ECONOMIA
Nº edição: 653 | Economia | 09.ABR - 21:00 | Atualizado em 04.05 - 16:31
Quanto custa acabar com isso? Bem menos do que você imagina
A tragédia das chuvas no Rio poderia ter sido evitada com investimentos preventivos de R$ 550 milhões. Agora, após as mortes, a conta será pesada
Por Hugo Cilo
Às 16h30 da segunda-feira 5, o céu escureceu no Rio de Janeiro. As nuvens escuras indicavam que um temporal cairia sobre a cidade de dez milhões de habitantes. Mas ninguém imaginava o que estava por vir: 288 milímetros de chuva, a maior tempestade dos últimos 44 anos. Poucas horas depois, o cenário era desolador.

Niterói, a cidade mais afetada: deslizamentos de terra em áreas ocupadas ilegalmente já haviam deixado 147 mortos
e milhares de desabrigados, até a noite da quarta-feira 7
Ruas debaixo d’água, carros submersos, trânsito completamente travado, aeroportos fechados, 14 bairros sem luz, trens e ônibus imobilizados pela tragédia. A segunda maior metrópole do País, escolhida para sediar a Olimpíada de 2016, entrou em colapso. Mas havia ainda algo pior.
Arrastadas pela força das águas, as terras dos morros desabaram encosta abaixo. Os deslizamentos deixaram um rastro de destruição que lembrou áreas atingidas por tsunamis. E fizeram algo ainda mais devastador: provocaram 147 mortes e deixaram três mil pessoas desabrigadas, de acordo com levantamento feito até a noite da quarta-feira 7. A catástrofe não foi resultado apenas da fúria da natureza. Ela, acredite, poderia ter sido evitada – e com muito menos esforço e recursos do que se pode imaginar.
Embora atípica, a chuva que castigou o Rio de Janeiro e os municípios vizinhos, como Niterói, expôs as deficiências estruturais da cidade e a incapacidade dos governos em prevenir e combater enchentes e deslizamentos. Provou também que a urgência de investimentos em infraestrutura urbana se tornou mais do que uma questão política.

Cenário de destruição: as águas arrastaram carros em várias regiões da cidade, invadiram o comércio, destruíram casas,
avenidas e estradas. A prefeitura pede R$ 370 milhões para a reconstrução
Trata-se, acima de tudo, da sobrevivência de centenas, talvez milhares, de brasileiros. Sem esses investimentos, novas calamidades virão, mais vidas serão ceifadas. Qual o valor dessa conta? DINHEIRO consultou especialistas em urbanismo, usou estimativas da Prefeitura do Rio e contabilizou dados da Defesa Civil da cidade.
Para resolver o problema de imediato, o que significa retirar 13 mil pessoas que hoje vivem em áreas de risco e executar as obras necessárias para mitigar os efeitos das enchentes, seriam gastos aproximadamente R$ 550 milhões (leia quadro). Esse dinheiro seria desembolsado principalmente na construção de novas moradias para os que vivem perigosamente nas encostas, em piscinões construídos em áreas suscetíveis a enchentes e em sistemas de tubulação capazes de fazer com que a água da chuva que cai sobre os morros seja levada para os rios e o mar, em vez de arrastar casas e as pessoas que estão dentro delas.

O ex-ministro Geddel: do orçamento previsto para o combate preventivo às enchentes, ele destinou
menos de 2% para o Rio. A maior parte foi para a Bahia
Os tais R$ 550 milhões representam muito dinheiro? Vidas, é bom que se diga, não têm preço. Afora esse aspecto, pode-se dizer que o montante é uma ninharia perto da magnitude do problema e dos impactos nefastos que ele causa. Para efeito de comparação, os Jogos Olímpicos do Rio estão orçados em R$ 30 bilhões.
Portanto, para resolver o problema dos deslizamentos e das enchentes no Rio, a autoridade pública gastaria menos de 2% do valor previsto para a Olimpíada. Sob qualquer comparação que se faça, os R$ 550 milhões significam pouco, quase nada. O PAC 2 está orçado em cerca de US$ 1 trilhão. Outro parâmetro: a reforma do Estádio do Maracanã para a Copa de 2014 é estimada em R$ 400 milhões. Ou seja, todas as obras de adequação do Rio para enfrentar tempestades sairiam apenas um pouco mais caras do que o que será desembolsado num campo de futebol.
Por que ninguém se mexe? Em primeiro lugar, é preciso apontar alguns equívocos. No ano passado, o Estado do Rio de Janeiro recebeu apenas 1%, o equivalente a mísero R$ 1,6 milhão, das verbas do Ministério da Integração destinadas ao Programa de Prevenção e Preparação para Desastres. E mais: do total de R$ 646,6 milhões da dotação orçamentária da União prevista para programas de combate a enchentes, só 22% (R$ 143,7 milhões) foram transferidos pelo governo federal aos Estados.
Apenas cinco prefeituras do Estado do Rio – Campos dos Goytacazes, Niterói, Angra dos Reis, Rio e Resende – viram a cor desse dinheiro. Um estudo da ONG Contas Abertas mostra que a maioria dos recursos da Integração Nacional para prevenção e preparação contra desastres foi alocada a municípios da Bahia. Em 2009, último ano da gestão do ex-ministro Geddel Vieira Lima, que deixou o cargo para disputar o governo do Estado, cidades baianas receberam R$ 69,4 milhões em recursos – valor 40 vezes superior ao que foi destinado para o Rio.

“É bom lembrar que investimos R$ 1,8 bilhão para emergências, entre 2008 e 2009, para todos os Estados afetados pelas chuvas”, diz o ministro João Santana, substituto de Geddel na Integração Nacional, sem dizer quais foram os Estados que receberam tais recursos. A priorização de gastos corretivos em detrimento dos preventivos é justamente um dos principais fatores que perpetuam problemas das enchentes.
O geógrafo Gilberto Pessanha, da Universidade Federal Fluminense, defende investimentos contínuos como solução. “Esse episódio revelou que o Rio de Janeiro é frágil. Não está preparado nem para a metade da chuva que ocorreu”, diz. Para o urbanista carioca Aníbal Sabrosa, da Raf Arquitetura, a contribuição das águas para a tragédia do Rio de Janeiro é mínima. “Chuva não é surpresa. Todos sabiam que onde alagou e houve deslizamentos são locais problemáticos”, disse ele.
“A salvação do Rio está nos rios, que são maltratados. O estrago mostra que falta investimento em infraestrutura e que não há políticas urbanas e habitacionais. As pessoas constroem casas onde querem”, diz o urbanista. Uma proposta do governador Sérgio Cabral e do prefeito Eduardo Paes para combater a ocupação irregular, a construção de muros nos morros, medida que teoricamente evitaria o surgimento de barracos em áreas de riscos, foi duramente criticada por Ongs, que chamaram a ideia de segregacionista.
Uma das soluções pensadas pelo governo e pela Prefeitura do Rio para o problema dos deslizamentos é transferir os moradores de encostas para regiões de menor risco. Um plano da Secretaria Municipal de Obras prevê R$ 70 milhões para a remoção de 15 mil famílias de áreas de risco até 2012 – desde o ano passado, apenas 750 dessas famílias mudaram de endereço.

Professora do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília, Noris Diniz diz que uma questão urgente – e até agora desprezada pelos políticos – é a implantação de um sistema de monitoramento que evite mortes. “Não há orientação para a população. Em lugares como a Califórnia e o Japão, onde há risco de terremotos, a população sabe como agir. Aqui o risco é de deslizamentos, que são previsíveis, mas ninguém sabe o que fazer antes ou enquanto eles acontecem.”
O urbanista Luiz Eduardo Indio da Costa diz que existem inúmeros estudos que apontam soluções para o problema, mas que ninguém se interessa em colocá-los em prática. “Há muita coisa que não saiu do papel, por falta de vontade política”, afirma. O ministro das Cidades, Marcio Fortes, não concorda com esse ponto de vista. “Estamos consertando o passado, correndo atrás do prejuízo. Por exemplo, já estamos repensando os canais, para que comportem volumes maiores de chuva.”
Mesmo que o Rio de Janeiro reconstruísse as áreas destruídas da noite para o dia, o prejuízo à reputação da cidade é irreparável. As imagens da destruição e a dimensão dos estragos chegaram ao Comitê Olímpico Internacional. “Nós estamos em contato com o Comitê Organizador do Rio 2016 para saber que impacto essa tragédia pode ter na preparação para Jogos Olímpicos”, afirmou o porta-voz do COI, Andrew Mitchell.
Com reportagem de Guilherme Queiroz e Rodolfo Borges
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- comentários (49)
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Ligador
em 04/05/2010 16:31:25
a maior contradição disso, foram os artistas da globo no programa do faustão dando moral e preocupação com a tragedia. Se tivessem preocupados, sairiam de suas coberturas em copacabana pra ajudar no braço... Bando de inuteis, foi a maior palhaçada dos artistas que querem ajudar o mundo. Tchau.
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Francisco Rodrigues Lira
em 12/04/2010 00:49:00
Sem dúvida,é uma triste tragédia, vamos lamentar por muitos anos as tristes perdas. Mas, que pelo menos agora e não só pela Copa e as Olimpíadas, as verbas e as preocupações se voltem para o Rio, corrigindo as injustiças passadas, quando da saída da capital de lá. Força e Coragem Rio de Janeiro.
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Carlos Eduardo
em 10/04/2010 20:59:02
'Tudo bem, todo mundo tá triste, comovido, etc, mas qual é? Nas eleições é sempre a mesma coisa, o povo sabe que o sujeito é bandido, canalha, etc, diz que: ''Todos os políticos são iguais', 'Todos roubam' e vendem o voto. Depois reclama quando acontecem as tragédias. Ninguém entende o brasileiro'.
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paolina
em 10/04/2010 13:50:15
Encaminhei representação arguindo ilegitimidade Olimpiadas Proc 13842/09 (PJ3TCICAP - 3a PROM JUST TUTEL COLET DEFES CIDADANIA Argumentei Tragédias anunciadas Desfiguração do Rio por 40anos desmata/ ocupaç morros morad clandest RIO NÃO VAI SUPORTAR. Foi arquivado de plano. Quem quiser pode reativar!
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paolina
em 10/04/2010 13:35:19
Minst Púb 13842/09 PJ3TCICAP 3a PROM JUST TUTEL COL DEFES CIDAD ilegitim Olimp16 Povo Não consultd CONVENIÊNC RIO DESFIG GDE TRANSTOR HABIT AUTORI/ excluiu DEBAT s/ CIÊNCIA d DIFICUL REFEREND AVALIAR GRAU ACEITABILI/ EFEIT DESASTR MEDO PÂNIC DESCAS ABANDON DESMATA/ AVANÇ min min * arquivad
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edna pinto
em 10/04/2010 13:19:22
Excelente artigo!! O ideal é que já tivessem começado a prevenção antes, mas sempre acontece depois das tragédias.....Esqueceram de salientar também a necessidade de,depois da retirada de todos as famílias dos locais de risco, a execução da recuperação das áreas degradadas. Acredito em R$50 milhões
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Neiva Luz
em 10/04/2010 13:04:54
Excelente matéria da Istoé! A gente nem sempre conhece a fundo o tamanho da negligência e má-fé dos nossos governantes. Que país miserável de políticos. meu Deus! E como somos tolos quando os escolhemos!!!!!! Não acredito nunca mais nesse PT e na corja que ele abriga.
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laercio
em 10/04/2010 12:49:44
como diz o nosso "presidente" isso e joguinho politico de baixa categoria, o repasse de verbas para a bahia não. piada. nada contra os bianos e sim contra a roubalheira deste pais. mas agora e hr de mudar.
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Padre Quevedo
em 10/04/2010 12:25:08
Ação preventiva no Brasil? Isso non ecxiste.
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Fernando
em 10/04/2010 12:05:54
Pois é. Na verdade o povo merece o governo que tem. Vibram com uma olimpiadas, mas cade que cobra melhoria??? 2% do orçamento das olimpiadas, e nada vai ser feito. Mas as olimpiadas vai rolar muito dinheiro. Com tanto problemas no Brasil... e jogar dinheiro no lixo como olimpiadas/?????
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blackão
em 10/04/2010 12:05:29
Percebo que alguns desses comentários são altamente discriminatórios, o que tem haver os nordestinos com os problemas das chuvas ai no RJ, por acaso somos nós que estimulamos as pessoas morarem em lugares de risco?Quem manda, só pensar em futebol, mulata e cerveja.Pão e circo para o povo,samba!!!
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Zé Bá
em 10/04/2010 12:04:04
Povo é pior que boiada, boiada de vez enquando estoura, povo é massa de manobra de politicos e parasitas que nada fazem e vivem bem neste país. Resumindo; os trouxas aumentam cada vez mais e em progressão geométrica neste Brasil.
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Beto
em 10/04/2010 11:55:18
A verdade é que essa revista merece os leitores que têm. Até porque é editada em São Paulo.
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Beto
em 10/04/2010 11:53:36
Continua o comentário da Revista ISTO É, de 23/12/2009: "O gelo causou colapso no sistema de transporte, com aeroportos e linhas de trens interditados." Com milhares de anos de civilização, a Europa ainda não aprendeu a conviver com a neve? Revista e notícias totalmente tendenciosas.
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ROBERTO
em 10/04/2010 11:52:25
E O POVO CONTINUA DEITADO EM BERÇO EXPLENDIDO, ENQUANTO OS POLÍTICOS CORRUPTOS FAZEM A DIVISÃO, ENTRE ELES, É CLARO, NA NOSSA FRENTE, SEM QUALQUER CONSTRANGIMENTO !!!!!!!! QUE COISA ABSURDA !!!!!!!!!!!!!!
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Beto
em 10/04/2010 11:49:44
Revista ISTO É, de 23/12/2009, pág. 25: Clima polar no Hemisfério Norte com temperaturas inferiores a 20 graus negativos. Na Europa o rigor do frio se fez sentir: mais de 100 mortos, com vítimas fatais sobretudo na Polônia".
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Simplício Dade
em 10/04/2010 11:46:19
SABE ONDE ESTÁ O DINHEIRO PRÁ SE EVITAR CERTAS TRAGÉDIAS PRÉ ANUNCIADAS ? NAS MÃOS DE DIVERSOS POLÍTICOS CORRUPTOS; ALGUNS POSAM DE SANTOS, MAIS SÃO OS PIORES! PROVAS À EXAUSTÃO, MAIS NUNCA SÃO SUFICIENTES. VAMOS VOTAR NOS MESMOS E DEPOIS FICAR CHORANDO ANOS A FIO. E O POVO NUNCA ACORDA ...........
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A. Costa
em 10/04/2010 11:44:52
Tem que ter olimpiada, copa do mundo, gastar mais dinheiro na cidade da musica, acabar com o autodromo do Rio e ali construir mais estadios e áreas de uso coletivo Em Niteroi investir em obras que embelesam a cidade e são vistas Morro do Bumba ninguem vê Desisto! Não é assim que o povão quer?
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Senhor velhinho
em 10/04/2010 11:41:43
Materia muito boa!!! Tem que esfregar essa materia na cara dos politicos que estão em Brasilia!!! VAMOS AGIR BRASIL.
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