NEGÓCIOS

Nº edição: 611 | 24.JUN.09 - 10:00 | Atualizado em 13.06 - 12:59

O vírus do lucro

Novartis sai na frente na produção de vacinas contra a gripe suína, mas, para faturar, tem que enfrentar a pressão da OMS e aprovar a droga nos EUA

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Parece óbvio e até sensato que uma empresa, após gastar milhões de dólares no desenvolvimento de um produto, se recuse a simplesmente doá-lo a quem não tem meios para adquiri-lo. Para a Novartis, porém, a situação é um pouco mais complicada.

A farmacêutica suíça foi a primeira no mundo a desenvolver uma vacina eficaz contra a gripe suína - doença causada pelo vírus H1N1 e que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), já infectou 40 mil pessoas e matou cerca de 170 ao redor do mundo. Ainda assim, afirmou que não vai atender à solicitação de Margareth Chan, diretora-geral da OMS, e distribuir gratuitamente doses da vacina para países pobres.

 

Ameaça milionária: o vírus H1N1 (acima) e seu efeito no dia a dia no aeroporto de Guarulhos (abaixo); temor em escala mundial cria mercado fiel para eventual vacina

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Segundo o executivo-chefe da Novartis, Daniel Vasella, é importante que haja uma compensação econômica pelo esforço da companhia. "Se o que se quer é uma produção sustentável, é preciso criar incentivos financeiros", disse o executivo na ocasião do anúncio da vacina, no dia 12, um dia após a OMS confirmar que o mundo vive um estado de pandemia. Além disso, de acordo com Vasella, uma parcela "significativa" do medicamento já foi reservada por governos de 30 países. Eis aí, mais uma vez, a equação financeira que assombra a indústria farmacêutica no mundo.

Os laboratórios desenvolvem, a cada dia, drogas mais potentes, mais eficazes e mais caras, mas, por conta disso, menos consumidores têm dinheiro para comprá-las. No caso dessa vacina, segundo a Novartis, o investimento foi similar ao que é feito em drogas novas: US$ 1 bilhão. Se as empresas decidem ignorar apelos como os da OMS, passam a sofrer uma forte pressão da opinião pública e de governos de diversos países. Alguns laboratórios, contudo, já provaram que é possível conciliar os ganhos de receita com o atendimento à população carente.

Outras gigantes do setor já se disseram dispostas a doar parte de sua produção a países pobres, quando tiverem a vacina. A britânica GlaxoSmithKlein (GSK), por exemplo, afirmou que irá doar 50 milhões de doses, o que representa entre US$ 500 milhões e US$ 750 milhões, caso os preços sejam semelhantes aos estimados pela Novartis. Segundo Margareth, essa é uma atitude de "solidariedade" por parte das farmacêuticas.

"A OMS agradece que algumas fabricantes de vacina tenham aceitado doar uma porcentagem de sua produção de vacinas contra a Influenza para serem distribuídas em países em desenvolvimento que não teriam, de outra forma, acesso a elas", diz a organização em nota enviada à DINHEIRO. No caso da vacina da Novartis, as perspectivas de lucro são significativas. Só o governo dos EUA já reservou o equivalente a US$ 289 milhões do medicamento.

Com preço estimado pela própria fabricante entre US$ 10 e US$ 15 a dose, esse montante ficaria entre 19,3 milhões e 28,9 milhões de unidades. "Do ponto de vista de negócio, essa é uma enorme vantagem para a Novartis e certamente se traduz num ganho econômico para eles", diz o infectologista Davi Lewi, do hospital Albert Einstein. Segundo ele, a técnica utilizada pela empresa garante uma velocidade de produção muito maior.

Como foi a primeira a lançar o produto e a única, até agora, a utilizar a técnica que reduz o tempo de produção, a Novartis se coloca numa posição de poder ditar as regras - e até ignorar apelos da OMS. Mas, mesmo saindo na frente, a farmacêutica ainda não ganhou a corrida. Sua vacina agora entra em período de teste final para aprovação, especialmente nos EUA.

O governo daquele país, apesar de ter adquirido lotes do produto, se mostra reticente quanto a seu uso. Isso devido a um componente, chamado de adjuvante, ainda não aprovado para uso nos EUA. A vitória da Novartis só estará completa se a autorização sair antes do inverno do Hemisfério Norte. Nesse período, diz Lewi, a disseminação da doença tende a se intensificar, devido às condições climáticas na região. (J.S.O.)

 

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