NEGÓCIOS

Nº edição: 656 | Negócios | 30.ABR.10 - 10:00 | Atualizado em 30.04 - 15:12

Japão, as empresas em depressão

Não bastasse a recessão, o país enfrenta o questionamento de seu maior bem econômico: o modelo de gestão de suas companhias

Por Rosenildo Gomes Ferreira, de Nagoia

Os japoneses sempre aguardam com ansiedade a chegada da primavera, quando começam a desabrochar as primeiras flores das cerejeiras, o símbolo do país. Além da beleza plástica e do colorido que elas conferem às ruas e avenidas das principais cidades, essas flores carregam uma forte dose de simbolismo.
 

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Autoestima em baixa: sob o comando de Akio Toyoda, a Toyota viu a mística da qualidade cair por terra.
O executivo, envergonhado, teve de pedir desculpas aos clientes

 

A intensidade da floração, creem alguns, indica se o ano será ou não de bonança. Levando-se em conta o que acontece com a economia do país, pode-se supor que as floradas têm sido cada vez mais exíguas. Desde o início da década, o país vive atolado em uma crise econômica que parece não ter fim.

No ano passado, um novo ingrediente apareceu para acentuar ainda mais a depressão sentida pelos japoneses: o modelo de gestão do país, consagrado por técnicas como o just in time e o kaizen, começou a mostrar sinais de esgotamento. O exemplo mais visível desse cenário foram os sucessivos recalls da Toyota. Pior. Boa parte de todos os setores da indústria japonesa usa o sistema adotado pela montadora. Isso significou um duro golpe na economia do país e na autoestima dos japoneses.
 

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Sinal de bonança: as flores da sakura (cerejeira) anunciam a primavera e dias melhores.
Mas este ano elas vieram com uma recessão ainda mais aguda

 

Por tudo isso, em 2009, a recessão atingiu o pior patamar do pós-guerra. O medo de perder o emprego colocou a população em estado de alerta. Nem mesmo a manutenção da taxa de juros em 0,1% anima os japoneses a comprar. Nas ruas de Nagoia, tanto na região central quanto no elegante bairro de Sakae, o movimento é intenso.

Nem mesmo a manutenção  da taxa de juros em  0,1% tem animado os japoneses a consumir

A multidão para diante das vitrines de grifes de luxo como Cartier, Louis Vuitton, Tiffany’s e Prada, e percorre os andares das sofisticadas lojas de departamento locais. Um detalhe, no entanto, chama a atenção dos estrangeiros: os japoneses olham as vitrines, circulam por entre as araras de roupas e prateleiras de eletroeletrônicos, mas poucos, muito poucos mesmo, se atrevem a comprar.

A atitude defensiva dos consumidores ajudou a fazer com que o país fechasse 2009 com deflação de 1,3%. Fazer negócio em uma economia há muito estagnada não é uma tarefa fácil. E isso vale para corporações de diversos setores e tamanhos variados. No segmento bancário, instituições de porte médio, como o Ogaki Kyoritsu Bank (OKB) cuja base fica na província de Gifu, tiveram de se reinventar.
 

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Imai, do Kaizen: "Quando se trata de qualidade, mesmo as melhores empresas podem errar"
 

Desde 2008, suas agências abrem todos os dias do ano. A direção do OKB também criou uma agência móvel montada dentro de um ônibus e que percorre a zona rural do município. “O rejuvenescimento da marca tem por objetivo garantir nosso espaço em um mercado cada vez mais disputado”, contou à DINHEIRO T. Hayashi, gerente de divisão de desenvolvimento operacional do OKB. Apesar do esforço, os resultados são tímidos.

No período 2007-2009, o número de clientes cresceu apenas 2,5%, para 1,7 milhão. A instituição também fechou 2009 com prejuízo de US$ 73,7 mil. Mas é no segmento industrial que a longa recessão e a falta de rumo da economia japonesa têm feito estragos ainda maiores.
 

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Fora do ar: pane no relógio interno do PlayStation3 arranhou a imagem da Sony
 

Tradicional fabricante de roldanas para motores e parafusos para equipamentos de alta tecnologia, a Nabeya Bi-tech Kaisha viu suas receitas desabarem 34%, para US$ 480 milhões em 2009. Um duro golpe para uma corporação que abriu as portas, em 1560, para produzir lanternas de ferro para os palácios da família imperial japonesa, além de sinos para os templos budistas.

“Para voltar a crescer, a saída será intensificar os esforços para conseguir espaço no mercado externo”, aposta Sadao Kamioka, diretor de marketing e vendas da companhia. Trajetória semelhante deverá ser seguida pela Mirai Industries, fabricante de componentes para instalações elétricas e hidráulicas.
 

Sua principal virtude, o domínio de uma fatia de 80% do setor no Japão, se tornou uma fraqueza, pois a deixou na condição de refém de uma economia estagnada. Em três anos, o faturamento da Mirai cresceu apenas 10%, para US$ 288,8 milhões. Mas o caminho das exportações pode se tornar cada vez mais tortuoso, devido aos efeitos colaterais gerados pela recente onda de recalls que atingiu ícones nipônicos como a Toyota, a Honda e até mesmo a Sony. Recentemente, o sistema de jogos online do Playstation 3, da Sony, entrou em colapso, arranhando a imagem da companhia.

Ironicamente, elas integram a lista de empresas que ajudaram a forjar a mística do “Made in Japan” como sinônimo de qualidade. E isso teve um peso expressivo no processo de transformação de um país, arrasado pela guerra, na segunda maior potência do planeta, com um PIB de US$ 5 trilhões. O sucesso das marcas japonesas se deve ainda à aposta em um design inovador e na funcionalidade de seus produtos, além da adoção de ferramentas de gestão e produção que primam pela qualidade.

E são exatamente esses quesitos que estão em xeque com o anúncio do mega-recall da Toyota, que deverá afetar cerca de oito milhões de veículos em todo o mundo. Nessa lista está até mesmo o Prius – o primeiro carro híbrido, movido a gasolina e eletricidade, produzido em larga escala. “O sistema kaizen continua sendo a maneira mais eficiente e correta de se administrar uma empresa”, defende Masaaki Imai, presidente do Instituto Kaizen. ”Quando se trata de qualidade, mesmo as melhores empresas podem cometer erros.”
 

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Fila de problemas: a Honda também teve de fazer consertos não programados em seus modelos
 

Mas o assunto ainda é visto como um tabu. A primeira impressão de quem atravessa o portão da principal fábrica da montadora, na Cidade da Toyota, como foi rebatizado em 1959 o município de Koromo, é que tudo segue em ritmo, aparentemente, normal. Mas bastou questionar sobre os efeitos do recall, como fez a DINHEIRO, para que os porta-vozes da montadora assumissem um ar grave: “Tivemos problemas que vão causar um impacto nas contas, mas tenho certeza de que isso não afetará a confiança dos consumidores em nossos produtos”, avalia Hitoshi Nagashima, gerente da divisão de relações corporativas da Toyota Motor Company.

Os números, ao menos por enquanto, ainda jogam a favor da montadora. E é fácil entender o porquê. Na região central do Japão, por exemplo, a marca domina amplamente o mercado. Nas ruas de Nagoia, de cada dez veículos pelo menos sete ostentam o emblema da Toyota e de suas controladas: Daihatsu e Lexus. Isso não quer dizer que a vida da Toyota esteja fácil. Sua produção está demasiadamente concentrada em sua terra natal, onde são feitos 42% de seus automóveis.
 

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A valorização do iene em relação ao dólar tornou os carros da Toyota caros no mercado global. Para reverter essa situação, a direção da montadora planeja ampliar sua atuação em mercados emergentes – especialmente na China, onde será instalado um centro de desenvolvimento e de design.

O país vizinho, aliás, não é visto apenas como uma espécie de tábua de salvação da montadora. A voracidade com que a classe média chinesa se lança ao consumo vem, literalmente, sustentando as empresas nipônicas. Em fevereiro, último número disponível, as exportações totais do Japão somaram US$ 56,9 bilhões, a maior cifra desde 1982.

E esse recorde foi puxado pela China, o principal parceiro comercial do Japão, que absorve cerca de 15% de suas vendas externas. Essa dependência embute riscos óbvios, especialmente quando se trata de um país que esteve, por longos anos, na vanguarda tecnológica e produtiva do capitalismo global. A pergunta que fica é: o Japão encontrará um novo modelo?

 

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