FINANÇAS
Nº edição: 616 | 24.JUL.09 - 10:00 | Atualizado em 22.05 - 03:56
Pedra sobre Pedra
Saída de altos executivos revela mudanças profundas no Citibank do Brasil. Até onde vai essa reforma?

Ricardo Lacerda ainda pode ser encontrado na avenida Paulista, 1.111, a sede do Citibank em São Paulo. Mas não por muito tempo. O responsável pelo banco de investimentos no Brasil e na América Latina está se despedindo. A data de sua saída ainda não foi divulgada, mas em agosto suas gavetas já devem estar vazias. Na primeira quinzena de junho, Lacerda comunicou sua decisão a Gustavo Marín, presidente do Citi no Brasil. Naquele momento, fechou-se a última ponta de uma reestruturação nos principais cargos. As mudanças atingem as áreas de atacado e de varejo. Ao todo, seis altos executivos deixaram o Citi nos últimos nove meses. O banco nega qualquer semelhança com a dança das cadeiras na matriz americana, que recebeu socorro financeiro do governo e luta para se reerguer. A versão oficial é de que as saídas dos profissionais foram movimentos naturais de mercado. O fato é que o nono maior banco em ativos do País, com R$ 47,8 bilhões, entra no segundo semestre com um time renovado. O que isso realmente significa?
Uma hipótese é que Marín esteja apostando na renovação das lideranças para sacudir a instituição e mostrar bons números ao chefão, Vikram Pandit. No primeiro trimestre deste ano, o lucro local de R$ 1,6 bilhão foi conseguido pela venda da totalidade das ações do banco na Redecard, empresa do setor de cartões de crédito. Sem isso, o número teria sido de R$ 74,3 milhões. Geralmente, executivos com muito tempo de casa ganham salários mais polpudos, têm benefícios mais custosos e muitas vezes estão pouco estimulados a reverter um resultado ruim. Quem chega quer mostrar serviço. "Os jovens querem ficar marcados por fazer o Citi virar o jogo", diz uma fonte, que acompanhou a movimentação de perto. "O problema é que o banco parece sem rumo e sem liderança", completa. Marín quer mudar essa percepção e aproveitar o bom momento do setor bancário no Brasil, que se mostrou mais resiliente na crise de crédito mundial e tem boas perspectivas para o varejo.

O uso da poderosa marca Credicard em vez de Citifinancial nos financiamentos ao consumidor é sintomático. Leonel Andrade, um executivo que ganhou notoriedade pela boa operação à frente da Losango, a financeira do HSBC, foi contratado para essa missão. Sua chegada incomodou o comandante do varejo, Gilberto Caldart, que tinha 27 anos de casa e também dirigia a Citifinancial. Com o poder dividido, Caldart aceitou o convite para presidir a bandeira MasterCard no Brasil e saiu em outubro de 2008. A marca Credicard, que durante anos foi usada em parceria com o Itaú, passou para o guarda-chuva do Citi e todas as 100 lojas da financeira foram renovadas. O espaço vago com a saída de Caldart foi assumido pelo experiente Hugo Anversa, mas este se aposentou em junho.
A cartada seguinte de Marín foi a surpreendente promoção de Paula Cardoso, uma executiva agressiva, contratada em agosto de 2008. Há duas semanas, ela assumiu a área de varejo. "A Paula era uma aposta para o futuro, mas em um curto período de tempo ela mostrou que a experiência dela no varejo daria outra dimensão para o negócio", disse à DINHEIRO Henrique Szapiro, vice-presidente de recursos humanos. Paula já tinha cuidado de uma diretoria regional do HSBC, com 300 agências, três vezes maior que a rede atual do Citi.
Marín fez o clássico: dividiu para reinar. A alta renda ficou com Paula, que vai correr para recuperar os clientes mais ricos, enquanto Andrade cuidará dos clientes de renda menor. Comenta-se no mercado que a pressão do presidente Vikram Pandit por melhores resultados, principalmente no varejo, está muito forte. E nesse filão, o mais rentável do mercado, o Citi engatinha. "A pressão existe mesmo quando tudo vai bem", rebate Szapiro.
Na área corporativa, deixaram o Citi Marcelo Marangon e João Miranda. A tesouraria perdeu José Flávio Ramos. Mas a maior baixa na equipe de Marín foi a de Ricardo Lacerda, que comandou o Goldman Sachs e recolocou o Citi no páreo do mercado de capitais. Sem vislumbrar os gordos bônus de antigamente, ele preferiu seguir carreira solo. Em seu lugar, assume um triunvirato formado por Fabio Bicudo, Otavio Guazelli e Jairo Loureiro. Conseguirão espaço na guerra com o BTG Pactual e o Itaú BBA? "É uma equipe madura que vai continuar brigando pelos primeiros lugares em abertura de capitais e fusões e aquisições. Continuamos nas cabeças", promete Szapiro.
O sorriso amarelo de Pandit
Lucro de US$ 5,8 bilhões no semestre foi bom, mas só foi obtido com a venda da corretora

O sorriso amarelo de Pandit
Lucro de US$ 5,8 bilhões no semestre foi bom, mas só foi obtido com a venda da corretora
O Citigroup encerrou o primeiro semestre no azul. O lucro de US$ 4,3 bilhões no segundo trimestre, somado ao US$ 1,5 bilhão do primeiro trimestre, dá a impressão de que o gigante americano pode sair da UTI. Mas só não houve perda no período de abril a junho por conta da venda da corretora Smith Barney para o Morgan Stanley, por US$ 6,7 bilhões. É por isso que a alegria do indiano Vikram Pandit, o mandachuva do Citi nos EUA, está contida. A pressão sobre ele continua enorme. Os números do Citi permanecem frágeis e o aumento da inadimplência custou US$ 12,4 bilhões aos cofres do banco. Sem uma operação salvadora como foi a do Smith Barney, o terceiro trimestre pode ser ruim. "Os gestores não conseguem acertar a estratégia do banco há muito tempo", diz Eveline Gerk, presidente do banco de investimentos AP International, sediado em Nova York. O governo americano, que já injetou US$ 45 bilhões para manter a estrutura do banco em funcionamento, está atento a todos os movimentos do Citi. E pode abocanhar mais de um terço das ações
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