ECONOMIA
Nº edição: 224 | 30.NOV.01 - 10:00 | Atualizado em 19.02 - 01:46
MUDANÇA TRIPLA
Reichstul sai, Francisco Gros entra na Petrobras às vésperas da competição e Eleazar Carvalho assume um cofre de R$ 29 bilhões no BNDES
Por Leonardo Attuch e Shirley Emerick
No dia 1º de janeiro de 2002, a Petrobras, maior empresa brasileira, finalmente conhecerá uma palavra que, nos últimos 50 anos, não fez parte do seu vocabulário: competição. Qualquer distribuidora de petróleo poderá importar e revender combustíveis no mercado interno. Os preços também não serão mais controlados pelo governo. É a etapa final de um processo de reestruturação do setor de petróleo, que começou há dois anos e meio, quando Henri Reichstul foi convidado pelo presidente Fernando Henrique para assumir a gestão da Petrobras. De lá pra cá, o valor de mercado da empresa partiu de US$ 8 bilhões e chegou a mais de US$ 30 bilhões. Mas no fim da festa, por uma combinação de desgaste pessoal e pressões familiares, Reichstul preferiu deixar a Petrobras. “Não tive tempo de comer o pudim, mas a empresa ficou em ótimas mãos”, disse Reichstul à DINHEIRO, na quinta-feira 6, depois de uma reunião de seis horas em que a diretoria da companhia avaliava a compra de ativos no exterior. No dia 21, Reichstul irá passar o bastão a outro
financista, Francisco Gros, que terá apenas o trabalho de cruzar os 500 metros que separam as sedes do BNDES e da Petrobras, ambas na Avenida Chile, no centro do Rio de Janeiro. “Ele conhece a empresa, já era do conselho, entende profundamente de administração pública e ainda tem acesso ao mercado financeiro internacional”, avalia Reichstul.
Discretíssimo, Gros notabilizou-se pelo estilo britânico e pela capacidade rara de atravessar governos sem criar inimizades. Sem qualquer vínculo político direto, ele foi diretor da Comissão de Valores Mobiliários no governo de José Sarney e ainda presidiu o Banco Central nos mandatos de Fernando Collor e Itamar Franco. Depois disso, tornou-se o principal executivo do Morgan Stanley para a América Latina, trabalhando em Nova York. Um de seus méritos é a habilidade para montar equipes talentosas. Foi ele quem introduziu Armínio Fraga na vida pública, ao convidá-lo para a diretoria internacional do BC em 1991. No BNDES, seus dois principais assessores também eram estrelas do mercado financeiro: Eleazar Carvalho, ex-Garantia, e Octavio Castello Branco, ex-JP Morgan. O primeiro, que comandava a empresa de participações do BNDES, será seu sucessor. Na bagagem, ele carrega a bem-sucedida operação de pulverização das ações da Petrobras, com uso do FGTS. O projeto era repetir a dose com a venda de Furnas e de outras geradoras de energia, mas o BNDES esbarrou nas resistências políticas e no racionamento, que sepultaram a privatização. “Vou apenar dar continuidade ao trabalho que o Gros já começou”, disse Carvalho, após ser confirmado no cargo pelo ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, que também lamentou a saída de Gros. “Perdi um grande colaborador”, afirmou.
No BNDES, Carvalho agora cuidará de um orçamento anual de R$ 29 bilhões e uma figura central nas discussões de política industrial em pleno ano eleitoral. Francisco Gros chega com prestígio total à Petrobras, até por ter emplacado seu sucessor, e com apoio do mercado financeiro e do meio empresarial. “Para a Petrobras, sua escolha de Gros foi um achado e a empresa continuará blindada”, avalia Eduardo Eugênio Gouveia Vieira, presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro e da Ipiranga. Mas Gros terá algumas dificuldades pela frente. “Será muito difícil repetir o desempenho dos últimos dois anos”, avalia Cleomar Parisi, analista de petróleo do Unibanco. Em 2000, a Petrobras alcançou o maior lucro já obtido por uma empresa brasileira, de R$ 9,9 bilhões. Neste ano, está muito perto de repetir a dose. Mas boa parte do resultado, apesar dos méritos da gestão, foi fruto da alta do barril do petróleo, que chegou a ser cotado acima de US$ 30. Hoje, com a recessão mundial, a tendência é inversa e o barril anda perto de US$ 20. Além disso, há muita gente de olho no mercado da estatal. “A competição vai mexer com a Petrobras e, pelo menos no Nordeste, eles tendem a perder uma boa participação de mercado”, diz Carlos Santiago, dono da distribuidora Aster Petróleo, que já se preparou para importar.
No novo emprego, Gros também estará muito mais exposto à opinião pública do que no BNDES. Nos últimos anos, a empresa causou vários desastres ambientais, além do acidente da plataforma P-36, que matou 11 operários. Ao todo, a gestão Reichstul exibe a marca de 62 acidentes, contra 17 no período de 1975-98. A empresa está também na mira do Tribunal de Contas da União por não se sujeitar aos mecanismos de controle impostos às estatais – uma das exigências de Reichstul para aceitar o cargo foi poder administrar a Petrobras como uma empresa privada. “A estatal tem de entender que ainda está submetida à lei das licitações e não às regras do mercado”, afirma o ministro Ubiratan Aguiar, relator do processo no tribunal. A pendência não está resolvida e terá que ser solucionada ainda nesta semana. O TCU aguarda as cópias das reuniões dos Conselhos de Administração e Fiscal para julgar a prestação de contas de 2000. A ameça dos ministros é mudar toda a diretoria caso a determinação não seja cumprida. No tabuleiro das nomeações, Gros não teve escolha. Foi convocado pelo presidente Fernando Henrique. “É mais uma missão”, resumiu. Reichstul, que ainda é sócio do banco InterAmerican Express, ainda não decidiu se volta ou não ao mundo financeiro. “Quero férias.”
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