NEGÓCIOS
Nº edição: 659 | Negócios | 21.MAI.10 - 21:00
Psicanalista dos carros
O francês Gilbert Rapaille compara os veículos à personalidade dos seres humanos. Saiba como isso influencia nas vendas da indústria automobilística
Por Rosenildo Gomes Ferreira
O psiquiatra e antropólogo francês Gilbert Clotaire Rapaille, 65 anos, construiu uma sólida carreira acadêmica. Lecionou na prestigiosa Universidade de Sorbonne, na França, e foi professor-visitante em outras importantes universidades pelo mundo afora. Atuou, ainda, no tratamento de crianças autistas. Mas sua especialidade vai um pouco além dos manuais de psicologia focados apenas no gênero humano.
Rapaille se preocupa também em interpretar a personalidade dos carros. Para ele, os automóveis são dotados de identidade e como tal entram em crise, evoluem e até caem em desgraça. Um bom exemplo é o Hummer. Símbolo da era Bush, o modelo encarnava vigor e força. Hoje, porém, começa a ser rejeitado pelo consumidor por ser grande demais, gastar muito combustível e ser difícil de estacionar nas vagas convencionais.

Onda asiática: para Rapaille, os carros coreanos deverão dominar o mercado automotivo nos próximos anos
“O Hummer personifica o verdadeiro vilão,” disse à DINHEIRO Rapaille, durante sua rápida passagem pelo Brasil, no início deste mês. Segundo ele, os carros produzidos pelas montadoras asiáticas gozam de um status diferenciado. O Eqqus, da Hyundai, por exemplo, é apontado como sendo um parâmetro para o futuro dos carros de luxo. “Mais que o estilo imponente, ele transmite uma sensação de conforto, segurança e sofisticação. Está mais para uma pessoa descolada do que para um novo-rico,” avalia.

O Pt Cruiser, por Rapaille: ele é do tipo exibido e "chama a atenção" por onde passa.
Seu visual retrô remete à época dos gângsteres e confere uma sensação de poder a quem dirige
Esse tipo de análise pode parecer banal à primeira vista. Contudo, cada vez mais ela vem influenciando os consumidores, mesmo que inconscientemente. Principalmente após a crise econômica global, que deixou os americanos e europeus mais pobres. E Rapaille sabe o que diz.
Foram seus estudos que deram origem ao retrô PT Cruiser, da Chrysler. Graças aos seus conselhos, a montadora decidiu, em 1998, repaginar o Jeep, alterando o formato do farol, de quadrado para redondo, além de introduzir o teto-solar. O projeto de US$ 2,6 bilhões ajudou a marca a bater o recorde de vendas em 1999. “O código genético do carro remete ao cavalo. Um animal arisco, mas que pode ser domesticado,” explica.
Para o dublê de psiquiatra e consultor, mais que se aproveitar da fraqueza das líderes General Motors, Ford e Chrysler, os sul-coreanos acertaram ao investir em inovação e design. “Os próximos a embarcar nessa onda serão os chineses,” aposta.
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