NEGÓCIOS

Nº edição: 658 | Negócios | 14.MAI.10 - 21:00

Vivo na roda viva

A Telefonica quer comprar a fatia da Portugal Telecom na Vivo. E vice-versa. A questão é que nenhuma das duas quer vender

Por Rosenildo Gomes Ferreira

Uma clássica disputa no mundo das telecomunicações na qual os dois sócios querem comprar, porém nenhuma das partes aceita vender. Essa tem sido a tônica da convivência entre a Portugal Telecom (PT) e a espanhola Telefonica que dividem o controle da operadora brasileira de telefonia móvel Vivo.

Na semana passada, essa história teve mais um capítulo com a veemente negativa do conselho de administração da PT à polpuda oferta de 5,7 bilhões de euros (cerca de R$ 13 bilhões) feita pela Telefonica. Como a proposta é válida até o dia 6 de junho, o mercado acredita que até lá aconteçam novos movimentos.
 

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"É melhor para o grupo ficar com a Vivo"
Wine, presidente da Portugal Telecom

Na prática, os dois lados se comportam como se estivessem em uma mesa de pôquer. Um à espera do vacilo do outro para dar a cartada final. É certo que a recusa dos portugueses causou mal- estar no quartel-general da Telefonica, em Madri. “A decisão do conselho da PT gera preocupação sobre a boa governança em uma empresa listada em bolsa”, lamentou Santiago Fernández Valbuena, vice-presidente financeiro da Telefonica, dando a entender que a recusa da PT mostra que a empresa não está aproveitando uma boa oportunidade para gerar valor aos seus acionistas. “Eles deveriam consultar os acionistas”, completou.

Segundo analistas, ao pôr um ágio de 145% em relação à cotação média dos papéis da Vivo, o objetivo da Telefonica era colocar os portugueses na situação daquele pugilista que está preso às cordas e recebe golpes de todos os lados. “Essa tática pode até surtir efeito”, pondera João Paulo Bruder, analista da consultoria International Data Corporation (IDC). A direção da PT discorda.

“O montante oferecido confirma nossa percepção sobre o valor da empresa e que o melhor é sua manutenção em nosso portfólio”, disse à DINHEIRO Shakhaf Wine, presidente da filial brasileira da Portugal Telecom. “A Vivo já faz parte do DNA da nossa companhia”, destaca.

Para os espanhóis, a incorporação da Vivo representa a oportunidade de crescer mais rápido e de forma mais consistente no Brasil. Hoje, a maior fatia das receitas da Telefonica no Brasil é obtida com o serviço de voz. A concorrência com as operadoras de telefonia móvel e as empresas de tevê a cabo, como a NET, que possui o NET Fone, pode colocar em xeque o futuro da companhia. “A Telefonica está em uma sinuca de bico”, avalia Bruder, do IDC.

Esse quadro poderia ser revertido com o controle total da Vivo. “Apenas o ganho com sinergias entre as duas operações é estimado em 2,8 bilhões de euros”, conta Gilmar Camurra, diretor-financeiro da Telefonica. Um valor expressivo em um setor que exige elevados investimentos. Foi isso que justificou o lançamento de uma “oferta irrecusável”. “Os espanhóis demonstram que aprenderam com os erros do passado, quando foram derrotados pela Vivendi na disputa pela GVT (de telefonia fixa)”, analisa Valder Nogueira, analista-chefe da Corretora Santander.

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Caso o negócio não seja, de fato, concluído, a Telefonica tem um plano B. Seria a venda de sua fatia na Vivo e a compra da TIM no Brasil. Isso seria facilitado pelo fato de os espanhóis integrarem o bloco de controle da Telecom Italia, dona da TIM. E, a julgar pela decisão da PT, essa deverá ser a decisão da Telefonica. “Os portugueses não deverão vender sua galinha dos ovos de ouro”, diz Bruder, do IDC.

E isso fica claro quando analisamos os números da Portugal Telecom. Sua base de operação se limita a Portugal, Angola ao Brasil. A Vivo garante metade das receitas globais de 6,7 bilhões de euros da PT. É fácil entender o porquê. Portugal é um mercado estagnado e Angola ainda é uma promessa no quesito distribuição de renda – alavanca importante para a disseminação de serviços desse tipo. O Brasil, ao contrário, possui uma população de quase 200 milhões de pessoas – já existem 179 milhões de linhas de telefone celular – e mais da metade desse contingente está ávida por consumir serviços de internet banda larga e tevê por assinatura. 

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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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