NEGÓCIOS
Nº edição: 656 | Negócios | 30.ABR.10 - 10:00 | Atualizado em 15.08 - 08:56
O empresário e o general
A história de Gleison Gambogi de Souza, o dono de uma franquia de livros infantis, que se tornou sócio de um general angolano em uma nova companhia aérea brasileira
Por Eliane Sobral
Aos 37 anos de idade, o empresário paulista Gleison Gambogi de Souza chama a atenção por sua ascensão meteórica no mundo dos negócios. Em apenas uma década, ele passou de programador de informática freelancer a sócio de uma franquia de livros infantis chamada Genial Books.

Gambogi de Souza: presidente e dono da Puma Air chama a atenção por dizer que não conhece o seu principal sócio
Souza é praticamente um desconhecido no universo corporativo brasileiro, mas acaba de mostrar sua cara em um negócio recheado de mistérios: o lançamento da companhia aérea Puma Air, que fez seu voo inaugural há duas semanas. Tudo, é bom salientar, sem alarde, publicidade e muito menos um evento de inauguração. Sua ambição, entretanto, é grande.
A nova empresa nasce com 95 funcionários e apenas uma aeronave – um Boeing 737-300 negociado em sistema de leasing com a Gol. Ela começa operando a linha São Paulo-Belém-Macapá de olho no mercado internacional. “Nosso grande alvo é a rota São Paulo-Havana-Luanda”, disse Souza à DINHEIRO, referindo-se às capitais de Cuba e de Angola. O interesse do jovem empresário em Angola não se deve ao acaso.

O primeiro boeing 767-300 da Puma Air opera no norte do país. a meta é partir para rotas internacionais em Angola e Cuba
Souza possui 80% da nova empresa e os outros 20% pertencem ao polêmico empresário angolano Higino Carneiro. Os dois desembolsaram R$ 25 milhões para comprar a marca Puma Air, uma empresa regional do Norte do Brasil. General do Exército de Angola e ex-ministro de Obras Públicas do país, Carneiro é hoje um dos homens mais ricos do país africano – tem hotéis, banco, fazendas e é acionista em uma companhia aérea regional, a Angola Air Service. Cabe, diante dessa sociedade atípica, uma pergunta: como um brasileiro, dono de uma franquia de livros infantis, conheceu o todo-poderoso general de Angola?
É uma pergunta que parece incomodar o empresário brasileiro. Foi por volta de 2004 que os caminhos de Carneiro e Souza se cruzaram, mas ele não dá mais detalhes. Souza, aliás, parece pouco à vontade para falar de si e de seus negócios. Apesar de estrear em um ramo de tanta visibilidade como é o da aviação, Souza relutou por duas semanas antes de atender ao pedido de entrevista da DINHEIRO e, quando o fez, mostrou-se tenso e impaciente com as perguntas.

R$ 25 milhões foi quanto Souza, que possui 80% da empresa, e o general Higino Carneiro (acima),
dono do restante das ações, investiram na criação da Puma Air
Optou por receber a reportagem na sede de sua assessoria de imprensa, na Vila Madalena, zona oeste da capital paulista, e não no escritório da companhia em São Paulo. Durante as mais de duas horas de conversa, Gleison Souza aparentava tensão, transpirou sob um ar condicionado abaixo de 20 graus e esquivou-se de responder várias perguntas.
O nome dos sócios que teve? “Prefiro não citar.” A relação com o general Higino Carneiro? “Não conheço Higino Carneiro”, disse Souza, para, em seguinda, dizer que seu sócio na Puma Air é a Angola Air Service, uma empresa familiar angolana na qual Higino Carneiro tem participação. “Não trato com ele. Quando falo com a Angola Air Service, falo com o Stefan.” Quem é Stefan? Souza não soube dar o nome completo de seu interlocutor na sócia angolana. Stefan van Wyk aparece no site da Angola Air Service como diretor de operações da empresa. Procurado pela reportagem, Wyk não retornou a solicitação de entrevista.
A primeira vez que Souza pisou em Angola foi em 2004, segundo ele, a convite de um amigo – cujo nome, novamente, ele preferiu não dizer. DINHEIRO apurou que o amigo é, na verdade, Carmo Vieira, padrinho de batismo da filha de Souza. O irmão de Carmo, Reinaldo Vieira, era o proprietário de uma empresa de engenharia em Luanda, a MetroEuropa, cujo maior cliente era exatamente o Ministério de Obras Públicas de Angola, comandado por Higino Carneiro.

Foi Reinaldo Vieira quem abriu as portas do grande e carente mercado angolano para o então livreiro. Souza conta que chegou a vice-presidente da MetroEuropa, mas deixou a empresa depois que um empresário local o convidou para assumir um projeto de importação de máquinas de tijolos e insumos para construção civil. De acordo com uma fonte próxima a Souza, em 2005, quando ele começou a ganhar dinheiro, desfez a sociedade na franquia de livros. Souza é primo do ex-sócio e até hoje os dois não se falam. “O primo dele se sentiu excluído e nunca o perdoou.”
Gleison de Souza não é conhecido no mercado livreiro brasileiro e tampouco no de aviação. Higino Carneiro, porém, é famoso. O ex-ministro angolano tentou expandir os negócios de aviação em seu próprio país, transformando a Angola Air Service em empresa de alcance nacional. Mas teria esbarrado no governo angolano, que não gostou da ideia de ter concorrente para a estatal Transportes Aéreos de Angola (Taag).
O alvo seguinte de Carneiro foi o mercado europeu. O general pretendia operar em Portugal, mas o governo português alegou falta de cumprimento de normas de segurança para barrar a Angola Air Service e as pretensões de Carneiro. “Sobrou o mercado brasileiro, onde tudo é possível”, afirma um especialista em aviação, lembrando que o País é bastante atraente para os negócios do general.
“O Brasil é a Miami dos angolanos.” Para se ter uma ideia, a Taag opera sete voos semanais para o Brasil – três para São Paulo e quatro para o Rio de Janeiro –, sempre com aeronaves de grande capacidade, como o Boeing 747 e 777. É para explorar o atraente mercado internacional que a Puma Air decolou. Souza reconhece que a taxa de ocupação nos voos ligando a capital paulista à região Norte do Brasil está abaixo do desejado, mas informa que, em geral, os voos têm entre 100 e 150 assentos ocupados.
A expectativa de Souza é de que a Agência Nacional de Aviação Comercial (Anac) libere a rota São Paulo-Luanda ainda no primeiro semestre deste ano. “São entraves burocráticos que estão emperrando os negócios”, diz. “Angola é um poço de oportunidades e digo isso por experiência própria. Vi filas de executivos tentando embarcar para o Brasil sem sucesso, principalmente nas festas de fim de ano.
Não havia disponibilidade e os aviões partiam todos lotados.” Ele estima que haja algo próximo a 40 mil brasileiros vivendo hoje em Angola. E os próximos avanços da Puma Air no continente africano serão em direção a Nigéria. Cuba, diz ele, que também já vive processo de abertura, está nos planos. “Para as companhias aéreas brasileiras não interessa operar na África porque é um mercado desconhecido”, diz o empresário que “descobriu” a África e fez bons e grandes amigos por lá.
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