ESTILO

Nº edição: 174 | 22.DEZ.00 - 10:00 | Atualizado em 05.02 - 17:14

Fernando Xavier

O Empreendedor do Ano na Tecnologia comandou, na presidência do Grupo Telefonica, uma transformação radical na maior empresa de telecomunicações do País, construindo, a partir de uma operadora problemática, um conglomerado de R$ 10 bilhões

Por Luiz Fernando Sá

Q
uem não é do ramo pode ter avaliado o apetite da Telefonica em conquistar o mercado brasileiro de telecomunicações apenas pelas fantásticas quantias de dólares que a empresa tem despejado no País. Aqueles que conhecem o setor mais a fundo perceberam, no entanto, que os espanhóis não estavam para brincadeira quando foi anunciado o nome do principal executivo do grupo no País: o engenheiro paranaense Fernando Xavier Ferreira, de 51 anos. A combinação de recursos em profusão com o talento do profissional que é dono do maior cabedal de informações na área de tecnologia da informação no Brasil foi explosivo.
 

Dois anos e meio e US$ 19 bilhões (contando apenas os investimentos diretos da matriz européia na filial) depois de ter dado sua tacada mais ambiciosa em terras brasileiras – a aquisição da Telesp, maior operadora estatal de telefonia fixa –, a Telefonica passou de patinho feio a cisne da iniciativa privada nacional, de um emaranhado de problemas técnicos e de imagem à maior companhia de telecomunicações e terceira colocada na lista das potências empresariais do Brasil, com uma receita que, este ano, deve ficar na casa dos R$ 10 bilhões. “Não existe paralelo para esse investimento no País”, afirma Xavier. “Nenhum outro grupo se aproxima disso.”

Tudo aconteceu com tamanha velocidade que sequer deu tempo para a estrela de Xavier brilhar com mais intensidade no firmamento dos negócios. Reservado e discreto, o presidente da Telefonica no Brasil foi derrotando sem alarde, um a um, os touros que lhe foram lançados na nova arena das telecomunicações. Primeiro, encarou o desafio de atingir as ambiciosas metas que foram impostas às novas donas da telefonia pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Antes mesmo de abater esse furioso miúra, recebeu de Madri a incumbência de fazer do grupo muito mais do que uma operadora nas áreas fixa (a Telefonica é controladora da Telesp, em São Paulo, e da Ceterp, na cidade de Riberão Preto) e celular (a empresa é a maior do País, com quase 5 milhões de aparelhos ligados nos Estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Sergipe). O conglomerado que dirige hoje possui empresas atuando em várias áreas, sempre disputando a liderança com os concorrentes. No setor de call center, por exemplo, a Atento, criada no ano passado, já é a maior do País e emprega 20 mil pessoas. Na nova conqueluche do mercado, a dos serviços de telecomunicações por banda larga, o grupo também se lançou com ousadia por meio da subsidiária Emergia, que conectou o Brasil ao resto da América Latina e a Miami através de uma rede digital de cabos submarinos, e do Speedy, serviço que permite acessos de alta velocidade à Internet também ao consumidor doméstico e às pequenas empresas. No universo virtual, são da companhia o portal de acesso Terra e a e-Marketplace, empresa constituída para disputar o filão do business-to-business.

O “matador” Xavier toureia essa potência emergente na ponta do dedo. Em seu escritório em um moderno prédio na região da Faria Lima, em São Paulo, ele passa horas ao telefone trocando informações com seus principais executivos. Todos estão ligados ao chefe por uma tecla especial no aparelho e já se acostumaram aos altos níveis de exigência do presidente. Minucioso, Xavier gosta de entender os detalhes das operações de cada área, que lhe dão subsídios para decisões tomadas sempre de forma rápida e objetiva. Quando desenha cenários que servem de apoio à estratégia da empresa, saca da memória dados que poucos conhecem. Eis o seu maior trunfo: após ocupar os principais postos do setor nos tempos do monopólio estatal – entre eles o de secretário executivo do Ministério das Comunicações e o de presidente da Telebras – Xavier é tido como o homem que conhece mais a fundo o sistema de telecomunicações no Brasil.

Foi esta fama que levou o então ministro Sérgio Motta a procurá-lo, em Curitiba, em 1995. Ex-presidente da Telepar e com uma rápida passagem pela canadense Nortel, Xavier havia retornado à cidade para ficar mais próximo da mulher e dos três filhos e para tocar um negócio familiar no setor de cimento. Mas o que Motta lhe ofereceu foi irresistível: o ministro queria tê-lo como braço direito na formatação do modelo de privatização das telecomunicações. “O casamento não poderia ter sido mais perfeito”, afirma Luiz Machado, professor de Xavier no curso de engenharia de telecomunicações da PUC carioca e seu sucessor na presidência da Nortel. “Motta entrou com sua incrível disposição política e o Fernando com a profundidade técnica e o estilo sóbrio para costurar a migração do regime estatal para o privado.”

Primeiro de um lado, depois do outro, Xavier transformou-se no personagem central de uma das mais radicais transformações assistidas pela economia brasileira em todos os tempos. Em seus primeiros meses na Telefonica, teve de remendar uma empresa estilhaçada pela insatisfação do consumidor. Havia 1,5 milhão de paulistas na fila de espera por uma linha telefônica. E os que já possuíam telefone, sofriam com a péssima qualidade dos serviços. Xavier não perdeu a tranqüilidade. “Sempre soube que isso iria acabar, que era apenas uma questão de dotar a rede de recursos tecnológicos mais avançados e suprir a demanda reprimida”, afirma. “O grupo nunca impôs limites no dinheiro necessário para que isso acontecesse.” O exemplo mais impressionante é o da Telesp. Quando assumiu a operadora paulista, em setembro de 1998, a planta era de 6,2 milhões de linhas fixas – 40% delas analógicas – e o ambiente, de caos. Trinta meses depois, reina a tranqüilidade e as centrais da companhia conectam o dobro de aparelhos, quase todos digitais. Até o final do primeiro semestre de 2001, a Telefonica promete atingir, com dois anos e meio de antecedência, todas as metas previstas no contrato de concessão. Com mais esse touro batido, Xavier poderá reivindicar à Anatel uma licença especial para atuar em todo o território nacional, e não apenas em São Paulo. “No segundo semestre haverá tempo para vencer a burocracia. Em 1º de janeiro de 2002 queremos estar operando com essa nova amplitude”, diz Xavier. O tamanho da ambição pode ser medido pelo novo centro de operações da companhia, recém-inaugurado em São Paulo. Dali, pode-se gerenciar o funcionamento de até 50 milhões de linhas fixas, mais que o total instalado atualmente no País.

“Assistimos a uma transformação radical”, empolga-se Xavier. “E, nos próximos anos, viveremos uma nova fase de mudanças com impacto até maior.” Avesso a exercícios de futurologia, ele não fala de geladeiras conectadas à Internet ou de traquitanas de enésima geração, mas dos efeitos do acirramento da competição. “Há dois anos, o assunto eram os preços de telefones no mercado paralelo. Hoje, discute-se acesso rápido, velocidade de downloads”, afirma, com o mesmo sotaque carregado que, há 30 anos, fez seus colegas de faculdade no Rio o apelidarem de Fernando Paraná. Cosmopolita, enólogo notório, sofisticado apreciador de óperas, ele não se desconecta das origens. Passa as semanas em São Paulo, Brasília, Madri ou onde quer que sua função exija. Trabalha até altas horas e muitas vezes é flagrado por seus subordinados, tarde da noite, comendo um sanduíche no McDonald’s vizinho ao prédio da Telefonica antes de se recolher ao flat em que mora em São Paulo. Na sexta-feira, porém, seu destino é sagrado: ele pega o avião e se junta à família em Curitiba. Dali, ele tem o mundo às suas mãos. Pelo telefone.

“CRESCEMOS EM VELOCIDADE MÁXIMA”

DINHEIRO – Quando o sr. assumiu a Telefonica, tinha de administrar a péssima imagem da companhia. Hoje, o problema é manter as taxas de crescimento altas. O que é mais difícil?
XAVIER –
A comprovação de que estamos crescendo na velocidade máxima possível é de que se chegou ao ponto de esgotar a disponibilidade de materiais necessários para os projetos de expansão da rede. Administrar a falta de recursos é complicado porque está associado aos compromissos de prazo assumidos com clientes.

DINHEIRO – O sr. ficou surpreso com a rapidez das mudanças na telefonia brasileira?
XAVIER –
Até por dever de ofício, como profissional da área e pela oportunidade de ter participado da estruturação do processo de privatização, tinha de conhecer o que acontecia no mundo.

DINHEIRO – Como foi, para o sr., a transição dos orçamentos enxutos do setor público para a o comando de uma empresa com tamanho fôlego para investir?
XAVIER –
São dois mundos completamente distintos. O que há de comum é que os negócios são destinados à prestação de um serviço público e, com isso, os cuidados de relacionamento com o cliente são os mesmos. O serviço público exige muita energia canalizada para interação da burocracia governamental. Na iniciativa privada, com concorrência, as preocupações do administrador e executivo estão mais relacionadas a custos, eficiência, avanço tecnológico.

DINHEIRO –Qual a principal contribuição espanhola ao seu estilo de administração?
XAVIER –
Os espanhóis se comportaram com extrema inteligência e absolutamente de acordo com que poderia ser esperado com o processo de privatização. Sua grande característica é o grande poder de determinação e energia na velocidade em que as coisas são feitas. Eles deram claras demonstrações de que o Brasil é seu mercado preferencial e fizeram apostas de maneira ilimitada em relação às oportunidades que se apresentaram.


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Os investidores analisam, nesta terça-feira, dados sobre a concessão de crédito aos consumidores americanos. No Brasil, destaque para informações sobre o custo de vida.

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