NEGÓCIOS
Nº edição: 649 | Exclusivo | 12.MAR.10 - 21:00 | Atualizado em 16.11 - 12:23
Ghosn avisa: "Investiremos o que for preciso no Brasil"
Um dos mais poderosos executivos da indústria automobilística conta à DINHEIRO seus planos para ganhar mercado no País
Por Adriana Mattos
Eram 12h15 de uma terça-feira quando Carlos Ghosn, 56 anos, CEO mundial do grupo Renault Nissan, subiu ao palco no Salão do Automóvel de Genebra. Dois telões gigantescos localizados ao fundo reproduziam sua imagem em tempo real, enquanto cerca de 300 jornalistas do mundo inteiro se acotovelavam, sentados no chão e nas escadas laterais, disputando espaço para ver o estande da marca japonesa.

Um dos mais poderosos executivos da indústria automobilística conta
à DINHEIRO seus planos para ganhar mercado no País
Sempre a seu modo, Ghosn falou por cinco minutos de forma concisa e clara. Nos outros cinco minutos, andou de um lado para o outro, entre dois automóveis, com um batalhão de fotógrafos na sua cola. Antes de desaparecer, entretanto, Ghosn deixou os flashes de lado e falou com exclusividade à DINHEIRO. “Estamos prontos para investir o que for preciso e vamos levar novos produtos para o Brasil”, disse o executivo em um tom de mea-culpa.
As palavras de Ghosn indicam que, em sua visão, a empresa perdeu tempo e é chegada a hora de fazer mais no Brasil. Vinda dele, uma espécie de executivo-celebridade, a reflexão tem um significado ainda maior. Na década de 90, ele foi o responsável por tirar a montadora japonesa do atoleiro, em que se enfiava sob o peso de dívidas de US$ 20 bilhões.

O grupo Renault Nissan é um gigante global que faturou 89,7 bilhões de euros no ano passado
Depois de chamar fornecedores, rever contratos e demitir 21 mil pessoas – o que lhe rendeu o jocoso apelido de “cost killer” –, ele fez a companhia renascer e, devido ao seu trabalho, foi alçado ao comando do grupo Renault Nissan, um colosso com faturamento global de 89,7 bilhões de euros.

Agora, Ghosn, brasileiro nascido em Porto Velho, criado no Líbano e radicado na França, volta suas atenções ao mercado nacional e se mostra insatisfeito com a posição das marcas do grupo no País. “Ainda somos um fabricante menor no Brasil. Temos 1% de participação com a Nissan e 5% com a Renault. Isso nos dá 6% de share. Podemos ter mais.” E prossegue.
“Isso é pouco para nós. No mundo, essa taxa supera os 10%.” O executivo, também chamado de Mr. Seven Eleven, por iniciar o seu dia de trabalho às 7h30 e terminá-lo às 23h, tem tratado a expansão nos mercados emergentes como uma obsessão – uma postura adquirida durante a crise financeira global, que arrastou boa parte das montadoras para perto do colapso.

A Nissan precisa pensar grande aqui porque o desempenho nos mercados emergentes será o fiel da balança. Prova disso é que, em 2009, enquanto o mercado americano encolheu 21,2% e o europeu anotou uma queda de 1,9%, as vendas de carros na China cresceram 45% e 9,3% no Brasil.
Para recuperar o tempo perdido, a Renault Nissan atacará em várias frentes: lançamento de novos produtos, investimentos na produção e maior integração industrial entre modelos das duas marcas. Embora mantenham estruturas comerciais e de assistência técnica separadas, inclusive com redes de concessionárias próprias, Renault e Nissan dividem a mesma fábrica, localizada em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba.

Ghosn em ação: o executivo apresentou o compacto Micra no salão de Genebra
Nessa investida da empresa no mercado brasileiro, as maiores atenções serão direcionadas para a marca japonesa. Afinal, sua participação de mercado é quase residual, o que lhe dá mais espaço para crescimento do que a Renault, dona de 5% das vendas nacionais. Mas, para isso, a marca japonesa terá de fazer profundas mudanças estruturais, já que nunca priorizou as operações em qualquer país da América Latina, com exceção do México. “Eles não chegaram a atacar realmente o mercado local até hoje.
A Nissan está correndo atrás do prejuízo”, diz Olivier Girard, analista setorial da Trevisan Consultoria. Desde que entrou no Brasil, há dez anos, sua participação anual de mercado nunca passou de 0,7%. Essa “corrida” para sair da estagnação, dizem os analistas, inclui ações como o aumento no número de lançamentos de carros importados (há dois anos a empresa passou a trazer do México o Tiida e as novas gerações do Sentra) e também novos investimentos.

"Conseguimos passar de 1% de participação de mercado no acumulado deste ano"
Thomas Besson, presidente da Nissan do Brasil
Em 2009, a Nissan iniciou a produção do modelo Livina, o primeiro carro nacional da marca, na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná. Tudo isso para pegar carona na explosão do mercado, impulsionado pela expansão na renda e no crédito ao consumidor. Os resultados começam a aparecer. “No acumulado de janeiro e fevereiro, passamos de 1% de participação”, diz Thomas Besson, presidente da Nissan no Brasil.

RENAULT SANDERO
Preço: a partir de R$ 29,5 mil Concorrentes: Corsa e Fiesta Posição no ranking: 14o lugar
De abril a dezembro de 2009, a empresa vendeu 16.320 carros no Brasil, segundo balanço financeiro publicado no Japão. É três vezes mais do que o alcançado em 2008, ou seja, uma alta de 346,5%. Mas a companhia acha pouco. A Nissan brasileira quer ter entre 4,5% e 5% do mercado de automóveis brasileiros até 2012. Com base em projeções do mercado, e se atingir a meta desejada, a empresa alcançaria 150 mil carros vendidos por ano. Para tentar se aproximar desse número, alguns

RENAULT Duster
Preço: valor não definido, será lançado em 2011 Concorrentes: EcoSport Posição no ranking: sem posição
planos estão saindo da gaveta. Em 2011, a Nissan vai vender no Brasil o novo Micra, um carro popular compacto (tem menos de quatro metros de comprimento) que disputará espaço com líderes como o Gol, da Volkswagen; o Palio, da Fiat; e o Celta, da GM. O modelo custará cerca de R$ 30 mil, terá motor flex e usará a mecânica dos carros da Renault. Além do hatch, o Brasil deve receber, em 2012, uma versão sedan do compacto.

NISSAN Livina
Preço: de R$ 45 mil a R$ 66 mil Concorrentes: Meriva e Zafira Posição no ranking: 42o lugar
Mais: especula-se que o Micra seja fabricado em São José dos Pinhais, algo que a Nissan não confirma ainda. Isso é bem mais do que a chegada de um novo carro. É o anúncio de uma aposta que era constantemente postergada. O projeto de um compacto da japonesa no Brasil é discutido há três anos. Também não está descartada a produção local de um pequeno carro em parceria com a indiana Bajaj, nos moldes do Tata Nano. “O crescimento do mercado brasileiro é impulsionado pelos carros de entrada.

Nissan Frontier
Preço: de R$ 85 mil a R$ 117 mil Concorrentes: Hilux e L200 Posição no ranking: 5o lugar entre as picapes grandes
A Nissan tem estudado várias possibilidades para explorar melhor esse segmento”, diz Besson, da operação brasileira. Acredita-se que esse modelo possa dar fôlego maior à montadora por aqui, mas há ressalvas. “Apostar em carros populares vai fazê-la disputar mercado com a parceira Renault. É isso que a Nissan quer?”, indaga José Roberto Ferro, da JR Ferro Consultoria.
“Não seria melhor dividir as atuações das duas e fortalecer a marca Nissan no segmento de carros de maior valor agregado?” Ghosn diz que não. “Não se pode ter uma presença grande num mercado só com carros importados ou de nicho”, disse o executivo no ano passado.
As mudanças na Nissan do Brasil não se resumem apenas à chegada de novos produtos. Elas também passam pelo comando da companhia. Ghosn decidiu aproveitar uma reorganização de cargos na estrutura global e trocou o comando no Brasil. Thomas Besson deixará a presidência, em abril, para ser gerente de planejamento global no Japão.
Em seu lugar ficará o francês Christian Meunier, vice-presidente da Nissan América do Norte, que assume o cargo em abril. “Meunier já trabalhou em quatro montadoras, sabe tudo de marketing e vendas. Virá para fazer a roda girar mais rápido”, conta um ex-executivo da Renault. Nos bastidores, fala-se que Besson não fez tudo o que queria e buscava outra posição no grupo.
Inclusive, batia nessa tecla com Ghosn. Havia, por exemplo, uma meta de atingir 1,5% de participação de mercado em 2009 no Brasil. No acumulado do ano, ela ficou em 0,64%, segundo a Fenabrave (total de emplacamentos). Besson achava que isso só seria possível por meio de reforço do portfólio de carros da marca. “O maior desafio deles é realmente ganhar escala. E isso só é possível com investimentos na produção”, diz André Beer, consultor e ex-vice-presidente da GM.

"Vamos investir R$ 1 bilhão até 2012. O País é o quinto maior mercado mundial para a Renault"
Jean-Michel Jelinier, presidente da Renault do Brasil
Aparentemente, os chefões da montadora têm a mesma opinião de Beer. A Renault investiu R$ 1 bilhão no País, de 2006 a 2009, e desembolsará mais R$ 1 bilhão até 2012. “Vendemos mais de 117 mil carros em 2009 e hoje o Brasil é o quinto maior mercado da Renault. Vamos focar esses recursos em novos produtos e renovação de linha”, disse à DINHEIRO o presidente da Renault no Brasil, Jean-Michel Jelinier.
Assim como a Nissan trará o novo Micra, a Renault pretende vender e fabricar no Brasil o modelo Duster, carro recém-lançado na Europa e que deve concorrer com a EcoSport, da Ford. Há dez anos a empresa produz automóveis no País, mas nunca passou de 5% de participação de mercado, incluindo nessa conta os carros populares.
Seu crescimento de 7,5% nas vendas em 2009 foi abaixo da média do mercado, que atingiu 9,3%. Diferentemente da parceira asiática, o esforço da Renault reside na proteção de sua participação, milimetricamente disputada com a Honda. As duas terminaram o ano de 2009 quase empatadas, com a Honda à frente por uma diferença de 0,4 ponto (4,62% contra 4,58%). “Perdemos a quinta posição em 2009, mas já a recuperamos neste ano”, diz Jelinier. Ghosn está de olho.
ENTREVISTA: “NOSSA PARTICIPAÇÃO ESTÁ ABAIXO DO ACEITÁVEL”
Acompanhe a entrevista do CEO mundial do grupo Renault Nissan, Carlos Ghosn, à DINHEIRO:
DINHEIRO – Como o sr. avalia o crescimento do mercado automotivo brasileiro?
CARLOS GHOSN – O Brasil é um mercado que se tornou extremamente importante não só porque responde por 5% das vendas globais do setor automobilístico, mas também porque são esperados novos aumentos na demanda por automóveis no País nos próximos anos.
DINHEIRO – O Brasil entrou, de fato, na rota dos grandes investimentos?
GHOSN – Se você analisar os países do BRIC, percebe-se que o Brasil tem registrado um dos aumentos mais constantes nas vendas. O fato é que nenhum fabricante do planeta pode ignorar o Brasil hoje.
DINHEIRO – O mercado nacional é extremamente competitivo. Nesse contexto, como fica a Nissan?
GHOSN – Nosso grupo ainda é menor no Brasil. Temos 1% do mercado com a Nissan e 5% com a Renault. Isso nos dá 6% de participação, mas podemos ter mais.
DINHEIRO – Qual é a participação global do grupo?
GHOSN – No mundo, nossa participação chega a 10%, o que mostra que há espaço. Então, nós vamos precisar levar mais inovações ao Brasil e mais rapidamente, ao mesmo tempo que levamos para mercados mais maduros.
DINHEIRO – Mas é necessário muito investimento...
GHOSN – Estamos prontos para investir o que for preciso e vamos levar novos produtos. Precisamos aumentar nossa capacidade produtiva para termos escala e continuarmos competitivos.
DINHEIRO – Pode-se esperar, portanto, a chegada de novos carros, inclusive mais compactos?
GHOSN – Temos que ampliar nossa oferta com outros tipos de carros. O que quero dizer é que não é possível ter uma presença forte em um mercado em crescimento apenas com carros importados ou modelos de nicho. Nós podemos fazer mais.
DINHEIRO - O sr. não está contente com os resultados?
GHOSN - A participação de mercado que temos hoje no Brasil está abaixo do aceitável.
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- comentários (11)
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Leonardo W
em 16/11/2011 12:23:26
Quem se interessar em conhecer algumas reclamações comuns a respeito da Renault pode acessar http://renaultnegligence.tumblr.com/ Mas, pela falta de atenção aos clientes com problemas, a Renault parece não dar a mínima ao consumidores...
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Max Ferreira Machado
em 25/10/2010 01:11:05
O presidente da Renault só nasceu no Brasil. É um zero à esquerda em conhecer o gosto do consumidor brasileiro. A Renault tem uma postura arrogante. Tenho um Clio sedan, o melhor carro que já tive, mas, ele é execrado pela própria fábrica.
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Max Ferreira Machado
em 25/10/2010 01:07:26
Acho muito difícil a Renault conseguir aumentar a participação no mercado brasileiro. A Renault pratica preço de peças abusivos. O departamento está fora de sintonia com o gosto do brasileiro. Carro Romeno? Nem pensar. Sou proprietário de um Renault Clio, o melhor carro que já tive.
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Eduardo Teixeira Küll
em 19/03/2010 18:21:57
A Renault parece ainda não saber a que veio no Brasil, seus carros feitos aqui são modelos DÁCIA, com outro posicionamento. Sobre investir, onde, uma vez que o Fluence vai ser feito na Argentina e o March aparece em TODOS OS SITES como devendo vir do México. Alguém não está falando a verdade.
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Luciano Camargo da Silva
em 16/03/2010 23:56:57
O carro X é fabricado na Bahia e tem preco de R$ 60 mil no Brasil. Exportado para o México sai por R$34 mil. Isto significa uma relacao entre preco final e custo de producao de 2/1. O consumidor brasileiro é ignorante e pode pagar caro. Qual CEO nao sonha com uma condicao favorável de lucro fácil ?
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Erick
em 15/03/2010 15:01:07
Tirando alguns modelos "de luxo" os carros da Renault são feios para o gosto nacional. Em se falando de carro popular o Sandero por exemplo não tem nada demais com relação aos concorrentes e custa uns 4 mil reais mais caro, a revisão é mais cara e não tem bom valor de revenda.
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Frank Martins
em 15/03/2010 13:48:09
Será difícil a Nissan e a Renalt emplacar no Brasil. Nós, já acostumamos com Fiat, Volks e GM. Os carros dessas montadoras conhecem profundamente o gosto do brasileiro. Os carros da montadora citada, são feio, duros, caros e sem valor de revenda. Portanto, eles vão ter que suar muito para chegar aon
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Coyote
em 13/03/2010 19:06:50
no Brasil temos carros 1geraçao anterior com dobro de preço de países normais europa, eua, mexico, chile nossos carros ainda tem air bags como iténs opcionais de tanto que nos fazem caso me encantaria que durante 1único més Ñ se comprasse 1único carro veriam como as coisas começariam mudar vergonha
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Sérgio de la Orden
em 13/03/2010 18:00:07
Quando Ghosn assumiu a Nissan no Japão eu ainda morava lá e na realidade ele era chamado de corta cabeças. E cortou muitas. Se a Nissan ainda existe hoje, agradeçam a Carlos Ghosn. Traga o Skyline pro Brasil.
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niponico
em 12/03/2010 22:05:34
A Nissan precisa pensar no respeito ao consumidor brazuca. Que carro este quer, gostos, particularidades etc. O senhor Ghosn é um traidor dos brasileiros. Devia se envergonhar e nunca mais colocar o pé no Brasil caso continue vendendo as decepções de nome Nissan e Renalt.
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Eduardo Ligeiro
em 12/03/2010 16:23:11
Ghosn. Com este posicionamento no mercado, e modelos caros, sem apelo ... O problema da renault e principalmente da Nissan está em produtos ... Fracos, sem apelo de marketing, e caros perante a concorrência. A lição está com a honda, e com a própria Kia, que soube se reinventar. O mercado está aí.
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