ECONOMIA

Nº edição: 643 | Economia | 03.FEV.10 - 14:13 | Atualizado em 07.04 - 14:28

A luz apagada de Davos

O encontro nos Alpes deveria celebrar a retomada global, mas foi marcado por mais uma onda de incerteza sobre a saúde dos países desenvolvidos

Por Denize Bacoccina e Guilherme Queiroz

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 O alemão Klaus Schwab tinha tudo planejado para a comemoração dos 40 anos do fórum que anualmente reúne a nata da política e dos negócios na estação de esqui de Davos, na Suíça. Depois de muita insistência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltaria ao fórum para receber o prêmio de Estadista Global e faria um discurso pregando a importância dos governos como indutores da economia, além de um alerta sobre os riscos de retirar cedo demais os estímulos concedidos na crise. Não deu certo. A ausência do presidente Lula, que desistiu da viagem após uma crise de hipertensão na quarta-feira 27 à noite (leia mais à página 60), contribuiu para tirar o brilho de um encontro que já estava ofuscado pela incerteza sobre o futuro. A crise deixou perdidos os antigos senhores do universo – banqueiros, políticos, economistas e empresários – que anualmente se reuniam para discutir e apresentar soluções para os problemas do mundo. Entre os políticos, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, abriu o encontro pedindo cautela. “Temos que ter cuidado para evitar um aperto monetário repentino que resultaria num colapso global”, disse ele.

 O lema deste ano de Davos – “Repensar, redesenhar, reconstruir” – indica a disposição de se planejar a retomada do crescimento. O problema é que ele ainda não está garantido e a reconstrução depende de mudanças no sistema financeiro que não são consensuais, como mostra a reação ao plano do presidente Barack Obama para os bancos (leia reportagem à página 76). “Como numa derrapagem, é preciso primeiro virar o volante na direção em que se derrapa, para depois corrigir o rumo. O processo ainda não acabou”, disse o megainvestidor George Soros.

 Apesar da incerteza sobre o futuro, economistas e líderes políticos já chegaram a um consenso: a recuperação da economia mundial se dará em duas velocidades, com os países em desenvolvimento liderando o processo. As previsões do Fundo Monetário Internacional evidenciam essa tendência. O relatório divulgado na semana passada fala em crescimento de 3,9% para a economia global este ano, melhor do que o previsto anteriormente, com expansão de 2,1% nos países ricos e de 6% nos mercados emergentes e em desenvolvimento. Mas a instituição deixa claro que a economia ainda não se emancipou da tutela dos governos. “No momento, a recuperação é baseada em decisões políticas e ações políticas. A questão é quando a demanda privada vai ocupar este espaço”, afirmou o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard.

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Voto de confiança:Ben Bernanke foi confirmado pelo Senado americano
para mais um mandato
à frente do Federal Reserve, o banco central
americano, por 70 votos a 30

 

 A diferença entre o prognóstico para o mundo desenvolvido e as economias emergentes também ficou explícita nas expectativas dos empresários. Uma pesquisa da PriceWater-houseCoopers com 1,2 mil CEOs de 50 países mostra que 81% dos executivos acreditam em melhoras nos próximos 12 meses. O otimismo sobe para 91% em relação à China e à América Latina e para 97% sobre a Índia. Entre os empresários brasileiros, 60% estão dispostos a contratar mais este ano. Já nos EUA, apenas 25% preve- em contratações. As projeções refletem os números divulgados na semana passada. Enquanto no Brasil o desemprego caiu de 7,4% para 6,8% em dezembro, nos EUA a taxa se manteve em 10%. De positivo, veio a confirmação pelo Senado americano de mais um mandato para que Ben Bernanke siga à frente do Federal Reserve, o banco central dos EUA.

 Em Davos, a mensagem preparada pelo presidente Lula, que defendeu os estímulos econômicos, foi lida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. O prêmio de Estadista Global foi recebido pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.  Mas a ausência de Lula não foi o único aspecto negativo de Davos. Antes mesmo do início do encontro, o chefe da segurança do Fórum Econômico Mundial, Markus Reinhardt, cometeu suicídio no seu quarto de hotel.


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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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