ECONOMIA
Nº edição: 652 | Economia | 02.ABR - 13:00 | Atualizado em 12.04 - 06:05
Uma usina na mira de Cameron
O cineasta que filmou Avatar quer impedir a construção da usina de Belo Monte, uma obra de R$ 30 bilhões na Amazônia. E falou com exclusividade à DINHEIRO sobre sua nova cruzada
Por Denize Bacoccina
Autor dos dois maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos, os filmes Titanic e Avatar, o diretor James Cameron tem uma nova causa. Quer usar o seu prestígio para liderar uma cruzada contra a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, e chegou até a escrever uma carta ao presidente Lula, pedindo que interrompesse a obra, de R$ 30 bilhões, que será uma das maiores do Brasil nos próximos anos.
Convidado a participar do Fórum Internacional de Sustentabilidade, em Manaus, promovido pelo Lide, com apoio da DINHEIRO, ele também andou pelo rio Xingu por dois dias, visitou Altamira e se impressionou com a semelhança entre o local e as paisagens mostradas em Avatar. Voltou disposto a se transformar numa espécie de frei Luiz Flávio Cappio, aquele que fez até greve de fome tentando impedir a transposição do rio São Francisco.

James Cameron: o cineasta que mais ganha dinheiro no mundo diz que seu trabalho
é semelhante ao de um presidente de empresa
A diferença é que o instrumento de Cameron não será seu corpo, mas sua notoriedade. “Eu sou um artista, eu trabalho na mídia. Eu posso ser ouvido”, disse ele em entrevista exclusiva à DINHEIRO, pouco antes de encerrar a visita de seis dias que fez ao Brasil. Cameron volta para casa preocupado com o futuro dos índios que vivem na região do Xingu. “É uma história real de Avatar. É uma parábola de Pandora”, compara, citando o filme em que os habitantes originais de Pandora são ameaçados por invasores da Terra.
O cineasta diz ainda que, embora a floresta de Avatar tenha sido criada em computador, muitas plantas e animais foram inspirados em formatos e texturas da Amazônia. E confirma que Avatar 2, que ele já está planejando, terá paisagens da selva brasileira. Mas ele descarta a criação de um grande set no meio da floresta. “O que nós não faremos é vir para cá com uma equipe enorme, um monte de caminhões, câmeras e causar um enorme impacto. Isso seria estúpido.
O que nós podemos fazer é desembarcar com uma equipe pequena, filmar a natureza e integrar isso ao computador”, explica. Apesar do faturamento recorde de US$ 2,68 bilhões com o filme, ele diz que não fez Avatar pensando em dinheiro, mas em passar a mensagem ambiental que o preocupa há tempos, antes de virar moda. E compara a produção de um filme a uma empresa iniciante. “É um modelo de negócio muito diferente. Cada filme é uma nova empresa, só que com tempo definido de duração”, afirma.
DINHEIRO – O sr. é dono das duas maiores bilheterias da história do cinema, Avatar e Titanic. Como é ganhar tanto dinheiro com seus filmes?
CAMERON – É interessante, porque não é óbvio que Titanic seria um sucesso tão grande. Foi uma surpresa. Eu pessoalmente ganhei dinheiro suficiente com Titanic para ficar os oito anos seguintes me dedicando à pesquisa para fazer Avatar. Eu escrevi Avatar em 1995, mas naquela época ainda não existia a técnica para fazer este filme. Começamos o filme em 2005 e trabalhamos nele até 2009. Achávamos que faríamos sucesso, mas não tínhamos ideia de que seria desse jeito. Eu acredito que para o filme fazer um sucesso desses em todas as culturas, todas as línguas, é porque se conectou em todos os níveis, inclusive no nível espiritual. Não é comum um filme de entretenimento tratar desses assuntos. Não fiz este filme para ser um sucesso comercial, mas porque queria tratar do assunto.
DINHEIRO – O sr. acha que só conseguiu o apoio do estúdio para fazer Avatar por causa do sucesso de Titanic?
CAMERON – Sim. Se Titanic não tivesse sido um grande sucesso, eles talvez não confiassem em mim para uma empreitada desse porte. De certa forma Avatar só foi possível por causa de Titanic. Um levou ao outro, embora sejam totalmente diferentes. Os dois são filmes em que se gasta dinheiro para ganhar dinheiro.

"Rodar um filme, como Avatar, é como dirigir uma empresa. tenho que apresentar um bom plano de negócios e
de forma criativa.a diferença é que um filme tem um prazo definido de duração"
DINHEIRO – Como diretor, o sr. tem que gerenciar um orçamento milionário e milhares de pessoas. O sr. se sente um executivo de empresa?
CAMERON –Absolutamente. Eu tenho que me apresentar desta maneira. Eu tenho que revelar meu caso quando vou fazer um filme. Tenho que mostrar um plano de negócios e tenho que fazer de forma criativa.
DINHEIRO – É difícil administrar tantas pessoas?
CAMERON – É difícil, mas é preciso ter uma boa equipe de administração, com o tipo correto de liderança. Um filme não é um negócio normal. Cada filme é uma nova empresa. A diferença é que tem um tempo definido.
DINHEIRO – O sr. gostou da viagem pela Amazônia?
JAMES CAMERON – Gostei muito, mas de uma maneira diferente da maioria das pessoas. Aqui, eu me sinto desafiado pela responsabilidade de fazer alguma coisa. Eu achei que estaria fazendo isso ao rodar Avatar, mas não tinha me dado conta da escala dos desafios.
DINHEIRO – Fazer Avatar abriu sua cabeça para as questões ambientais ou o sr. já era consciente antes?
CAMERON – Muito consciente. Avatar não foi um projeto que chegou até mim. É um projeto meu. São ideias que desenvolvi durante toda a minha vida. Há 15, 20 anos, ainda não havia uma grande discussão sobre mudanças climáticas, como hoje. Avatar é uma história que pode ser vista como uma parábola do período colonial na América do Norte e na América do Sul. Na América do Sul, está acontecendo agora. Na América do Norte já aconteceu, o dano já foi feito.
DINHEIRO – Os críticos da proteção excessiva ao meio ambiente argumentam que os povos indígenas têm o mesmo direito que a população urbana aos benefícios do desenvolvimento.
CAMERON – Eles não querem o que nós temos. Eles querem a vida deles. Do jeito deles. Eles querem ter reconhecido seu direito de tomar conta do seu espaço. Eles não querem o que nós queremos, e nós precisamos redefinir o que nós queremos da vida. Nós vivemos numa sociedade em que desenvolvemos mais e mais tecnologia, usamos mais e mais energia. Precisamos valorizar a natureza, precisamos valorizar as tradições que eles têm.

"Os povos da floresta, como as tribos do Xingu, não querem a nossa vida. Querem viver do modo deles.
E temos que repensar o nosso modo também"
DINHEIRO – E os povos que aspiram ao desenvolvimento? Não gostariam de ter as facilidades que temos nas cidades?
CAMERON – Não sou contra as pessoas receberem educação, saúde. Mas eu acho que construir uma grande usina hidrelétrica como Belo Monte não vai beneficiar as pessoas. Isso não vai trazer saúde, educação. A expulsão das pessoas de suas terras, o isolamento de grandes seções de terra, o alagamento de áreas, tudo isso vai trazer doenças e não melhoria de vida.
DINHEIRO – O sr. pediu ao presidente Lula que parasse a construção de Belo Monte, dizendo que os efeitos sobre a população serão idênticos aos sofridos pelos Na'vi em Avatar. Depois de ter visitado o local da obra, o sr. ainda pensa assim?
CAMERON – Estou sentado ao lado de um dos grandes ecologistas, que tem me dado informações sobre isso. Eu não sou especialista. O que eu sei é apenas o que eu vi. E as pessoas que moram lá acreditam que a vida delas será destruída com esse projeto. Eu acho que esta é uma história real de Avatar. É uma história de Pandora. Há uma série delas ao redor do mundo. Na Índia, em Miamar, na Indonésia, em outros lugares na região amazônica, Equador, Peru.
DINHEIRO – O sr. está preparado para fazer o lobby por eles?
CAMERON – Com certeza. Eu sou um artista, eu trabalho na mídia. Eu posso ser ouvido, tenho voz.
DINHEIRO – O governador do Amazonas, Eduardo Braga, quer convencê-lo a filmar o próximo Avatar no Brasil. O sr. vai atender ao chamado?
CAMERON – Com certeza. Agora que nós fizemos o filme, nós sabemos como integrar imagens reais e imagens de computador. Obviamente queríamos fazer um filme de fantasia, baseado em outro planeta. Então não temos uma floresta brasileira, mas uma floresta alienígena. Nós vimos maravilhas que podemos integrar ao Avatar 2. Mas o que nós não faremos é vir para cá com uma equipe enorme, um monte de caminhões, câmeras e causar um enorme impacto. Isso seria estúpido. O que nós podemos fazer é chegar com uma equipe pequena, filmar a natureza e integrar ao computador.
DINHEIRO – Então podemos dizer que Avatar 2 será filmado na Amazônia ou ainda não está decidido?
CAMERON – Uma pequena parte dele. Não quero exagerar, porque vamos continuar usando as técnicas de animação. Nós já usamos muitas plantas e espécies existentes na Amazônia integrados à computação no primeiro filme. Em alguns casos mudamos a escala, para que ficassem maiores. Mas em muitos casos usamos a textura real de animais pequenos. Por exemplo, as criaturas que voam.
DINHEIRO – Será possível reconhecer a Amazônia brasileira no próximo filme?
CAMERON – Não, será como o primeiro. Pandora é um mundo à parte. É uma floresta perfeita. Nós nos inspiramos muito na Amazônia. Quando fomos passear no meio da floresta, é realmente impressionante como se parece com o filme. O tipo de luz é o mesmo. Eu pensei que estivesse no meio do filme. Mas também nos inspiramos em outros lugares. As montanhas flutuantes foram inspiradas em Guilin, no sul da China. Pesquisamos o mundo por referências. Avatar é uma celebração da beleza da natureza em nosso planeta.
DINHEIRO – O próximo Avatar também será sobre o oceano?
CAMERON – A floresta será parte importante da história, mas vamos também incorporar outros ambientes. Entre eles as criaturas do oceano.
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- comentários (13)
- Sua opinião
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Jose H.
em 12/04/2010 06:05:07
A usina de Belo Monte e um desastre!! A Amazonia e patrimonio de tudos os brasileiros e nao pode ser vendido para empresas!!! Obrigado Cameron por ajudando salvar nosso Amazonia.
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CARLOS
em 09/04/2010 10:13:16
CAI FOOOOORA VELHOTE!! NÓS VAMOS NOS DESENVOLVER E NÃO É TU QUE VAI VIR APITAR POR AQUI! VAMOS BOICOTAR TEU FILME IDIOTA TBM! VAI PLANTAR BATATA,É DE CHORAR ESSA TUA TENTATIVA DE ATRAVANCAR O DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA!! VAI TU CATAR CARANGUEIJO NA ORLA DA CALIFÓRNIA E VIVER COMO ESTAS PESSOASVIVEM
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Wanderley Graeff
em 09/04/2010 09:01:28
Esses americanos petulantes que vão dar palpites em seus terreiros
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frossard
em 08/04/2010 10:16:50
O capital manda em tudo. A concepção de nação soberana serviu bem no tempo das economias nacionais, nas quais os capitalistas de uma nação vendiam ao mercado de outra nação tendo como "protetor" a figura do Estado. Assim, filtrava-se a possibilidade de concorrência. Hoje o capital é global...
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Marcelo
em 06/04/2010 17:43:51
Gostaria de saber se o Sr. Cameron tambem escreveu carta ao presidente dos Estados Unidos solicitanto redução de emissão de puluentes.
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Daniel
em 05/04/2010 06:39:44
Vai se preocupar com o CO2 que os EUA emitem.
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Tomás Hugo Ribeiro
em 05/04/2010 01:17:24
É engraçado, ele fez sucesso em um filme e se acha com as credenciais necessárias para opinar sobre tudo: saúde, educação, estratégias de crescimento, relação com os indígenas, etc... Já que você é tão engajado na causa ambiental eu pergunto: você foi a Copenhagen, Cameron?
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André Terra
em 04/04/2010 22:16:16
Difícil é superar os interesses corporativos, econômicos e políticos por trás de uma obra desse porte. Duvido que com R$ 30 bi não daria para implantar uma usina tão eficiente e com impacto menor ao meio-ambiente. Mas com certeza a partilha entre políticos, empreiteros e lobbystas já está feita.
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Jober Correa
em 04/04/2010 16:21:10
As pessoas que escrevem esses comentarios ridículos deveriam acordar para a realidade e ver o mundo e as de maneira global. Nao limitar a ser de um País somos seres do mundo e toda ajuda positiva é bem vinda a mudar o caos.
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Eduardo T. Küll
em 03/04/2010 17:11:24
Exitem técnicas para diminuir o impacto de construções como Belo Monte, que sejam exigidas. É fato corriqueiro que no fim das contas, aqueles povos "preservados" acabam vendendo madeira, terras, etc. para pessoas da cidade, de forma irregular e ilegal, que a usina seja usada para ordernar a ocupação
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Pavel
em 03/04/2010 11:41:08
Interessante que os EUA destruiram os indios de la no processo de ocupacao ne. E muito facil dar pitaco no pais dos outros. Seria muito interessante ouvir o que ele tem a dizer sobre a destruicao que os EUA tem causado em paises como o Iraque por exemplo e sobre as taxas the CO2 que eles emitem.
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Paulo Pedro
em 03/04/2010 10:20:50
vai cuidar do seu pais ,pois vcs tem agora mais de 30 milhoes de pobres,uma divida de 12 trilhoes de dolares,mais um recado se vc estender as suas maos para a amazonia, nos brasileiros iremos cortalas,go home yanke de m......
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