NEGÓCIOS

Nº edição: 656 | Negócios | 30.ABR.10 - 10:00

O retirante que vai pintar o sudeste

Depois de se consolidar no Norte e no Nordeste, a fabricante de tintas Iquine entra no maior mercado consumidor do Brasil para brigar com gigantes do setor. Terá sucesso?

Por Rosenildo Gomes Ferreira

Em 1952, Delino de Souza, então com 18 anos, desembarcou no centro de São Paulo com uma pequena mala na mão e pouquíssimo dinheiro no bolso. Apenas o suficiente para alugar um quarto de pensão pelo período de uma semana. Para bancar a viagem, que durou quatro dias e teve como ponto de partida a cidade de Jericó (PB), ele vendeu as quatro cabras que possuía.

Em São Paulo, trabalhou como operário em diversas fábricas de tintas. Cinquenta e oito anos depois, “seu” Delino, como é mais conhecido, retorna a São Paulo. Só que dessa vez na condição de controlador e presidente das Indústrias Químicas do Nordeste (Iquine), especializada em tintas mobiliárias, com uma receita estimada em US$ 130 milhões.
 

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"No Norte e no Nordeste quem dá as cartas sou eu"
Delino de Souza, Fundador da Iquine

De seu bunker em Jaboatão dos Guararapes, área metropolitana do Recife (PE), o empresário comanda um negócio que começou pequeno, em 1974, e cresceu ano após ano até se transformar em uma verdadeira “pedra no sapato” das gigantes Basf (dona da Suvinil), Akzo-Nobel (Coral) e Sherwin Williams.

O capital intelectual e financeiro foi amealhado no período em que o empreendedor atuou em empresas do setor em São Paulo. Hoje, a companhia pernambucana é líder no Norte e no Nordeste, com uma fatia de 30%. “Aqui em cima quem dá as cartas é a Iquine,” diz Souza. Agora, ele pretende dar seu maior salto. A partir deste mês, começa a chegar às gôndolas de 1,5 mil pontos de venda situados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro a linha de tintas Iquine.

Para entrar nestes mercados, a direção da Iquine desenhou um plano de ação dividido em três vertentes. A primeira delas foi o reforço na verba de marketing de R$ 15 milhões, 20% maior do que em 2009. Também abrirá mão da embalagem plástica, responsável por 25% das vendas dos galões de 3,6 litros.
 

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A ideia é trabalhar apenas com a tradicional lata de aço. “O consumidor da região Norte gosta do vasilhame de plástico pela possibilidade de reutilizar o recipiente”, explica Alan de Souza, filho do fundador e diretor de marketing da Iquine. Mais: a cartela de cores vai privilegiar os tons pastel em vez das tonalidades mais fortes que hoje respondem por 60% das vendas.

Apenas isso, contudo, pode não ser suficiente para garantir o sucesso da empreitada. Até porque a Iquine é uma ilustre desconhecida de mineiros, paulistanos e cariocas, mais acostumados com Suvinil, Coral e outras tantas marcas. Para romper essa barreira, Souza aposta em parcerias com clubes de futebol, como o carioca Vasco da Gama, que terá o estádio pintado pela Iquine, campanhas de mídia e ações de marketing direcionadas aos pontos de venda e aos formadores de opinião: arquitetos e pintores.

De acordo com analistas, esse último contingente é vital para que a companhia rompa a barreira do desconhecimento. “Como muitos profissionais da construção civil nasceram no Nordeste, é possível explorar a ligação sentimental deles com as marcas de lá”, opina Lucas Copelli, diretor da Vallua Consultoria e Gestão.
 

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Apenas na cidade de São Paulo moram cerca de 2,5 milhões de descendentes de nordestinos. O apelo regional é válido. Mas a Iquine encontrará pela frente rivais com porte, pelo menos, dez vezes maior. Como diferencial, “seu“ Delino aponta a inovação. “Temos um histórico de investimento em inovação. Esse foi o maior legado deixado pelo meu guru, o engenheiro Wolf, com quem trabalhei por muitos anos na Brastintas (hoje Suvinil)”, destaca ele. Entre as parceiras da Iquine nessa área estão fornecedoras de insumos como a Dupont.

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“A Iquine possui diversas certificações de qualidade e é reconhecida como uma jogadora importante no setor”, avalia Taís Sozo Marcon, consultora da MaxiQuim Assessoria de Mercado. Com preço médio 20% abaixo do das rivais, a empresa espera fisgar o consumidor de todas as faixas de renda. Essas estratégias, aliás, foram testadas no Espírito Santo, onde a Iquine chegou em janeiro de 2009. O Estado já responde por cerca de 10% da receita total. Mas, para “seu” Delino, importante mesmo será conquistar São Paulo, a cidade que ajudou a forjar seu caráter empreendedor.

 


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