ECONOMIA
Nº edição: 656 | Economia | 30.ABR.10 - 10:00
Como os emergentes tomaram o poder
Liderados pelo Brasil, os países em desenvolvimento ganharam mais espaço no FMI e no Banco Mundial - e isso num momento em que os europeus pedem socorro
Por Denize Bacoccina
No início da década, as reuniões do FMI e do Banco Mun-dial em Washing-ton eram marcadas por intensos protestos. Nos anos seguintes, o descrédito ao receituário das organizações de Bretton Woods era tanto que até os manifestantes sumiram. Desta vez, porém, os ministros da Fazenda dos 186 países deixaram a reunião de primavera, realizada no fim de semana passado, com algo a mais.
Emplacaram um aumento de capital e a mudança na composição acionária que elevou para 47,19% a participação dos países em desenvolvimento no Banco Mundial. Foi a primeira mudança em 20 anos, dando continuidade ao processo iniciado em 2008 no FMI. E já tem outra prometida para 2015, que pode dar aos emergentes metade do capital na instituição. A cota do Brasil no Bird passou de 2,06% para 2,24%.

Ideia brasileira: Mantega (sentado à esq.) convenceu os demais ministros a mudar cotas do Bird
A China já é o terceiro maior acionista, depois de Estados Unidos e Japão e à frente dos europeus. No FMI, a primeira fase da reforma, em 2008, deu aos emergentes mais 5,4%, que elevaram a participação desses países para 40% e a do Brasil de 1,41% para 1,72%. As reformas não foram fruto do acaso. São a coroação de uma estratégia desenhada pelo Brasil e outros emergentes para aproveitar a crise nas economias ricas e ocupar mais espaço no cenário internacional.
A alteração do capital do Banco Mundial e do FMI já havia sido acertada no ano passado pelos líderes do G-20, reconhecendo a necessidade de atualizar as instituições de acordo com o novo mapa da economia global. E tudo começou, ironicamente, com um ato do ex-presidente George W. Bush, cuja gestão na Casa Branca foi marcada pelo unilateralismo. Sem querer, ao entrar de surpresa numa reunião dos ministros da Fazenda do G-20, em outubro de 2008, Bush deu aval ao movimento que iria aumentar o poder dos emergentes – e ao mesmo tempo reduzir o papel dos Estados Unidos.
Naquele encontro de rotina, o Brasil estava na presidência do grupo. E, em cima da hora, a delegação brasileira recebeu a informação de que Bush gostaria de participar. “Foi o primeiro sinal de que o G-20 tinha ganho outra importância”, contou à DINHEIRO o economista Paulo Nogueira Batista Jr., representante do Brasil no FMI. O Brasil já vinha defendendo, havia algum tempo, um protagonismo maior para os países emergentes nos centros decisórios e a necessidade de dinamizar o G-20. Mas foi o choque provocado pela queda do Lehman Brothers, em setembro daquele ano, que fez o mundo acordar.

O começo de tudo: presença de Bush no G-20, em 2008, ao lado de Mantega e Meirelles, foi o marco zero
A reunião acabou com um convite do presidente americano para uma reunião de cúpula do grupo, no mês seguinte, em Washington. Barack Obama, eleito uma semana antes, decidiu não aparecer, mas mandou representantes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve encontros reservados com o presidente chinês Hu Jintao, com o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e do Japão, Taro Aso.
O encontro seguinte, em Londres, em abril de 2009, era uma indicação de que a Europa também já aceitava a nova configuração de poder. Foi também a sagração do presidente Lula, que, naquele encontro, se tornou “o cara”, nas palavras de Obama. Mas foi a reunião seguinte, na cidade de Pittsburgh, em setembro do ano passado, que sacramentou o G-20 como o foro de discussões e articulações da nova arquitetura financeira global do pós-crise, em que seriam tomadas as decisões para a reforma do sistema falido. “Foi muito importante, porque o Brasil passou a ser um integrante do principal foro do sistema financeiro”, diz Nogueira Batista.
Passada a crise e após a conclusão de que ela não foi tão arrasadora como se temia, já arrefeceram os ânimos de muitos líderes para a reforma global, como reclamou o ministro Guido Mantega durante a reunião do FMI. “As instituições financeiras estão fazendo operações de risco como se nada tivesse acontecido”, disse o ministro. E esse comportamento é favorecido pelas previsões otimistas do próprio Fundo, que projeta uma expansão de 4,2% na economia mundial este ano, com as economias avançadas crescendo 2,3% e os emergentes com expansão de 6,3%. Os riscos, no entanto, permanecem.

Dentro do FMI: o economista Paulo Nogueira Batista Jr. foi um dos articuladores das mudanças
Na terça-feira 27, as bolsas globais caíram com a redução da classificação dos papéis da Grécia e de Portugal pela agência Standard & Poors. No dia 23, a Grécia pediu socorro ao FMI, com um programa de US$ 60 bilhões e o ex-economista-chefe da instituição, Kenneth Rogoff, acha que o país não será o único. “É provável que pelo menos mais um país da zona do euro precise de um programa do FMI nos próximos dois anos”, afirmou.
Mantega, que planeja até escrever um livro sobre essa “tomada de poder” pelos emergentes após sair do governo, diz que a reforma deve continuar. Embora tenha ficado acertado que outros 5% das ações serão transferidas dos países ricos para os emergentes, ainda não houve acordo sobre quem vai ganhar e quem vai perder representatividade na instituição e a discussão foi adiada para o início de 2011. Além disso, o G-20 defende que a fatia repartida seja de 7%, para melhor refletir a nova configuração mundial. Bem mais adequado ao mundo que emergiu da primeira crise do século 21.
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