INVESTIDORES

Nº edição: 611 | Especial | 24.JUN.09 - 10:00 | Atualizado em 14.02 - 08:05

A economia segundo o Google

O site já é capaz de antecipar grandes indicadores econômicos e pode estar criando um futuro em que o preço de todas as transações será definido em leilões

Por Leonardo Attuch

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"Fazer previsões é sempre difícil, especialmente sobre o futuro." Durante muito tempo, a frase do jogador de baseball Yogi Berra ficou na cabeça de Hal Varian, um acadêmico californiano que se tornou economista-chefe do Google. Até que, recentemente, ela serviu de inspiração para um dos maiores insights de sua vida - se prever o futuro é tão difícil, por que não prever o presente? Em abril deste ano, a ideia foi colocada num trabalho chamado "Prevendo o Presente a Partir do Google Trends". Mas, mais do que um simples exercício acadêmico, Varian foi um dos primeiros a apontar, já naquele mês de abril, que a recessão americana apresentaria sinais de melhora. Isso porque as buscas relacionadas a temas como seguro-desemprego e recolocação profissional no Google estavam perdendo a intensidade. Decorridos 21 dias, quando o Departamento de Estatísticas de Emprego dos Estados Unidos revelou seus resultados, a tese de Varian se confirmou. Mas quem soubesse disso de antemão poderia também ter antecipado a alta do mercado acionário, que foi próxima a 50%.

Na verdade, o que muitos consultores e futurólogos fazem é justamente prever tendências a partir de estatísticas divulgadas por governos, entidades setoriais e empresas. Ocorre que as estatísticas sempre se tornam públicas com algum atraso, desde a coleta de dados até os resultados. O Google, ao contrário, pode fornecer uma fotografia instantânea, ainda que sujeita a imprecisões. Varian cita como exemplo o mercado de automóveis. A quantidade de buscas por um determinado modelo irá se refletir, futuramente, em vendas reais. Segundo Qinq Wu, um dos economistas da equipe de Varian, o Google pode ser definido como "o barômetro dos tempos modernos". Um produto demandado, e portanto valioso, estará no topo de uma lista de buscas, enquanto uma mercadoria encalhada terá poucos visitantes.

Por dispor da maior base de dados do mundo, o Google criou divisões de trabalho corporativas para ajudar as empresas a interpretar as informações e, a partir delas, conquistar novos clientes. As divisões mais importantes são as de varejo e serviços financeiros. Dias atrás, o responsável pela área global de serviços financeiros do Google, Jon Kaplan, falou com exclusividade à DINHEIRO. "A crise quebrou paradigmas e fez emergir um novo cliente", disse ele. "Além de mais atento aos custos e à comparação de serviços, ele passou a se focar em segurança e preservação de capital." Todas essas tendências podiam ser detectadas em expressões que eram colocadas na tela de buscas do Google. Entre elas, "stress-tests" (os testes aos quais os bancos americanos foram submetidos) e "FDIC" (o organismo governamental que garante os depósitos bancários). "Em plena crise, o Chase Manhattan, que trabalhou o conceito de segurança, aumentou seus depósitos em US$ 700 bilhões", diz Kaplan. Também se beneficiaram corretoras que operam sistemas de home-broker nos EUA, como e-trade e Ameritrade, em detrimento dos fundos. "Muitos investidores ficaram desapontados com seus gestores e se deram conta de que, se eles perdiam 40% do capital, seria melhor agir por conta própria."

No Brasil, o mesmo fenômeno foi observado. De acordo com Andreas Huettner, diretor-executivo do Google no Brasil, a combinação de palavras mais pesquisada no auge da crise foi "investimento seguro". Com o passar do tempo, a aversão ao risco diminuiu e o consumidor voltou a buscar operações de crédito de longo prazo. "Tudo muda rápido e as empresas só têm a lucrar se estiverem sintonizadas com os internautas", disse Huettner à DINHEIRO. Ele falou de uma pesquisa recente feita pelo Google em que as ferramentas de busca foram apontadas como a segunda maior fonte de informações para a tomada de decisões de compra de produtos financeiros - perdem apenas para os sites dos bancos.

Com os dados na mão, as equipes do Google procuram as empresas para vender seu principal produto: o AdWords, que comercializa links patrocinados para uma determinada expressão-chave. Ela pode estar relacionada a uma decisão econômica em tempos de crise, como "investimento seguro". Neste caso, o internauta encontrará links para a corretora Ágora, que é cliente do Google. E é com essa venda de publicidade, por meio de leilões abertos, que o Google obtém uma receita anual de US$ 21 bilhões. Nesse mercado, em que se realizam milhões de leilões a cada dia, o economista Hal Varian criou seu próprio índice de inflação. Trata-se do KPI (keyword price index), que mede os preços das palavras-chave. Essa imensa máquina de leilões poderá vir a ser, segundo Eric Schmidt, CEO da empresa, um modelo para todas as transações comerciais do futuro, em que não existirá um preço fixo e predeterminado - mas, sim, um preço a ser negociado a cada instante entre compradores e vendedores. Eis aí a grande utopia da Googlenomics.

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