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Nº edição: 654 | Estilo | 16.ABR.10 - 21:53 | Atualizado em 18.12 - 18:35
A beleza, segundo a Hermès
Para a grife francesa, ela deve ser única, universal e atemporal. É o que revela à DINHEIRO Patrick Thomas, o CEO da companhia de luxo que mais cresce no mundo
Por Leonardo Attuch, de Paris
Feio, sujo e com a barba por fazer há dias, Serge Gainsbourg acaba de sofrer um infarto. O artista que compôs Je t'aime, moi non plus, um hino ao erotismo, é socorrido por um encanador que decide encaminhá-lo ao hospital. Antes, porém, Gainsbourg emite sinais de vida e o adverte para não levá-lo com um manto tão simples. “Vá ao meu quarto e pegue um cobertor de seda Hermès”, diz. “É na cor creme.”

Acima, Laetitia Casta, como Brigitte Bardot e sob a seda Hermés, no filme sobre Gainsbourg
A cena faz parte do filme Gainsbourg, une vie heroïque, que se transformou no maior acontecimento cultural da França em 2010. Nele, narra-se a vida de um artista que conheceu a beleza de perto. De muito perto, aliás. Sem nenhum atributo físico especial, mas com muito talento ao piano e com as palavras, Gainsbourg seduziu as mulheres mais cobiçadas de seu tempo – entre elas, Brigitte Bardot.
E, mesmo num de seus momentos mais baixos, não abriu mão da seda Hermès. Hoje, tantos anos depois da cena real retratada no filme, a diva Bardot já não é mais a mesma. A seda Hermès, porém, continua imune ao tempo, assim como vários outros produtos da grife de luxo que melhor resistiu à crise econômica global. “O que nós buscamos é uma beleza que seja única, universal e também atemporal”, disse à DINHEIRO Patrick Thomas, o CEO da companhia, que fechou 2009 com receitas de R$ 4,3 bilhões.

Imune ao tempo: pintura a óleo retrata a primeira e ainda hoje a principal loja Hermès, no número 24 do Faubourg Saint-Honoré, em Paris
O número representa um feito notável. Com a retração econômica na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, o mercado do luxo sofreu, no ano passado, sua primeira queda em mais de uma década. A Hermès, ao contrário, cresceu 8,5%. Mesmo nos Estados Unidos, epicentro da crise global, registrou expansão de 20%. Nos últimos dez anos, a grife francesa dobrou de tamanho e jamais fechou um só balanço no vermelho. Nesse mesmo período, quem investiu E 10 mil em ações da empresa hoje teria E 200 mil, enquanto o índice dos papéis mais negociados na bolsa de Paris, o CAC 40, andou de lado. Qual é o segredo? Segundo Thomas, um modo único de criar e produzir artigos de beleza. “Não somos uma companhia de luxo, mas sim uma empresa de artesãos”, diz ele.
“E só entramos num negócio quando realmente podemos fazer diferença, criando algo único.” Um exemplo disso ocorreu em Paris, no início de abril, quando a empresa decidiu lançar um produto que resgata sua origem: uma sela de cavalo. Batizada de Talaris, ela tem uma suspensão em fibra de carbono que reduz o impacto entre o cavaleiro e o animal. Fundada em 1837, a Hermès nasceu como uma selaria e hoje é um ícone da elegância em vários setores, vendendo bolsas de couro, roupas, relógios, joias, lenços de seda, perfumes e até mesmo artigos refinados de mesa.

Processo artesanal: para criar 21 peças de uma coleção de mesa, o artista François Houtin trabalhou três anos
Um exemplo do modo Hermès de produzir é a última coleção de artigos de mesa, uma divisão que representa menos de 3% das receitas da companhia, mas que recebe atenção idêntica à das demais e trabalha sob a mesma concepção de arte. Para que fossem criadas 21 peças da série “As Casas Encantadas”, a empresa permitiu que o artista François Houtin, um dos mais renomados da França, trabalhasse três anos nos desenhos e no resgate de antigas porcelanas, de inspiração francesa, que eram usadas na China.
“Tive carta branca”, disse o artista. “E quis que um prato pudesse simbolizar algo usado pelas pessoas para compartilhar e dividir suas emoções.” Outro exemplo é a coleção de joias Centauro, recentemente lançada em Paris, com peças feitas em ouro, jade e diamante. Criadas pelo joalheiro Pierre Hardy, elas são fortes, tanto as masculinas como as femininas, e prestam homenagem ao mundo do cavalo. Os preços? Variam de 18 mil euros a 650 mil euros – e já há lista de espera de até seis meses.

De acordo com o CEO Patrick Thomas, o preço dos produtos Hermès deve ser encarado sob outra ótica. “Não se trata de um gasto, mas de um investimento”, diz ele. São produtos que passam de geração a geração e que têm até a função de reserva de valor. Existem produtos da grife, como a bolsa de mão Constance, em pele de jacaré, ou a bolsa Kelly, que nunca saíram de moda.
E que, segundo Thomas, duram décadas. O presidente da Hermès acredita ainda que as grandes fronteiras de expansão do mercado do luxo no século XXI serão os países emergentes – com destaque para China, Brasil e Rússia. A primeira loja brasileira, inaugurada no ano passado, em São Paulo, acabou se tornando um case de marketing para a grife francesa. “Vendemos em um mês o que era esperado para o ano inteiro”, diz Thomas. O que, segundo ele, revela a existência de um grande potencial, ainda inexplorado no País. Novas lojas, certamente, estão a caminho. “A busca por objetos belos, que fazem parte do nosso dia a dia, é universal”, diz ele.
“Não temos concorrentes”
Em entrevista à DINHEIRO, o CEO da Hermès, Patrick Thomas, revela como a empresa enfrentou a crise global.
DINHEIRO – Como a Hermès cresceu em 2009, um ano de retração no luxo?
PATRICK THOMAS – Não somos uma empresa de luxo, mas uma casa de artesanato excepcional, que produz objetos que resistem ao tempo. Um dos nossos maiores best-sellers, a bolsa Kelly foi criada em 1927. E hoje continua à venda. Mas nós temos também um forte instinto criativo, o que nos permite mesclar a tradição com a inovação. Nosso segredo é a combinação única entre artesanato e criatividade.
DINHEIRO – Isso explica a durabilidade?
THOMAS – Sim. Não somos uma empresa de moda ou de tendências. Os objetos Hermès pertencem à sua época. E um produto concebido há 20 anos continua atual.
DINHEIRO – Como foi o desempenho da empresa em seus diversos mercados?
THOMAS – Tivemos queda apenas no Japão, que combina crise econômica com queda demográfica. Mas crescemos na Europa, nos EUA e muito nos emergentes.

Patrick Thomas: "Não somos uma empresa de luxo, mas uma casa de artesanato excepcional"
DINHEIRO – Quais são as fronteiras de expansão nos próximos anos?
THOMAS – A China, evidentemente, mas também o Brasil, o México, os países do Oriente Médio e a Rússia. Nós acreditamos muito no conceito dos BRICs, com a exceção do I, porque a Índia tem sua própria tradição de artesanato de exceção.
DINHEIRO – Nos países emergentes, suas vendas ainda não são restritas ao universo dos ultrarricos?
THOMAS – Não classificamos nossos clientes por classes sociais. O nosso cliente é aquele que tem o gosto pelo objeto benfeito. Tenho a minha carteira Hermès que já está comigo há 23 anos e que continua bela. Aliás, a cada ano mais bela.
DINHEIRO – O que se diz é que sua estreia no Brasil foi impressionante.
THOMAS – De fato. Vendemos em um mês o que estava previsto para um ano. Foi inacreditável. Três semanas depois da inauguração, não havia mais nada sobre as prateleiras. O que revela um potencial extraordinário de mercado. Além disso, várias qualidades e valores do Brasil são abraçados pela Hermès, como a cor e a diversidade, por exemplo.
DINHEIRO – Quais são as consequências gerenciais de um modelo de artesanato de exceção? Vocês, por exemplo, terceirizam muito pouco.
THOMAS – Pouquíssima coisa aqui é terceirizada e a maior parte dos produtos sai dos nossos ateliês. Alguns de nossos ternos, por exemplo, são costurados na Itália, sob nossa supervisão. Mas as coleções de moda masculina são criadas por Jean-Paul Gaultier e assim fazemos diferença para os nossos clientes. Não entramos em mercados em que isso talvez não ocorra.
DINHEIRO – Por exemplo?
THOMAS – Óculos escuros. Se quiséssemos lançar uma coleção de óculos com a marca Hermès, venderíamos bastante e poderíamos fazer muito dinheiro. Mas não é nosso objetivo apenas lucrar.
DINHEIRO – Aqui em Paris, vocês estão lançando uma nova sela para cavalos, o que talvez pareça estranho para muitos que não conhecem o mundo Hermès. Qual é a importância disso?
THOMAS – É crucial. Nós nascemos como uma selaria e o cavalo, de certa forma, representa a alma da empresa. Logo no início, nosso fundador, Thierry Hermès, desenvolveu selas e arreios que foram premiados como os mais belos do mundo. De certa forma, estamos nos reencontrando com o passado e projetando o futuro.
DINHEIRO – O que os brasileiros devem esperar da Hermès?
THOMAS – Muito. A resposta do mercado foi excepcional. Teremos novas lojas porque sabemos que há uma demanda universal pela beleza e por produtos de boa qualidade. E o Brasil é uma prioridade.
DINHEIRO – O preço dos seus produtos não impede a expansão do mercado?
THOMAS – Nosso preço reconhece o valor artesanal de cada objeto. E nós não temos concorrentes. Não existe outra Hermès. Dito isso, eu ressalto que um produto Hermès é um investimento, não uma despesa. Uma beleza que resiste ao tempo.
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www.ligueimovel.com.br
em 24/04/2010 16:24:29
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