ECONOMIA
Nº edição: 656 | Economia | 30.ABR.10 - 10:00
"Sim, nós podemos"
Os azarões que venceram a disputa por Belo Monte agora querem convencer o governo que têm capacidade técnica e musculatura financeira para tocar a maior obra do País
Por Hugo Cilo
Algo mudou da água para o vinho em relação ao projeto da hidrelétrica de Belo Monte. Na semana passada, logo depois do leilão, muitos diziam que a obra seria inexequível. O motivo: uma tarifa barata demais. Agora, a usina, orçada em R$ 19 bilhões, parece ser a obra mais cobiçada do País. Quem ficou de fora, quer entrar. Os de dentro não querem sair.
E as empresas do grupo vencedor, considerado azarão, querem provar ao governo, até 23 de setembro, data da assinatura do contrato, que estão aptas a erguer a terceira maior hidrelétrica do mundo. Entre elas estão nomes tradicionais, como Queiroz Galvão, que ainda estuda se fica ou não no grupo, Mendes Júnior, que liderou a construção de Itaipu, e Cetenco, que também participou do projeto da maior usina brasileira, na década de 70. “Nós fizemos Itaipu e Guri, na Venezuela. Temos de provar mais o quê?”, indagou à DINHEIRO o presidente da Cetenco, Marco Antônio Malzoni. Murillo Mendes, presidente da Mendes Júnior, argumentou na mesma linha.

Hidrelétrica de itaipu: a usina será o principal cartão de visita das construtoras do consórcio de Belo Monte
“Belo Monte será construída com padrões de excelência em engenharia, como tudo que fizemos até hoje”, afirmou. Na lista de obras da construtora mineira constam nomes como Furnas, Xingó e Paulo Afonso – somadas, todas as usinas que contaram com participação da Mendes Júnior representam 55% da capacidade hidrelétrica brasileira. “Sozinha, ela poderia fazer duas usinas de Belo Monte ao mesmo tempo”, reforça o ex-ministro Delfim Netto, que ironiza a “fila de interessados” no projeto.
As primeiras movimentações após o leilão revelam uma disputa intensa por Belo Monte. A Andrade Gutierrez, que era favorita e perdeu, já articula, no Ministério de Minas e Energia, uma possível participação nas obras. Camargo Corrêa, OAS e Odebrecht também agem na mesma direção – e o presidente do conselho da maior empreiteira do País, Emílio Odebrecht, pediu uma audiência com o presidente Lula para discutir o assunto.

No Palácio do Planalto, prevalece a última posição do presidente – a de que a obra pode ser construída por “barrageiras dos novos tempos”. Mas essas empresas terão que provar que possuem capacidade técnica e musculatura financeira. Depois da Queiroz Galvão, a maior empresa do grupo vencedor nasceu como sua dissidência: a Galvão Engenharia. Fundada por Dario Galvão Júnior, filho de um dos fundadores da Queiroz, foi a empreiteira que mais cresceu no Brasil nos últimos anos – saltou de uma receita de R$ 145 milhões, antes do governo Lula, para os R$ 2 bilhões atuais. E o discretíssimo Dario mantém boas relações com o presidente. Recentemente, ao inaugurar o Açude Arneiroz II, em Pernambuco, Lula fez questão de homenagear o “homem responsável pela engenharia dessa obra”, citando nominalmente Dario.
Quando se soma o tamanho das sete empreiteiras que compõem o consórcio Norte Energia, constata-se que elas têm um patrimônio de R$ 4,5 bilhões, duas vezes maior do que o da Camargo Corrêa. Uma delas, a Serveng-Civilsan, criada pelo engenheiro Pelerson Penido, é hoje uma das maiores concessionárias de estradas do País, sendo grande acionista da CCR, dona, por exemplo, do Sistema Anhanguera-Bandeirantes, em São Paulo.

A Mendes Júnior, com grandes obras na área de petróleo e gás, fechou 2009 com receita de R$ 1,4 bilhão. E duas empresas ligadas ao grupo Bertin, Contern e Gaia Engenharia, têm recebido apoio do governo até para participar de outros grandes projetos – elas entrarão no projeto do trem-bala Rio-São Paulo, associadas a grupos coreanos. A única que pode realmente ser considerada pequena é a J. Malucelli, do empresário paranaense Joel Malucelli, que registrou faturamento de R$ 116 milhões no ano passado. “Mas estamos prontos para dar o salto”, garante o dono da construtora.
A decisão, no entanto, sobre quem fica ou não no projeto será da Chesf, subsidiária do sistema Eletrobrás, que lidera o consórcio, com 49,9% do capital. Curiosamente, a Chesf tem um litígio bilionário com a Mendes Júnior, em razão de atrasos nos pagamentos de uma obra construída na década de 70. Nem a Chesf nem a Mendes Júnior comentam o impasse.
“Aposto que o problema deverá ser superado num acordo. O governo está desesperado para começar a construção de Belo Monte, e as empreiteiras, as maiores interessadas, farão de tudo para não atrapalhar o cronograma”, prevê o consultor em engenharia Claudio Orlandi Lasso, especialista em hidrelétricas. “O Brasil vai parar se não tiver Belo Monte”, completa. O que ainda vai longe é a guerra entre as empreiteiras.
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