ECONOMIA
Nº edição: 611 | 24.JUN.09 - 10:00 | Atualizado em 03.03 - 23:12
As 48 horas de Gabrielli
O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, dobra sua rotina de trabalho e se prepara para duas batalhas: uma CPI no Congresso e a discussão do novo modelo do petróleo
Por Por Leonardo Attuch e Denize Bacoccina

Não há nenhum quadro na parede, a não ser a foto do presidente Lula, e a mesa, com poucos papéis, não possui gavetas. Desde a última semana, esta pequena sala, espartana, abriga o presidente da maior empresa do País. No segundo andar de um edifício de apoio da Petrobras em Brasília, José Sérgio Gabrielli instalou sua trincheira e decidiu também rever sua rotina. A partir de agora, ele passará as terças e quartas-feiras na capital federal - e não mais no Rio de Janeiro.
Viagens ao Exterior, para visitar investidores, clientes e governos, foram suspensas. Os fins de semana serão também tomados pelo trabalho. "Meu dia terá de ter 48 horas ou até mais", diz o presidente da Petrobras. Baiano, com um código genético que mescla influências da Itália, da África, de Portugal e de tribos indígenas, ele se vê no meio de uma guerra.
E diz que o sangue quente, herdado dos Gabrielli, tem comandado seu comportamento. "Não gosto de briga, mas também não fujo", diz ele. O palco da batalha fica perto dali. No Senado Federal, uma Comissão Parlamentar de Inquérito deverá ser instalada nos próximos dias para investigar contratos, licitações e práticas da Petrobras.
Uma tarefa hercúlea para os senadores, pois a empresa tem 240 mil contratos, 57 mil fornecedores e investe cerca de US$ 100 milhões por dia. Da guerra, Gabrielli garante que não sairá derrotado. "Estamos levando socos no fígado, mas não vão nos nocautear" (leia sua entrevista exclusiva à DINHEIRO à página 36).

Para enfrentar o exército inimigo, Gabrielli decidiu colocar em ação uma sofisticada máquina bélica. "Estamos montando uma infraestrutura de batalha", diz ele. O quartel-general fica no modesto prédio da empresa em Brasília, que abriga menos de 200 funcionários.
É de lá que Gabrielli comanda as reuniões, por tele ou videoconferência, com funcionários na sede, no Rio e em outros escritórios. Um grupo de 30 a 40 pessoas está dedicado ao assunto em tempo integral, e centenas de outras, em todos os departamentos, são acionadas para responder a questões específicas.
Gabrielli orientou seus comandados a preparar respostas para os cinco pontos citados no requerimento que pediu a abertura da CPI - e diz que os adversários não podem avançar além deste território. "CPI tem que ter fato determinado", diz ele. Os cinco pontos são a Operação Águas Profundas, da Polícia Federal, o uso da variação cambial em contratos, o preço da terraplanagem na refinaria Abreu e Lima, a suposta manobra contábil para pagar menos Imposto de Renda e os patrocínios a ONGs. Mas o desfecho de uma CPI nunca é previsível.
E Gabrielli sabe que outras questões poderão surgir quando os senadores começarem a trabalhar. Ele teme que o noticiário negativo afete a reputação internacional da empresa e prejudique o objetivo de se tornar uma das cinco maiores empresas de energia do mundo. "Não podemos ser retratados como uma empresa bandida", afirma.

O general Gabrielli também dedica atenção especial à batalha da informação. Ele, que já foi jornalista na Bahia, acompanha diariamente as notícias publicadas no Brasil e no Exterior sobre a empresa. "A contínua repetição de ataques pode criar uma fama de que isso aqui é um mar de lama. Uma imagem falsa", diz ele. O presidente da Petrobras também tem aproveitado as idas a Brasília para conversar diretamente com os senadores.
Na véspera da leitura do requerimento que aprovou a criação da CPI, ainda não instalada, Gabrielli falou com três caciques do PSDB: Sérgio Guerra, Tasso Jereissati e Arthur Virgílio. Parlamentares da base aliada também têm sido procurados por ele e por outros ministros da equipe do presidente Lula. O governo federal, com 37% das ações da Petrobras, tem feito sua parte, orientando a base aliada a protelar a instalação da comissão e a conseguir seus principais cargos.
E a preocupação com a CPI atinge também os grandes fornecedores da Petrobras, que temem que a estatal, responsável por mais da metade do PAC, reduza o ritmo de suas obras. "A empresa já sentiu o baque e começou a espremer todos os fornecedores, exigindo cortes drásticos nos nossos preços", disse à DINHEIRO o presidente de uma empresa que tem grandes contratos com a estatal. Gabrielli confirma a renegociação com fornecedores, mas diz que isso é fruto da crise - e não da CPI. "Estamos apertando, mas sem asfixiá-los", diz ele.
"O mundo mudou, os custos das matérias-primas mudaram e nossos contratos serão revistos." Gabrielli desembarcou na Petrobras em janeiro de 2003, como diretor-financeiro. Era um quadro respeitado no PT, que havia participado da fundação do partido, mas cuja experiência profissional se limitava à vida acadêmica. Doutor pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos, ele dava aulas de economia na Universidade Federal da Bahia.
"Eu era visto como um baiano, com todo preconceito que isso carrega", diz ele. Mas, já no segundo dia de Petrobras, ele agendou viagens para Londres e Nova York, para visitar investidores. Coincidência ou não, desde 2003 o valor de mercado da companhia saltou de US$ 15 bilhões para US$ 180 bilhões.
"Criei uma mini-Petrobras"
Gabrielli montou uma estrutura em Brasília com técnicos 100% dedicados a responder a todas as demandas dos parlamentares

"Assim, deixei de ser baiano", brinca o executivo. Gabrielli pode ter se livrado do preconceito, mas não perdeu sua velha disposição para o combate. Nesta entrevista à DINHEIRO, pela primeira vez ele abordou o passado de luta contra a ditadura - um tema que costuma manter sob reserva.
"Fui preso, condenado pela Lei de Segurança Nacional e passei seis meses na cadeia", relembra. "Na verdade, cheguei a ser preso oito vezes". Numa delas, foi retirado da redação do jornal A Tribuna da Bahia, onde atuava como editor de economia, por tropas do Exército.

Ex-militante da AP, a Ação Popular, ele decidiu se autoexilar nos Estados Unidos, onde fez doutorado - marxista na juventude, Gabrielli aos poucos buscou referência em outros economistas, como John Maynard Keynes e Michael Kalecki. Ele não se vitimiza em razão do passado, mas deixa claro que já enfrentou batalhas muito mais duras do que uma CPI. E sinaliza que não tem medo. "Acho que estão investigando meu passado, mas minha vida privada é simples e pacatíssima."
A CPI da Petrobras não é o único front de combate que o presidente da Petrobras terá pela frente. O Congresso também irá debater uma nova lei do petróleo, para ajustar o modelo brasileiro à descoberta do pré-sal. Gabrielli espera que o marco regulatório seja revisto. Ele diz que a lei atual, que abriu o mercado em 1997, foi feita num outro contexto.
A Petrobras era monopolista, o País não tinha acesso ao mercado de capitais nem era autossuficiente em petróleo. Hoje, tudo isso mudou e, com a descoberta do pré-sal, o risco exploratório ficou menor. "Não é bom que esse debate, de interesse nacional, se dê num Congresso contaminado pela disputa política", diz Gabrielli. O que ele defende é que a Petrobras tenha preferência na exploração do pré-sal e que os blocos não sejam mais levados a leilão. "Enquanto nós já estamos investindo US$ 174 bilhões, as empresas internacionais estão capitalizadas e ávidas por novas reservas", diz ele. "Se cada bloco tiver de ser leiloado, isso poderá ser uma desvantagem para a Petrobras."
Nos dois fronts paralelos, o da CPI e o do pré-sal, a Petrobras deverá contar com aliados externos. Centrais sindicais, como a CUT, já começaram a organizar atos públicos em defesa da estatal e também da revisão do marco regulatório. Na sexta-feira 19, o Sindipetro paulista promoveu uma manifestação em São Paulo, como outras que já foram organizadas no Rio de Janeiro e em Brasília.
"O pré-sal deverá servir para pagar a dívida social do País e não para transferir riquezas para a iniciativa privada", diz o presidente da CUT, Arthur Henrique. Atento a isso, Gabrielli garante que a Petrobras não influi em decisões da CUT. Mas ele aposta que a mobilização em torno do tema "o pré-sal é nosso" poderá ser comparável à do "O Petróleo é Nosso", nos anos 50. Esse clima de mobilização popular fez circular até a hipótese de que Gabrielli poderá vir a ser candidato nas eleições de 2010. A colunista Sonia Racy, do jornal O Estado de S.Paulo, publicou a informação de que há correntes no PT tão satisfeitas com seu estilo aguerrido que ele poderá até concorrer à Presidência da República, se a candidatura da ministra Dilma Rousseff não emplacar.
"Não sou candidato, mas sou um homem de partido", diz Gabrielli. Eis aí uma boa maneira de não dar pistas sobre o futuro. Ele, que por disciplina partidária já concorreu ao governo da Bahia contra o então todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães, fará em 2010 o que o PT determinar. O que será, ninguém sabe.
"O pré-sal é nosso"
Gabrielli aposta que a mobilização pelo novo marco regulatório do setor poderá ser tão intensa quanto a do "O Petróleo é Nosso" nos anos 50


Em entrevista exclusiva à DINHEIRO, Gabrielli criticou a escandalização dos negócios da empresa e defendeu prioridade para a Petrobras no pré-sal
DINHEIRO - O sr. disse várias vezes que a CPI prejudica muito a reputação da Petrobras. O que é para uma empresa deste porte estar submetida a este grau de escrutínio?
GABRIELLI - O escrutínio não é o problema. O problema é a escandalização bombástica de fatos particulares. A reputação da Petrobras é um valor importante. Nós queremos ser uma das cinco maiores empresas de petróleo do mundo, mas não só. Queremos ser a preferida dos nossos públicos. E não podemos ser uma empresa bandida. Transparência, reputação, seriedade e ética são os valores fundamentais para nós. Temos que aperfeiçoar continuamente os nossos processos de decisão e de controle. Nós temos um conjunto de supervisão e controle externo enorme. É perfeito? Não. Pode melhorar? Pode. Desvios podem surgir e vamos punir os desvios. Qual é o impacto que pode ter sobre nós? O impacto é a contínua repetição de ataques criar uma fama de que aqui é um mar de lama, que isso aqui é uma república de sindicalistas, um bando de políticos aparelhando a companhia, que a incompetência crassa, que nós fazemos só maracutaia. Essa imagem que está sendo construída é falsa.
DINHEIRO - Como está a renegociação dos contratos com os fornecedores?
GABRIELLI - O mercado mudou. Os preços caíram por causa da demanda menor. Nós temos que apertar os fornecedores sem matá-los. Um aperto carinhoso. Não tem nada a ver com CPI. É uma renegociação porque a demanda caiu. As outras petroleiras estão fazendo a mesma coisa. E nós já levantamos os recursos para bancar nossos projetos.
DINHEIRO - O presidente Lula tratou essa questão da CPI da Petrobras como se fosse uma questão até antipatriótica. O sr. concorda com essa posição?
GABRIELLI - Não vou entrar nessa discussão sobre o caráter da CPI. A CPI é um legítimo instrumento da oposição. Mas ela tem que ser, por lei, por fato determinado. Nós estamos absolutamente cooperativos, participantes, e vamos fazer todo o possível para analisar os fatos determinados.
DINHEIRO - E que outras brigas, fora da CPI, também são importantes para a Petrobras? Por exemplo, definição de modelos do pré-sal.
GABRIELLI - Uma mudança no marco regulatório eu acho que é uma necessidade. O marco regulatório foi construído num momento em que o País não tinha capital, estava em crise econômica, a Petrobras enfrentava preços baixos e sem capitalização, não havia clareza de horizontes exploratórios novos no País. Hoje nós temos uma situação em que o País é superavitário em termos de reservas, tem uma economia estável, tem condições de financiamento. Essa mudança provavelmente vai envolver uma discussão no Congresso. Um Congresso polarizado e contaminado por uma CPI é uma situação negativa, mas não tem jeito. A Petrobras vai ter que dividir suas atenções para tratar a CPI e o marco regulatório.
Uma máquina de contratações
Nenhuma empresa brasileira realiza tantas licitações e contratos com milhares de fornecedores como a Petrobras

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