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Nº edição: 656 | Estilo | 30.ABR.10 - 10:00 | Atualizado em 22.05 - 04:02
Curvas históricas
Uma viagem, a bordo de um Mercedes SLS AMG, ao longo da lendária Carrera Panamericana, cenário de grandes rachas entre os pioneiros do automobilismo
Por Ana Flávia Furlan, de Oaxaca
Qual é a sensação de dirigir esse carro?", perguntou um dos policias federais mexicanos que escoltavam o pequeno grupo de jornalistas durante o test-drive de lançamento do novo Mercedes SLS AMG. Mas esse, certamente, era um questionamento que rondava a mente de todos os que cruzaram com aquele insólito comboio nos arredores de Oaxaca.

Nova versão: a sensação de dirigir essa máquina é um misto de força, velocidade e segurança. Puro prazer
A curiosidade estava clara nos olhos dos habitantes locais. Um povo que, nos últimos anos, está mais acostumado a cruzar com veículos militares do que com superesportivos alemães. Com cerca de 500 mil habitantes, a cidade é a capital do Estado de mesmo nome, um dos mais importantes do País. Situada a sudoeste da Cidade do México, foi declarada patrimônio histórico da humanidade pela Unesco em razão de sua rica arquitetura e ainda guarda em si um toque interiorano festivo e colorido, tipicamente mexicano.
Na praça central, uma igreja de pedras é cercada por inúmeros bares e restaurantes. Sobre as mesas, muita cerveja e uma das melhores gastronomias do País. Em torno delas, mariachis e vendedores ambulantes oferecendo peças de artesanato. Oaxaca é uma cidade turística, mas é também a segunda maior concentração indígena do país.

Bólido vintage: o Mercedes 300 SL, dos anos 50, precursor do SLS AMG, em ação pelas estradas do México
É difícil imaginar que exista uma ligação entre essa fervilhante cidade latina e a germânica Mercedes-Benz. Mas ela não só existe como é um laço forte, com marcas profundas na história da companhia. Em 1950, para comemorar a inauguração do trecho mexicano da Rodovia Panamericana (que liga as Américas, do Alasca à Terra do Fogo), o então presidente, Miguel Alemán Valdés, decidiu realizar uma competição de automóveis de cinco dias.
Com 3.114 quilômetros de extensão, o percurso ia de Tuxtla Gutierrez até Ciudad Juarez e reunia as principais fabricantes e os mais importantes pilotos da época, entre eles o argentino Juan Manuel Fangio, pentacampeão de Fórmula 1. Na terceira edição da competição, uma mudança de regulamento permitiu a entrada de veículos com apenas dois lugares e a Mercedes decidiu encarar a disputa com seu modelo SL 300, asa de gaivota. Os carros da Mercedes venceram os veteranos norte-americanos e italianos e ganharam fama mundial.
Considerada uma das provas mais perigosas do mundo, a Carrera Panamericana foi encerrada, por motivo de segurança, em 1954. Os acidentes eram comuns e um dos mais famosos ocorreu justamente com a equipe da Mercedes. Na primeira etapa da disputa, um urubu atingiu o carro do piloto Karl Kling, ferindo seu navegador. Depois de alguns minutos desacordado, Hans Klenk continuou orientando o companheiro para vencerem o trecho inicial da prova. Na parada, os mecânicos instalaram barras de proteção no pára-brisa e Klenk foi fotografado ensanguentado.

Corrida dramática: detalhe do SL 300 avariado pela colisão com um urubu durante a Carrera Panamericana de 1954.
O carro recebeu grades para proteger os corredores de outros acidentes
A importância da competição foi tamanha que muitos carros americanos foram desenvolvidos especialmente para ela e dela surgiram nomes gloriosos como os dos Porsche Carrera e Panamera. Em 1988, ela ressurgiu como uma prova de carros clássicos. Uma diversão para endinheirados colecionadores de automóveis históricos.
Tecnicamente falando, o Mercedes SLS AMG seria um neto do 300 SL Asa de Gaivota eternizado na Carrera Panamerica. Por isso, não poderia ter melhor lugar para sua apresentação mundial. O test drive percorreu um trecho da corrida, de Oaxaca a Puebla. Foram cerca de 400 quilômetros pela estrada 190, que cruza as Américas. O modelo guarda poucas semelhanças com seu antecessor.

Asas de gaivota: a tecnologia alemã da Mercedes SLS AMG contrasta com a paisagem árida da cidade turística de Oaxaca
No coração do superesportivo, um potente motor V8 de 6,2 litros de 571 cv capaz de acelerá-lo até os 100 km/h em 3,8 segundos e atingir a velocidade máxima de 317 km/h. Mas nas curvas sequenciais que formam o trecho mexicano da Panamericana, o equilíbrio foi o grande presente do carro para os pilotos.
Com excelente distribuição de peso, centro de gravidade rebaixado e enormes pneus, o SLS AMG parecia rodar sobre trilhos. Mostrou sangue quente sem abrir mão do conforto, com bancos revestidos em couro, ar-condicionado de duas zonas e um interior requintado. Respondendo à pergunta do policial federal, a sensação de dirigir essa máquina é um misto de força, velocidade e segurança. Puro prazer.
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