NEGÓCIOS
Nº edição: 611 | 24.JUN.09 - 10:00 | Atualizado em 16.01 - 11:20
Gerdau em busca de uma saída
Por que a siderúrgica foi duramente afetada pela crise e o que ela tem feito para reverter seus resultados
Por ADRIANA MATTOS

UMA DAS MAIORES agências de risco do mundo, a Standard & Poor's (S&P) deu uma notícia nada boa para a siderúrgica Gerdau quatro meses atrás. Ela colocou a companhia em rating negativo. Esperava rever a decisão agora, caso a crise global deixasse a empresa respirar. Há duas semanas informou que a posição estava mantida. Quanto pior a colocação na escala geral, menor é a confiança da agência na capacidade de a companhia saldar os seus compromissos financeiros.
"A retração econômica prejudicou bastante os resultados da Gerdau", informa o último relatório da S&P. Cinco dias após o anúncio, a companhia mandou suspender operações lá fora. A unidade da empresa na pequena Sayreville, localizada a poucos minutos de Nova York parou de operar. Em Perth Amboy, vizinha a Sayreville, 165 funcionários da área de laminação da siderúrgica foram dispensados. "Se mantivessem tudo, o tamanho dos custos que teriam de arcar poderia matá-los", disse Hipólito Rivera, membro da United Steelworkers of America, sindicato local.
Ouvir sindicalista defender empresário que fecha unidade é algo raríssimo. No caso da Gerdau, é uma necessidade. Na origem da crise está aquela que sempre foi considerada a grande virtude da companhia: a internacionalização, bandeira do modelo de negócios da empresa e exemplo de estratégia vitoriosa para os demais grupos nacionais. Apontada diversas vezes como a mais globalizada das empresas brasileiras, a Gerdau extrai cerca de 65% da sua receita do mercado externo.
Quando a crise abateu mercados como os EUA e a Espanha, nos quais a empresa mantém operações fortes e consolidadas, a Gerdau sentiu o baque. Há um conjunto de resultados financeiros e operacionais que forçou a companhia a prorrogar o prazo de liberação de investimentos e montar um plano de reação inesperado. Aí está, na avaliação da empresa, um dos caminhos da retomada. "Já tivemos economias importantes com as últimas ações tomadas, mas ainda estamos trabalhando para buscarmos uma maior eficiência", disse em entrevista à DINHEIRO André Gerdau, CEO do grupo. O fato é que os custos de produção, suportáveis frente ao alto volume produzido pelo grupo até então, passaram a pesar mais na estrutura de gastos total.
As despesas "comeram" 9,3% da receita da empresa neste ano - taxa recorde na companhia (a máxima anterior chegou a 8,5%). Chegou a ocorrer um descompasso entre produção e encomendas na companhia. Clientes do setor industrial para os quais a Gerdau vende aço estavam com o estoque nas alturas. Atingiu 50 dias no setor automobilístico, e só normalizou a partir de maio. Como não dá para mudar de direção uma empresa do tamanho da Gerdau do dia para a noite, o desajuste foi inevitável.
A expansão do mercado local, as barreiras para importação e a RETOMADA DE PREÇOS podem fazer grupo recuperar o fôlego
Movimentos estratégicos de concorrentes só complicaram ainda mais esse cenário. Nos últimos meses, fabricantes chineses avançaram sobre o mercado das siderúrgicas brasileiras - no caso da Gerdau, basicamente em aços especiais, produzidos pelas unidades Piratini e Aços Villares. Pressionado pelo setor, o governo brasileiro decidiu, há dez dias, elevar o imposto de importação de itens fabricados por indústrias como a Gerdau. Pode ser que isso a ajude.
Também há uma expectativa que uma melhora ainda maior na demanda interna -- assim como nos preços internacionais -- dê algum novo gás à companhia. Cerca de 35% da receita do grupo é extraída do mercado interno. Na busca por uma retomada, a Gerdau decidiu se mexer e tomou medidas nas últimas semanas. Lá fora, além do fechamento de uma usina, a empresa reviu acordos salariais, com suspensão temporária de contratos e reduções salariais de até 50%.
Na Espanha diminuiu a jornada de trabalho dos empregados. Também houve no Brasil a suspensão temporária de contratos de trabalho por cinco meses, algo permitido por lei. Na linha de custos, ela já efetuou reduções totais no valor de R$ 1,8 bilhão de janeiro a março, em relação ao quarto trimestre de 2008. "Com isso, conseguimos manter os custos fixos num patamar histórico de, aproximadamente, 25% dos custos totais de produção", disse o presidente da companhia.
Na prática, as esperanças da Gerdau estão depositadas no ajuste do mercado. Barreiras para importação, expansão nas vendas internas e recuperação dos preços internacionais podem torná-la mais rentável. É difícil afirmar hoje que Gerdau, Usiminas e CSN estejam no mesmo barco. Indicadores de margem Ebitda e rentabilidade são menores nela hoje, em comparação às outras duas, revela a Economática.
Apenas a Usiminas tem uma rentabilidade mais baixa. CSN e Usiminas têm forte participação no mercado de automóveis local, enquanto a Gerdau, líder na produção de aços longos nas Américas, preocupa pela elevada exposição ao setor de construção civil norte-americano e de países da Europa, como a Espanha. Lá, onde a economia caiu mais que na Itália, França e Alemanha, a Gerdau é dona da Sidenor, a maior em aços especiais do país. "Acreditamos que o primeiro trimestre foi o pior para a companhia, mas, diante das incertezas sobre a economia, condicionamos nossa recomendação para as ações da empresa ao aparecimento de sinais mais concretos de retomada", informa relatório da Spinelli S/A Corretora.
Neste momento, o mercado prefere esperar pelo início do segundo semestre para ver alguma reação no desempenho da empresa. "Esperamos solucionar o CreditWatch [a avaliação negativa] da Gerdau nos próximos meses, assim que tenhamos mais clareza sobre os resultados decorrentes dos esforços da empresa", conclui a Standard & Poor's.

André Gerdau Johannpeter, CEO do grupo Gerdau (acima, em pé, ao lado do pai, Jorge, presidente do conselho de administração), falou â DINHEIRO.
DINHEIRO - A globalização se tornou um problema para o grupo?
ANDRÉ GERDAU - A nossa estratégia sempre foi a da diversificação geográfica. Se a crise atrapalha, ela também ajuda porque há um efeito compensatório. Quando uma economia cai demais, outra pode equilibrar uma possível perda. A internacionalização é a nossa estratégia a longo prazo e nada mudará isso.
DINHEIRO - São necessários novos ajustes?
GERDAU - Estamos muito satisfeitos com o trabalho que temos feito, mas ainda acreditamos que há novas buscas de eficiência a serem feitas. A sensação é de que a situação do mundo hoje está mais estabilizada, mas vamos continuar a nos adaptar. A busca de competitividade não para.
DINHEIRO - Que medidas têm sido tomadas?
GERDAU - Estamos revendo contratos com fornecedores, já fizemos suspensão temporária de contratos de trabalho no País, assim como negociamos redução de jornada e de salário lá fora. Nos países em que isso foi possível, nós nos mexemos e iniciamos conversas.
DINHEIRO - O mercado interno é prioridade?
GERDAU - Nós já vemos sinais de melhora da demanda local. Esse mercado sempre foi um dos nossos focos e continuará a ser.
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