferior aos usados pelos brasileiros. Pior: um teste que a reportagem da DINHEIRO fez com os veículos da Chery, em Wuhu, mostrou um cenário que apenas confirma o mito.

Entre os veículos testados, um deles precisou de recarga na bateria. Outro tinha a porta enferrujada. E o trio elétrico de um dos modelos também não funcionava. “Vamos quebrar este preconceito”, diz Luis Curi, CEO da Chery do Brasil. “A qualidade é prioridade número 1. Os chineses aprendem rápido.” Será uma tarefa tão paciente e detalhista quanto construir mais de oito mil quilômetros de uma gigantesca muralha.

 

 > Siga a DINHEIRO no Twitter


ASSUNTOS RELACIONADOS

Multimídia

Executivos fora do escritório

O que fazem os ceos e diretores quando tiram o terno e a gravata e quais são seus hobbies para enfrentar o estresse no trabalho.

Samsung faz sua aposta para ser a Apple das tevês

A série 8000, lançada oficialmente na sexta-feira (18) no Brasil, é o investimento da marca para ser o aparelho top de linha. DINHEIRO testou a versão ES8000 Led de 46 polegadas.

Inflação no Brasil é o foco dos investidores

Nesta terça-feira (22), sai o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15). A expectativa é de que o indicador acelere para 0,55% em maio.

Economia - Um vice-presidente com voz própria e personalidade forte

Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

- - Fatos em Destaque

- - Fatos em Destaque


  • Eng. Lauro de A.C. Neto

    em 27/10/2011 05:14:02

    A qualidade ainda sera por muito tempo um desafio para a China, o problema esta no detalhe, no cara que coloca rebites no suplier que nao utiliza templates corretos para fazer o joing das partes antes das soldas, no assembly, nos procedimentos, por ai vai. Demoram ainda uma geracao.

    Denuncie esse comentário

    • carberto

      em 11/06/2010 18:07:46

      leiam mais sobre os carros chineses em: http://carroschineses.wordpress.com/

      Denuncie esse comentário

      • Daiane Oliveira

        em 24/05/2010 12:28:57

        A grande maioria destes carros chineses são " inspirados". Gostaria de entender qual é o ponto de vista ético destas empresas. Veja alguns comparativos: http://allthecars.wordpress.com/2010/02/07/as-copias-da-china/ A qualidade e a ética é um assunto a ser priorizado para atingir outros mercados.

        Denuncie esse comentário

        • Marcio Camurati

          em 24/05/2010 07:31:31

          Boa!

          Denuncie esse comentário

          • Cleanto l martins

            em 22/05/2010 15:34:54

            Os china tem um poblemão pela frente que e de dar alimentação para o seus. Isto esta fasendo dela na minha visão o pais mais desumo do mundo, não tem infraestrutura adequado a sua ganancia de desenvolvimento galopante, os Ricos suga das piores formas da mão de obra em serie dos menos favoricidos.

            Denuncie esse comentário

            • Ailton Correia

              em 22/05/2010 13:44:12

              Uma observação sobre a reportagem: Ao mostrar lado a lado o F3 e o Corolla, não erraram ao afirmar que o F3 é o da direita? O carro da esquera tem bem grande no para-choque "F3"

              Denuncie esse comentário

              Por favor, preencha todos os campos abaixo para deixar seu comentário.
              A Istoé Dinheiro pode utilizar este comentário para divulgação na revista impressa.

                Isto é compartilhar

                Divida sua leitura com seus amigos

                Colunas

                ver todos
                publicidade

                Edições especiais

                • Editora 3

                índice de matérias edições anteriores edições especiais assine a revista

                © Copyright 1996-2011 Editora Três
                É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
                Fechar [X]