FINANÇAS
Nº edição: 656 | Finanças | 30.ABR.10 - 10:00 | Atualizado em 04.05 - 16:27
A copa vale uma aposta
Legal não é, mas profissionais do mercado financeiro movimentam milhões de reais na jogatina ligada ao torneio de futebol na África
Por Márcio Kroehn
Uma hora e dezoito minutos depois do fechamento da bolsa de valores, os operadores do mercado financeiro continuam agitados. Com os olhos grudados na tela do computador, eles esperam ansiosos a chegada de mensagens que confirmam a negociação de contratos específicos.
Mas os incansáveis profissionais não estão atrás das tradicionais ações de Vale, Itaú Unibanco ou Gerdau. Eles querem negociar a compra e venda de um dos 32 países que estarão na Copa do Mundo da África do Sul. Como isso é possível? Com um jogo paralelo criado por corretores, bancários e gestores que movimenta milhões de reais em prêmios para o vencedor.
O Brasil é o grande favorito e a aposta mínima vale R$ 1,2 mil
A jogatina é conhecida como bolão de apostas. E vale para as mais variadas situações, de jogos de futebol e corridas de carros à eliminação do Big Brother. Para a Copa, cada seleção tem uma cotação de zero a 100, que varia conforme as chances no torneio. A centena é o número do campeão e o zero, da zebra. Quanto mais próximo um time estiver de 100, maior é a chance de ele ser o vencedor e menor é o valor pago caso o título se confirme. As regras seguem a lógica do mercado financeiro: os prêmios são maiores para as surpresas.
Para entender como funciona, é preciso acompanhar uma conta complexa. O interessado só pode negociar lote de 50, que deve ser multiplicado pela cotação da seleção escolhida. No último boletim que a DINHEIRO teve acesso, o Brasil era o favorito e valia 24. Quem comprasse um lote da seleção de Dunga, desembolsava R$ 1,2 mil (50 x 24). Como as chances de ganho na Copa são maiores, o prêmio do Brasil é o menor. Quem tivesse comprado, receberia R$ 3,8 mil por lote caso o time canarinho confirme o título.
Por outro lado, para quem estivesse sendo ousado, as seleções africanas eram a melhor opção. O pacote com África do Sul, Nigéria, Argélia, Gana, Camarões e Costa do Marfim estava cotado a 7,5. Um lote do continente anfitrião custava, portanto, R$ 375 para um ganho de R$ 4,625 mil. À medida que a partida de estreia se aproxima, aumenta a tensão e segundos fazem diferença para um bom negócio. A variação de preços passa a ser maior e as notícias podem derrubar ou levantar uma seleção. Vale a especulação.
Ao contrário da Europa, onde jogos parecidos com esse são legalizados, por aqui tudo precisa ser feito em sigilo. Apostas desse tipo são ilegais, embora esse cassino do mercado financeiro exista há bastante tempo. Nenhum profissional comenta abertamente sobre o bolão de apostas. E, quando questionados, os operadores respondem que não conhecem a sua existência. Mas cada um deles segue a omertà do mercado de capitais, algo semelhante ao silêncio da máfia italiana. A participação é acertada no fio do bigode, ou seja, nada é escrito, nem assinado. Mensagens são trocadas apenas com as ofertas de compra e venda. E o ultimato: apague este email.
Quem falha, quebra a cadeia e provoca um mal para o próprio nome. Ele é marcado na lista do operador do bolão, profissional escolhido para cuidar do caixa e das apostas, que liquida os resultados e cobra os devedores. Se desrespeitar os companheiros, está condenado ao desemprego. Na Copa de 94, um corretor deixou em aberto uma aposta de quase US$ 50 mil e mudou-se para Nova York. Os vencedores dividiram a passagem de avião e o operador do bolão foi bater na porta do caloteiro. Voltou com o dinheiro dos vencedores e eliminou-o das futuras apostas. No mercado, só ficou a lenda.
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em 04/05/2010 16:27:56
1 - Brasil, 2 - Africa do Sul] 3 - Italia
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