ECONOMIA

Nº edição: 219 | 26.OUT.01 - 10:00 | Atualizado em 22.05 - 03:51

VIVE LA FRANCE

Com discurso audacioso e tratamento de líder mundial, FHC se consagra na Europa

Por Marco Damiani

Para os chefes de Estado, o protocolo. Para os amigos íntimos, os recintos mais reservados, a conversa ao pé do ouvido, o melhor vinho da adega. Para os líderes, a atenção, o respeito, o tratamento vip proporcional ao peso de suas palavras. O presidente Fernando Henrique saboreou o melhor desses três papéis na viagem de cinco dias à Europa, encerrada na quarta-feira, 31. Ovacionado de pé durante cronometrados dois minutos e quarenta segundos na histórica tribuna da Assembléia Nacional da França – que apenas nove estrangeiros, nenhum latino-americano, haviam ocupado em mais de 210 anos –, FHC viveu o ápice de sete anos de diplomacia presidencial. Além de Paris, Madri e Londres o ouviram com rara distinção, seja nos discursos oficiais, seja no dedo de prosa diante da lareira da sala de estar. E ele tinha o que dizer: “A barbárie não é somente a covardia do terrorismo, mas também a intolerância ou a imposição de políticas unilaterais em escala planetária”, pontuou diante dos parlamentares franceses. Poucas vezes se viu tamanha ousadia vinda do hemisfério Sul – comparar protecionismo à ação de terroristas. A mensagem tinha como alvo os Estados Unidos. Mas havia o risco de que os anfitriões, sempre zelosos com seus próprios interesses, vestissem a carapuça.

Por nove vezes a platéia interrompeu o discurso, feito em francês, de FHC. Ele defendeu uma nova ordem econômica global – “Ousemos, se necessário, tributar o movimento de capitais para assegurar liquidez às economias emergentes”. Palmas para ele. Ele sublinhou a disposição brasileira de entrar para o clube dos países mais influentes do planeta – “O Conselho de Segurança das Nações Unidas deve ser ampliado e reformado para melhor refletir a realidade que hoje vivemos”. Palmas para ele. Naquela Assembléia, aplausos são carregados de simbolismo. Nela, em 1789, foi virada uma página na ordem mundial – tão importante que a História consagrou aquele momento como um marco na divisão de duas eras. Há 212 anos, os aristocratas tiveram de abrir espaço para os representantes do povo, que se sentaram à esquerda da tribuna. A partir de então, direita e esquerda deixaram de ser apenas referências para orientação no espaço. Fernando Henrique, que tem oscilado entre um e outro flanco político, foi aplaudido por ambos os lados. Emocionado, ao final do pronunciamento o presidente deu dois passos em direção aos bastidores, fez meia volta e exclamou: “Vive la France!” Imbatível.

Champanhe de Churchill. Senso de oportunidade e precisão nas palavras foram os principais itens da bagagem que o presidente levou à Europa. Falou dos efeitos do terrorismo e da guerra nas relações entre países e os interlocutores amplificaram sua voz. Na Espanha, foi homenageado pelo rei Juan Carlos, roubou a cena em uma palestra organizada pelo ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov, à qual compareceram 28 chefes e ex-chefes de Estado, e teve uma longa conversa com o primeiro-ministro José Maria Aznar. O giro teve sua dimensão política ampliada, entretanto, por um convite improvisado. A agenda do presidente brasileiro não previa uma passagem pela Inglaterra. Mas o primeiro-ministro Tony Blair e sua mulher Cherry quebraram o protocolo e abriram sua exclusiva casa de campo em Chequers, região de Buckinghampshire, no domingo 28, para oferecer um jantar a Fernando Henrique e dona Ruth. À mesa, além dos dois casais, apenas o ex-presidente
dos EUA Bill Clinton. Entre taças do champanhe Pal Roger (a
favorita do ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill), trocaram impressões sobre suas mais recentes conversas com o presidente dos EUA, George W. Bush. Blair deteve-se em detalhes das operações no teatro de guerra do Afeganistão. Clinton retirou-se à meia-noite, enquanto o casal brasileiro pernoitou na residência. Na manhã seguinte, Fernando Henrique encerrou, na intimidade de um café-da-manhã a sós com Blair, a detalhada conversa iniciada na noite anterior.

E ainda havia Paris. Entre abraços e sorrisos efusivos, foi recebido à noite pelo primeiro-ministro Lionel Jospin em sua residência oficial, instalada no elegante Hotel Matignon. Ali, um ambiente informal compôs o cenário para o jantar de trabalho sobre temas como a aproximação entre a União Européia e o Mercosul e seus reflexos sobre os Estados Unidos e a Alca. Mas o maior momento da viagem viria apenas na tarde seguinte, na Assembléia Nacional: o discurso de 25 minutos, no qual Fernando Henrique citou nome a nome 13 filósofos e intelectuais franceses. “O discurso foi uma unanimidade entre a esquerda, muito corajoso e objetivo”, disse o deputado Robert Hue, líder do Partido Comunista Francês e candidato a presidente do país. No amplo salão de recepções do Palácio Bourbon, ladeado por Jospin e o presidente da Assembléia, o socialista Raymond Forni, brindes com champanhe marcaram novos elogios à performance histórica. Fernando Henrique entrara em definitivo para o grupo dos chefes de Estado que formam o que está sendo chamado na Europa de “governança progressista”, cujos membros mais destacados são o francês Jospin e o inglês Blair. “Diante deles, nosso presidente é um igual”, resumiu um diplomata. “Com a vantagem de ter mais experiência porque governa um país há sete anos, bem mais do que eles”.

Enquanto estava na Europa, a comitiva brasileira foi colhida pelo convite do presidente americano George W. Bush para uma visita a Washington. Ao saber que Fernando Henrique decidira ele próprio discursar em nome do Brasil na abertura da Assembléia Geral da ONU, Bush pediu que a viagem fosse antecipada, a tempo de
permitir um encontro pessoal. Combinou-se que o presidente brasileiro chega a Washington dois dias antes, no próximo dia 8, e segue com Bush para a residência de campo, em Camp David. Lá, tranqüilidade e privacidade para uma conversa entre dois “chapas”, como diria o informal Bush em seus trejeitos interioranos. FHC, pessoa física e jurídica – presidente da República Federativa do
Brasil –, terá uma oportunidade única de falar de igual para igual com o grande irmão do Norte.


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Economia - Um vice-presidente com voz própria e personalidade forte

Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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  • xkhRKtJPiHMkSeA

    em 24/11/2011 05:49:55

    Cool! That's a cevler way of looking at it!

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    • Raquel Fernandes

      em 23/09/2011 12:25:08

      Que ridículo! O pior não é FHC existir, o pior é existir gente que ainda escuta o que ele diz! Isso que é terrorismo!

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