NEGÓCIOS
Nº edição: 658 | Negócios | 14.MAI.10 - 21:00 | Atualizado em 22.05 - 16:09
A venda de um ícone
A aquisição da Harrods pela Qatar Holding expõe crise no varejo de luxo inglês
Por Priscilla Portugal
Tudo para todos, em todo lugar. Esse é o slogan da loja de departamentos de luxo londrina Harrods. Em uma área de 90 mil metros quadrados, com mais de 300 departamentos, ela fez sua fama em 175 anos de história e tornou-se um ícone do luxo britânico. Há 25 anos nas mãos do milionário egípcio Mohamed al-Fayed, que a comprou por 578 milhões de libras, a loja foi vendida pelo valor estimado de 1,5 bilhão de libras ao braço investidor da companhia Qatar Holding. “A aquisição de uma marca de luxo busca trazer prestígio, mas eles precisam tomar cuidado, pois pode ter o efeito contrário”, explica Luiz Marinho, sócio-diretor da consultoria BrandWorks.

A loja ocupa 90 mil metros quadrados em pleno coração de Londres e recebe anualmente 15 milhões de visitantes
Os motivos da venda não foram anunciados e, contrariando sua fama de conseguir o impossível, a Harrods não falou a respeito. A causa é misteriosa porque dinheiro não parece ser o problema de Al-Fayed: segundo o jornal inglês Sunday Times, sua fortuna é avaliada em 650 milhões de libras. Porém, especula-se que a crise afetou a Harrods, conhecida pela decoração luxuosa e produtos caros.
Já para a estratégia de diversificação da Qatar Holding – que investe majoritariamente no petróleo e no gás natural –, a compra da Harrods veio a calhar. “É um privilégio adquirir uma marca de luxo ícone”, disse em pronunciamento Ahmad al-Sayed, CEO da companhia. “O maior problema que os compradores devem enfrentar é que eles não têm nenhuma conexão com os valores europeus da Harrods. Será difícil manter o DNA da marca”, diz Marinho.

O ex-proprietário, o empresário Mohamed al-Fayed, dá adeus ao seu império,
mas as verdadeiras razões da venda não foram explicadas
Com a aquisição, pode começar um novo capítulo na trajetória da loja, que teve clientes célebres como Oscar Wilde e Sigmund Freud e reúne episódios no mínimo curiosos, como o fato de ter tido a primeira escada rolante do mundo, em 1898. Ou o de ter vendido um filhote de leão, em 1969, a dois amigos, John Rendall e Anthony Bourke, ou ainda por ter mantido a classe mesmo diante de encomendas esdrúxulas.
Certa vez, uma cliente disse a um vendedor: “Eu quero um camelo.” E este apenas respondeu: “Camelo ou dromedário, senhora?” “A Harrods foi uma escola de relacionamento com o cliente. Foi a primeira loja de varejo a ir atrás dos sonhos de seus consumidores e não encontrou limites para satisfazer seus desejos”, resume Carlos Ferreirinha, diretor-presidente da MCF Consultoria, especializada em luxo. Nada mal para quem nasceu em 1834 como uma mercearia de bairro, pelas mãos de Charles Henry Harrod, um mercador de chás que pretendia comercializar secos e molhados.
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