ECONOMIA

Nº edição: 649 | Economia | 12.MAR.10 - 21:00 | Atualizado em 31.01 - 18:51

Longe do alvo

A inflação se afasta da meta e crescem as pressões para que o BC aumente a taxa de juros na última reunião do Copom comandada por Henrique Meirelles. A dúvida: é necessário?

Por Hugo Cilo

Na segunda-feira 8, o presidente Lula inaugurou um hospital na Baixada Fluminense e, durante o evento, brincou de arco e flecha. Em tempos de inflação em alta, o gesto é simbólico. Desde que chegou ao poder, em 2003, a mira do governo tem se mostrado bem calibrada. Em sete anos, a inflação oficial, medida pelo IPCA, ficou próxima do centro da meta.
 

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Foco na meta: o presidente Lula e sua equipe econômica mantêm aposta de que o IPCA de 2010
ficará próximo do centro da meta, de 4,5%. Entre janeiro e fevereiro, a inflação acumulou alta de 1,53%

Só que, neste ano, o último da era Lula, a habilidade do presidente no tiro ao alvo será testada mais uma vez. Nos dois primeiros meses de 2010, o IPCA acumulou aumento de 1,53%, puxado principalmente pelo reajuste dos combustíveis e dos alimentos. Em fevereiro, o índice avançou 0,78% – a maior elevação para o mês desde 2003.

Se a mesma taxa se repetisse até dezembro, o IPCA superaria 9%, muito acima da meta de 4,5%. Já a expectativa de mercado para a inflação, expressa no Boletim Focus, atingiu 4,99%, também acima do centro da meta. “O Copom deve ser obrigado a iniciar um novo ciclo de aumento de juros já no mês de março”, avalia o economista André Loes, do HSBC. Ele prevê que a taxa Selic, hoje em 8,75% ao ano, chegará a 12,25% no final do ano.
 

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Pressão de custos: Devanir Brichesi, da Deluma, diz que a sua matéria-prima, o alumínio,
subiu 15% neste ano em comparação a 2009. "Absorver todos os custos é impensável. Temos de reajustar"

 

Pressões do mercado financeiro por aperto monetário fazem parte do jogo. Mas a próxima decisão do Comitê de Política Monetária, que será anunciada na quarta-feira 17, vem cercada de expectativas. Primeiro, porque pode ser a última comandada por Henrique Meirelles – ele deve deixar o comando do BC no dia 31, para tentar ser vice na chapa da ministra Dilma Rousseff.  Além disso, analistas já apontam superaquecimento  da economia brasileira – e o próprio governo prevê expansão de 5,7% em 2010. No entanto, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avalia que qualquer aumento de juros será prematuro. “Temos de ter muito cuidado com os apressadinhos”, disse ele à DINHEIRO (leia entrevista abaixo). “Uma medida precipitada pode abortar o crescimento.”

Guido Mantega garante que a indústria ainda opera com pouco mais de 80% de sua capacidade, e afirma que há espaço para expandir a oferta de produtos sem aumento de preços. E aposta ainda que a inflação de março será muito baixa. No entanto, na economia real, longe do embate entre o mercado financeiro e o ministério da Fazenda, as empresas já enfrentam forte pressão de custos, principalmente em função da alta das matérias-primas. Além disso, como a demanda está muito aquecida, os empresários têm tentado recompor as margens de lucro. O que significa aumento de preços.
 

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Reposição de margens: Carlos Eduardo Ibrahim, gerente da Okuma, diz que a inflação nas empresas é uma
reposição de perdas. "Antes, uma máquina de US$ 200 mil saía por US$ 80 mil"

“Estamos resgatando margens que foram sacrificadas no ano passado”, diz Carlos Eduardo Ibrahim, gerente de vendas da Okuma, fabricante japonesa de máquinas industriais. “Na crise, uma máquina de US$ 200 mil saía por US$ 80 mil. Quem comprava, definia o quanto queria pagar. Agora, o que alguns chamam de inflação, é o início da volta à normalidade”, completou.

O mesmo fenômeno ocorre no setor de metais. Segundo Devanir Brichesi, dono da indústria de alumínio Deluma, o custo da matéria-prima está hoje 15% acima dos valores de 2009. “Absorver integralmente os custos é impensável e somos obrigados, sim, a reajustar”, disse Brichesi, que também é presidente da Associação Brasileira da Indústria de Fundição.

Para o economista Fabio Romão, da LCA Consultoria, o efeito dominó da inflação na economia – que surgiu na indústria meses atrás e chegou ao bolso do consumidor – começará a perder força a partir de março. “O descompasso entre oferta e demanda começa a ser ajustado, eliminando pressões sazonais. O IPCA de 0,78% em fevereiro não passará de 0,38% em março”, disse o economista, , que compartilha com o ministro Mantega a aposta de que a meta de 4,5% não será superada em 2010.

“A indústria está recompondo as margens, mas muitos ainda terão de se alinhar aos custos internacionais, ainda baixos por conta da crise lá fora”, acrescentou Romão. No BC, também não há um consenso sobre a necessidade de subir ou não os juros – de acordo com os técnicos, os dados nunca foram tão contraditórios como agora. Por isso mesmo, a reunião do Copom terá três dias – e não apenas dois, como de hábito.

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O que favorece aqueles que contestam a necessidade de um novo aperto monetário é o movimento de muitas empresas por mais produtividade. Na Bridgestone, fabricante de pneus, a saída para ajustar o custo da produção ao preço final do produto foi a readequação dos processos produtivos. Nos últimos dez anos, o preço da borracha natural quadruplicou. Ao mesmo tempo, as montadoras – principais clientes – ficaram mais rigorosas na questão dos custos.

“Acabamos absorvendo a maior parte do custo, recorrendo a outras alternativas como redução de despesas, congelamento de projetos de expansão e negociação com fornecedores. Ou seja, a empresa se reorganizou internamente para não causar um impacto ao consumidor”, detalhou o vice-presidente financeiro da Bridgestone, Oscar Ponzi.

 

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"Cuidado com os apressadinhos"


ENTREVISTA: GUIDO MANTEGA
Em entrevista à DINHEIRO, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou o superaquecimento da economia e disse que não há necessidade de aumento de juros.

 

DINHEIRO – Como está a economia brasileira hoje?
Está muito bem. Tem setores “bombando”, como dizem. Estão assim a indústria automobilística, a construção civil. Tem setor que até falta mão de obra. Será uma das economias que mais vão crescer neste ano.

 

DINHEIRO – A economia está superaquecida e isso puxou a alta da inflação?
Não está. A indústria investiu bastante nos últimos anos e agora tem capacidade instalada em torno de 80%, o que é bom. É só aumentar a demanda que ela responde.

 

DINHEIRO – Como controlar a inflação sem aumentar os juros?
Não podemos confundir uma inflação que é sazonal com um aumento anual da inflação. Todo janeiro tem aumento das mensalidades escolares e combustíveis. Nesse ano tivemos um problema de chuvas mais acentuado. Alguns produtos agrícolas tiveram o preço aumentado. No caso do álcool, por exemplo, subiu porque não se pôde colher a cana. O caminhão nem entrava. Em compensação, agora haverá uma supercolheita, uma superoferta. Com isso, os preços vão cair.

 

DINHEIRO – Os resultados do início do ano não foram muito piores do que o governo imaginava, e agora a inflação está muito próxima da meta de 4,5%.
Tem os apressadinhos e os interessados em que os juros subam, mas não a economia como um todo. A inflação foi sazonal, que também teve fatores excepcionais como as chuvas. Isso já passou. Espero um IPCA para março entre 0,35% e 0,40%, contra 0,78% em fevereiro. Evidentemente, se houver inflação acima da meta, teremos
medidas restritivas.

 

DINHEIRO – Quais medidas?
Já subimos o compulsório em R$ 71 bilhões. Esse dinheiro está sendo retirado de circulação. É uma medida quase como subir os juros em restrição de crédito. Já tomamos medidas, mas não podemos nos precipitar. Não podemos frear o carro antes de acelerar. O risco é abortar o processo de crescimento.

> Veja a entrevista no site da DINHEIRO
 

 

 

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Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

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